Quando um raio não é apenas um raio
“O que aconteceu em Brasília somente será entendido pela extrema direita no campo da irracionalidade”, escreve Moisés Mendes
Fracassarão todos os que tentarem abordar as consequências do raio na aglomeração de Nikolas Ferreira em Brasília, se usarem as ferramentas de alguma racionalidade.
Porque nada do que é racional funciona para a extrema direita que tentou contatos com marcianos para aplicar o golpe e cantou o hino para pneus.
Dizem, como crítica mais previsível, que Nikolas Ferreira, se fosse de fato um líder, teria evitado um ajuntamento em meio a uma chuvarada. É um argumento usual e razoável.
Também podem dizer que autoridades da segurança deveriam ter interditado o local e determinado, e não apenas orientado, que os manifestantes se afastassem dos equipamentos que contribuíram para a formação do raio.
Nada disso terá repercussão alguma entre o bolsonarismo. Ninguém da extrema direita mobilizada por Nikolas irá admitir que o comício deveria ter sido dispersado.
Ninguém do bolsonarismo irá atribuir responsabilidade alguma a Nikolas e aos organizadores da caminhada. Mesmo que só líderes do segundo time tenham participado da empreitada.
Também não funcionam entre eles as abordagens de parte das esquerdas, como ironia religiosa, de que o raio foi um aviso divino ao fascismo sem limites.
Eles entenderão que o acontecido foi sim uma mensagem a fiéis dedicados à defesa do líder preso, mas para que perseverem, mesmo com raios e trovoadas.
Não é preciso se esforçar muito para prever que o bolsonarismo dará ao episódio tons de dramaticidade bíblica.
Pouco antes da descarga elétrica, Michelle Bolsonaro havia publicado essa mensagem de fé nas redes sociais: "É um evento pacífico, ordeiro, conduzido por Deus".
Os bolsonaristas, os que estavam em Brasília e os que acompanhavam de longe, têm certeza de que o significado transcendente do episódio vai favorecê-los sempre.
É possível até que alguns vejam Nikolas com o poder de atrair raios, para testar a fé dos seus seguidores, que caminharam mais de 200 quilômetros (enquanto ele parava em hotéis) até a provação imposta por Deus.
E Deus não foi introduzido por Michelle na caminhada. Ele estava com os caminhantes desde o começo, em Paracatu. Deus está sempre com a extrema direita, mas vem falhando em eleições, golpes e romarias em defesa de anistias.
Um raio, nessas situações e com esses personagens como pastores de rebanhos, nem sempre será apenas um raio.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



