Os argentinos ficaram ricos, no Brasil
"Os hermanos fogem da desesperança e desfrutam do país que muda suas vidas por alguns dias", escreve Moisés Mendes
Influencers do bolsonarismo compartilham desde o ano passado textos e vídeos de exaltação da prosperidade argentina, a partir de um fenômeno que se acentua no verão – a invasão de hermanos nas praias brasileiras.
Os textos de vivas a Javier Milei foram disseminados, entre outros, pelo véio da Havan, que viu seus negócios prosperarem com a presença dos argentinos. Eles compram tudo e bastante.
Ativistas exaltam os pretensos milagres econômicos produzidos por Milei, que só eles enxergam. O fascismo ultraliberal teria uma vitrine de fartura aqui ao lado. Mas não há milagre algum.
Os argentinos de classe média ficam ricos só quando estão no Brasil. Alguns conseguem ‘enriquecer’ em outros países, pela combinação de cotação das moedas, dos preços internos e externos de todas as coisas consumíveis e duráveis e, principalmente, por um fator histórico e particular dos argentinos.
A classe média que recebe salários em pesos transforma quase tudo em dólares. A poupança argentina é dolarizada desde a década em que um peso valeu um dólar. Mesmo depois da implosão da dolarização forçada, em 2001. Argentino só confia em dólar.
E no Brasil os dólares, que estão ‘baratos’ na Argentina em relação ao peso, valem mais. Hotéis, refeições, custos totais de um veraneio, tudo aqui ficou mais barato para eles.
Tão mais barato, no Brasil e no turismo internacional, que saem hoje da Argentina duas vezes mais argentinos do que entram estrangeiros.
O repórter Alejandro Horvat, do jornal La Nación, foi à Praia do Rosa, em Santa Catarina, para ver a invasão do lugar preferido por eles no Sul do Brasil.
Calculam que a presença deles esse ano seja o dobro da registrada no ano passado. Argentinos desembarcam de carro, de avião e de ônibus de excursão.
Vêm de turma, com jovens misturados a gente de todas as idades, incluindo idosos, em ônibus que viajam às vezes dois dias para chegar ao Brasil. Como veranista, eu testemunhei esses desembarques no Rosa, por uma semana, no ano passado.
É bom ver a alegria dos argentinos chegando à praia em revoadas. No Sul do Brasil, não era assim nos anos 90 da dolarização, quando vinham famílias com os filhos, viajando de carro.
Agora são jovens em grupos, desfrutando de um momento que ninguém sabe quanto irá durar. Os enxames de argentinos com dólares escondem a realidade de um país em desalento.
Há detalhes que a direita brasileira finge não enxergar. O desencanto na Argentina contagia agora a elite empresarial do país. O mesmo Nación publicou dados do tradicional relatório sobre riscos globais, que sai às vésperas do Fórum de Davos, com as perspectivas específicas para a Argentina, e há alarmes acionados.
O jornal revela que, após o choque inicial de combate à inflação, os argentinos começam a exigir novas soluções, e suas preocupações com o país estão mudando: são emprego, renda, serviços públicos e combate à desigualdade.
É o ponto de vista dos empresários, de como eles enxergam a situação do país mais adiante. Para a elite econômica, a cobrança será agora pelo resgate de programas de proteção social, educação pública, reajuste de pensões. Tudo o que Milei cortou.
Há temor com as consequências das desigualdades sociais e a falta de perspectivas para os jovens, muitos desses em férias no Brasil. Foram ouvidos 80 empresários e executivos, que começam a ver as sequelas da recessão.
Os empresários, acredite, se declaram preocupados com a distribuição da riqueza, diante da ameaça de inquietação e da polarização que se renova e se fortalece com a manutenção do discurso extremista de Milei.
O diretor da consultoria Synopsis, Lucas Romero, apresenta essa analogia médica ao La Nación: a Argentina precisa sair da terapia intensiva para os cuidados da estabilização, para que reaja e volte a crescer. Mas com Milei?
O governo reduziu a inflação (de 30% para 2,5% ao mês), mas estrangulou a economia. Cortou programais sociais, asfixiou os aposentados e fez economia até com programas destinados a pessoas com deficiências. Tudo em nome do arrocho.
Agora, os argentinos que apostaram na mágica querem futuro, num país sem presente e com obsessão por dólares. Foram os US$ 20 bilhões de um socorro de Trump, às vésperas das eleições parlamentares do ano passado, que asseguraram a vitória da direita.
Grandes empresários, pequenos comerciantes e a população em geral dependem da certeza de que terão acesso à moeda americana, e não ao peso, para manter os níveis de uma poupança única na região. São pelo menos US$ 200 bilhões guardados em algum lugar, e não em bancos. Os argentinos têm em casa reservas que o governo não tem.
Agora, no domingo, puxei conversa com um casal de argentinos num supermercado de Torres, na fronteira do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. Estavam subindo de carro, com um filho de seis anos, em direção a Florianópolis.
Gente de classe média. O homem foi às prateleiras para tentar me convencer de que muita coisa no Brasil está hoje com preço parecido com os da Argentina.
Pegou um pacote de massa e fez as contas: os R$ 4 cobrados aqui equivalem mais ou menos aos mil pesos cobrados lá. Mas não quis comentar que lá a inflação de alimentos continua e que aqui há até deflação em algumas áreas.
Perguntei então o que os leva a veranear aqui, apesar das grandes distâncias, e qual seria a vantagem comparativa em relação ao Brasil. A síntese óbvia é essa: as inigualáveis praias brasileiras e os dólares que eles trazem de lá.
Pegar a estrada é mais prazeroso e mais barato do que ficar na Argentina. O casal e o filho estão no Brasil gastando o que juntaram de dólares. Por alguns dias, são argentinos ricos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



