As vítimas de todos os golpes de Vorcaro, Bolsonaro, Tarcísio, Flávio
“A pirâmide do Master era como todas as pirâmides, entre as quais as da extrema direita”, escreve Moisés Mendes
É pretensa e genericamente moralista a abordagem que prevalece, na grande mídia e nas redes, sobre o caso Master. O que mais se expressa é o espanto: como puderam fazer isso com os que confiaram no pagamento de juros tão altos?
E temos então o que sabemos sobre a pirâmide, o rombo nas contas do Master, as mutretas com gente do Banco de Brasília, a promiscuidade com políticos, a leniência do Banco Central e o desespero de parte da grande imprensa.
Mas o que predomina é, a partir dessas anormalidades, a pauta que puxa a conversa para as questões éticas, incluindo a quase lenda do contrato da mulher de Alexandre de Moraes com o banco.
Essa é a pauta de Marcelo Rubens Paiva em artigo na Folha, no qual admite que aplicava dinheiro no banco e que teme agora levar um calote.
O escritor atribui a tentação ao fato de que “os papéis eram oferecidos efusivamente por assessores da nossa personal fintech”. A fintech era efusiva, o aplicador aderiu à efusão e aconteceu o que se sabe.
É raso demais apontar o dedo para os aplicadores e dizer: ah, caiu na pirâmide do Daniel Vorcaro. Assim como é fácil, pelo ponto de vista da vítima, atribuir tudo aos ‘outros’.
Os outros são as fintechs efusivas em demasia, os que fizeram propaganda aberta para o banco, os que ajudaram a expandir o boca a boca e todos os que teriam sido cúmplices de Vorcaro.
Tratavam o Master como tratam todas as corporações e marcas do mercado financeiro, onde quase tudo é considerado normal, até o envolvimento da Faria Lima com o PCC.
Mas o tamanho do estrondo, principalmente nos jornalões, expôs desde o começo que há mais do que poupadores ‘simples e normais’, como Rubens Paiva, nessa história.
Há o que no Rio Grande do Sul se define como vítima de talagaços. Pelo tom de desespero da cobertura, percebe-se que há danos grandes não só para o que chamam genericamente de mercado. Há danos pessoais e empresariais pesados, o tal talagaço, o estrago das grandes perdas.
E aí a abordagem pretensamente moral não vale nada. Porque até a última aplicação, antes da implosão do banco, tudo parecia normal na anormalidade de quem pagava o que ninguém mais estava pagando.
Rubens Paiva, jornalista esperto, uma cabeça brilhante, escreveu na Folha:
“O banqueiro ostentação Daniel Vorcaro, figurinha carimbada da tradicional sociedade mineira, descobriu os furos do queijo suíço brasileiro, o poder, para praticar o golpe do século, tão manjado quanto a ameixa de um manjar branco, e montou uma pirâmide financeira”.
É como cair, muito antes das fintechs efusivas, no golpe do pacote, que só funcionava quando aplicado nos outros, até que um dia acontece com a gente. A abordagem moral não pode se manifestar só quando nós somos a vítima.
Os que levaram o talagaço estão sabendo, tanto quanto os que votaram em Bolsonaro em 2018 e em 2022 e podem votar em Flávio ou Tarcísio em 2026, que é tudo uma fria, é tudo pirâmide e golpe do pacote financeiro ou político.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



