Moisés Mendes avatar

Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

1096 artigos

HOME > blog

Tarcísio, o CEO vacilão, apresenta-se como o Pablo Marçal da turma da Faria Lima

“Se o mercado pudesse decidir uma eleição, Henrique Meirelles não teria perdido até para Cabo Daciolo em 2018”, escreve Moisés Mendes

Brasília-DF - 02/12/2025 - O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

A grande sacada de Tarcísio de Freitas, desde que chegou ao governo paulista, não foi aquela foto desastrosa com o boné de Trump. Aconteceu agora, com a declaração em vídeo de que o Brasil precisa de um novo CEO para se ver livre do PT.

A primeira-dama, Cristiane Freitas, em jogada ensaiada, foi lá, curtiu o vídeo e deixou esse comentário: “Nosso país precisa de um novo CEO, meu marido!". Tarcísio teria produzido uma eureca em família.

Comentaristas de ponta da direita nos jornalões captaram o recado como algo excepcional. Enquanto Michelle fala de Lúcifer, com a linguagem do povo evangélico, Cristiane vem aí com a fala do pessoal da Faria Lima.

Recauchutam e tentam ressuscitar a ideia gasta do político gestor, que com certeza saiu da cabeça de algum marqueteiro reciclador de sacadas usadas.

Será ao empresariado e ao mercado financeiro que Tarcísio deve se dirigir, para dar racionalidade a um novo bolsonarismo e disputar a vaga de candidato da direita com Flávio. Análises entusiasmadas resumem o fato novo como um agora vai. Se chegar ao mercado, depois chega ao povo.

Mas Tarcísio, o tenente reformado que dormiu como burocrata de Estado e acordou governador, sabe que não funciona assim. Que ele nem precisa falar para o mercado e para a Faria Lima.

Ele sabe que o mercado está sempre sabotando inimigos, como faz com Lula, mas não tem ação propositiva relevante na política brasileira há muito tempo. O mercado não tem programa de governo e nem voto, porque não orienta o voto de quase ninguém.

O mercado tem dinheiro para comprar e vender. Tarcísio não precisa falar com Romeu Zema e com Ibaneis Rocha para tentar entender como os dois, também sem histórico na política, se transformaram em fenômenos em Minas e no Distrito Federal.

Ambos são mais do que bem sucedidos, são milionários em suas áreas e passam essa imagem a quem decide, a quem tem voto. São muito ricos, mas não são invenções da direita em conluio com o mercado.

São apostas de quem leva a sério essa gente que ganhou dinheiro e, segundo uma tesse furada, por isso é exemplo de prosperidade e não precisa se apropriar de dinheiro público. Esses seriam os CEOs que o povo quer, mas só em suas paróquias.

Zema e Ibaneis têm o carisma de uma tartaruga, mas produzem, como personagens quase caricatos, essa mágica que transforma figuras amorfas em candidatos sedutores e governadores. Isso não tem relação direta com o que chamam de poder político do mercado.

Se tivesse, Henrique Meirelles teria sido o Romeu Zema de 2018. Se o mercado tivesse força eleitoral para orientar o voto dos brasileiros, Meirelles não teria passado o vexame de ocupar o sexto lugar entre os candidatos de 2018.

Meirelles, bem sucedido como presidente do Banco Central e pouco conhecido pelo eleitor como ex-banqueiro, teve 1,20% dos votos. Ficou, na contagem das migalhas, atrás de Cabo Daciolo, que teve 1,26%. E Meirelles era o candidato do MDB.

O mercado pode conspirar contra Flávio e atrapalhar sua tentativa de ficar amiguinho dos empresários e dos executivos da Faria Lima. Mas não tem o poder de determinar escolhas ao avisar que está com Tarcísio, e não com Flávio.

Não funciona assim há muito tempo. Lula terá que fazer concessões a essa gente, na tentativa do quarto mandato, porque é preciso manter o mercado de bucho cheio. Mas não será o mercado que irá determinar o sucesso ou o fracasso de Lula.

Ao lado de Valdemar, Kassab e Ciro Nogueira e das influências e interferências das redes sociais e das estruturas criminosas de disseminação de fake news, o mercado é apenas um cão latindo para a lua.

Claro que poderá e deverá financiar ataques à democracia a serviço de Trump e dos que vestiram o boné da MAGA. Poderá tentar fazer em 2026 o que o bolsonarismo quase conseguiu em 2026. Mas essa conversa de CEO só excita jornalistas e a Faria Lima. O povo não sabe o que é um CEO e para que serve.

O povo nem sabe que Tarcísio é o candidato da velha direita e da classe média, esse vasto contingente de solidez gasosa que elegeu Bolsonaro em 2018 e quase o reelegeu em 2022.

Para a classe média, essa coisa de CEO até que pega, mas não a ponto de livrá-lo do estigma de que é muito mais ligado às estruturas golpistas e milicianas do bolsonarismo do que às facções do mercado e da Faria Lima.

Tarcísio de Freitas tenta ficar bem com o eleitor tucano em desalento desde 2014, mas pode provocar as raízes bolsonaristas, que são sensíveis a essas jogadas. Tanto que muita gente não gostou da história de CEO. O que o extremista moderado precisa mesmo é do centrão.

Tarcísio é um vacilão que não sabe o que quer e está em busca de outro boné. É um burocrata inventado por Bolsonaro que, com os acenos para o mercado, fica parecendo o Pablo Marçal da Faria Lima.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados