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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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Quarto Vazio — As mães no cinema

"Os quartos vazios existem aqui também. Eles só ainda não chegaram ao Oscar"

Quarto Vazio — As mães no cinema

Há um gesto que o cinema contemporâneo tem repetido com uma insistência que não pode ser romantizado, entrar nos espaços das infâncias e vidas interrompidas. Fotografar as camas feitas que ninguém mais vai desfazer. Registrar os brinquedos que ficaram ou documentar a ausência como se a ausência fosse, ela mesma, uma prova do crime.

All The Empty Rooms — indicado ao Oscar 2026 e disponível na Netflix — faz exatamente isso. O curta-metragem documental acompanha um jornalista e um fotógrafo percorrendo os Estados Unidos para registrar os quartos de crianças assassinadas em tiroteios escolares. O que o filme mostra não é a bala. É o que fica depois da bala: a mochila pendurada, o pôster na parede, a luz que alguém esqueceu acesa. O luto como arquitetura. A ausência como documento político.

Do outro lado do mundo, Um Zé Ninguém Contra Putin — vencedor do Prêmio Especial do Júri em Sundance e também indicado ao Oscar 2026 — registra clandestinamente um professor russo que denuncia a doutrinação militar imposta às escolas sob o regime de guerra de Putin. São crianças sendo preparadas para morrer antes mesmo de entenderem por quê. Dois filmes, dois países, dois contextos radicalmente distintos — e um mesmo eixo: a escola como campo de batalha. A infância como alvo.

Quando esses filmes chegam ao circuito internacional de premiações, o mundo para para assistir. Quando a mesma história acontece nas favelas brasileiras, é preciso que as próprias vítimas peguem a câmera e façam a produção de roteiros re-contextualizados.

A Cheiro de Diesel, dirigido por Natasha Neri e Gizele Martins — esta última criada na Maré, jornalista comunitária, integrante da Comissão de Direitos Humanos da ALERJ —, é o documentário estreia no circuito comercial brasileiro no dia 2 de abril e traz para a tela os traumas deixados pela militarização de favelas do Rio de Janeiro. Maré, Penha, Morro do Salgueiro: comunidades que viveram, entre 2014 e 2015 e novamente entre 2017 e 2018, a ocupação das Forças Armadas autorizada por decretos de Garantia da Lei e Ordem. Tanques nas ruas. Soldados armados nas portas das escolas. Revistas constantes. Assassinatos. E, como Gizele descreve, "a censura dos comunicadores comunitários" — porque onde há ocupação militar, a primeira coisa que se ocupa é a narrativa.

A semana de estreia não é coincidência. O dia 1º de abril marca 62 anos do Golpe militar de 1964. O dia 5 de abril lembra 12 anos do início da ocupação da Maré. A memória aqui não é ornamento — é estratégia política. É a recusa de deixar que o tempo trabalhe a favor do esquecimento.

Premiado no Festival do Rio com o Prêmio Especial do Júri e com o prêmio de Melhor Documentário pelo voto popular, Cheiro de Diesel faz o que os filmes indicados ao Oscar fazem nos Estados Unidos e na Rússia — mas a partir de dentro. Com o corpo que viveu. Com a voz de quem não foi convidada a narrar, mas que narrou assim mesmo, porque a alternativa era o silêncio, e o silêncio, nesse contexto, é cumplicidade.

Há um tipo de força que nasce quando o luto deixa de ser apenas privado e passa a ocupar o espaço público. No Brasil, muitas mulheres transformaram a dor de perder filhos e filhas em ação política, em denúncia, em construção de memória. Marinete da Silva é uma delas. Após o assassinato de sua filha, a vereadora Marielle Franco, Marinete não recuou para o luto doméstico que o patriarcado reserva às mães em sofrimento. Ela avançou. Ocupou palanques, microfones, tribunais internacionais. Transformou o quarto vazio em argumento político — e o argumento político em pressão sobre um Estado que, por anos, preferiu não saber quem mandou matar.

Marinete não está sozinha nesse gesto. Ao seu redor e ao lado dela existem dezenas, centenas de mães que perderam filhos para a violência do Estado e que se recusaram a aceitar que essa perda fosse tratada como dado estatístico. Mães de Manguinhos. Mães do Movimento. Mães que aprenderam, na prática mais brutal possível, que no Brasil a maternidade negra e periférica é um exercício de sobrevivência política permanente.

O que Cheiro de Diesel faz — e o que All The Empty Rooms faz nos Estados Unidos, e o que Um Zé Ninguém Contra Putin faz na Rússia — é dar às câmeras o papel que deveria caber ao Estado: documentar, testemunhar, não deixar esquecer. A diferença é que nos filmes americano e russo essa câmera chega de fora, carregada pelo prestígio do circuito internacional de festivais. No Brasil, ela vem de dentro — e precisa lutar para chegar ao circuito comercial, para ter uma data de estreia, para existir como obra e não apenas como registro de resistência.

Essa assimetria importa. Quando um curta sobre quartos de crianças mortas em tiroteios escolares nos EUA é exibido na cerimônia do Oscar, ele mobiliza a comoção global. Quando Gizele Martins documenta o cotidiano de invasão às escolas da Maré, ela precisa construir o próprio circuito de distribuição — porque o luto das favelas brasileiras ainda não foi convidado para a sala nobre do cinema mundial.

Não é por falta de urgência, mas por excesso de normalização. A violência do Estado contra as populações negras, marginalizadas e periféricas no Brasil foi tão sistematicamente naturalizada que ela raramente produz o tipo de comoção que lota salas de cinema nos centros urbanos ou mobiliza júris internacionais. Ela produz, quando muito, uma nota de rodapé nas estatísticas de segurança pública.

Cheiro de Diesel existe para rasgar essa nota de rodapé e colocar no centro o que sempre esteve lá: vidas inteiras. Comunidades inteiras. Mães que sobreviveram à ocupação militar de seus bairros e que seguem, anos depois, carregando no corpo a memória do cheiro de diesel dos tanques que passaram pela porta de suas casas.

Em um país onde tantas histórias de perda permanecem invisíveis, obras como Cheiro de Diesel não são apenas cinema — são arquivo político. São a prova material de que algo aconteceu, de que não foi acidente, de que havia crianças naquelas escolas e mães naquelas casas e um Estado que decidiu, com decreto assinado, que aquelas vidas podiam ser administradas sob a lógica da guerra. Os quartos vazios existem aqui também. Eles só ainda não chegaram ao Oscar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.