Que guerra está por vir?
Essa guerra pode se transformar em uma derrota para os Estados Unidos
À margem da reunião do G7 na França, convocada para discutir as repercussões da Guerra do Golfo nas economias de seus países-membros, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha afirmou que não havia divergências com os Estados Unidos quanto à posição sobre o Irã. Enquanto isso, o ministro das Relações Exteriores da França pediu ao Irã que cessasse seus ataques contra civis. A reunião terminou com a decisão de realizar um encontro ampliado com os ministros das Relações Exteriores dos países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), para discutir os próximos passos relacionados à situação na região.
Claramente, reina a confusão no campo ocidental. Trump, que inicialmente exigiu que o Irã abrisse o “Estreito Trump”, antes de se corrigir para o “Estreito de Ormuz”, alegou que seus parceiros da OTAN não ofereceram assistência e que ele não precisava da ajuda deles. Alemanha, França e Reino Unido, juntamente com seus parceiros, também declararam que não participaram da guerra estadunidense - israelense contra o Irã. De fato, a onda mais forte de críticas vem dos próprios Estados Unidos, liderada por um grupo de políticos e ex-líderes militares. Todos percebem que o efeito “bola de neve” cresce em duas direções: primeiro, o enorme volume de mentiras e declarações enganosas emitidas por Trump; segundo, a tensão econômica que assola grande parte do mundo, levando muitos países a adotarem medidas de austeridade em antecipação ao pior.
Todas essas declarações ocorreram antes de o exército iemenita anunciar sua entrada no conflito ao lado da resistência. Esse anúncio transformou a ansiedade econômica europeia em pânico, já que a discussão gira em torno da potencial interrupção da produção de petróleo no Golfo, da possibilidade de seu transporte pelo Estreito de Ormuz e da interrupção das cadeias de suprimentos que passam pelo Estreito de Bab el-Mandeb, incluindo mercadorias e petróleo originários de fora da região do Golfo. Nesse cenário, a possibilidade de uma terceira guerra mundial deixa de ser mera fantasia de jornalistas e de alguns políticos, tornando-se uma possibilidade concreta imposta pelo conflito em curso.
Mas quem quer uma terceira guerra mundial? A resposta é simples: ninguém. No entanto, grandes guerras não são travadas por vontade própria; na verdade, são resultado de momentos cruciais na história que impulsionam todos para os campos de batalha. Esses momentos não precisam necessariamente estar ligados a grandes eventos, como a agressão estadunidense contra o Irã. Certamente, o estudante sérvio Gavrilo Princip, que assassinou o arquiduque austríaco, não tinha a intenção de deflagrar uma guerra mundial, mas esse episódio constituiu a reviravolta acidental que levou ao início da Primeira Guerra Mundial.
Neste ponto do conflito, 15 países estão efetivamente envolvidos: de um lado, os Estados Unidos, Israel, os Estados do Golfo, a Jordânia e a Ucrânia; de outro, Irã, Líbano, Iraque, Iêmen, Palestina e Rússia. Trump tentou arrastar a Europa para o conflito, mas falhou, e a China busca se manter fora dele para mitigar os impactos negativos em sua economia. Será que o Estreito de Bab el-Mandeb abrirá as portas para uma grande guerra?
O mundo deposita suas esperanças no chamado “Estado profundo” estadunidense para conter o presidente Trump e seus instigadores. Até agora, o vice-presidente e o secretário de Estado não conseguiram influenciar o lobby supremacista branco, e até mesmo a cúpula política republicana (representantes e senadores) demonstra forte inclinação pelas políticas de Trump. No entanto, as perdas infligidas aos Estados Unidos e a seus aliados pelo Eixo da Resistência estão aumentando, tanto no campo militar quanto no econômico. Isso se refletiu na recente retórica belicosa do presidente Trump, que o líder da maioria no Senado, Chuck Schumer, descreveu como a mais absurda, vulgar e desconexa da história estadunidense.
Essa guerra pode se transformar em uma derrota para os Estados Unidos. Uma derrota desse tipo poderia levar o presidente estadunidense a recorrer ao uso de uma arma nuclear tática para encerrar o conflito com um único ataque? O Congresso aprovaria essa opção? Tudo indica que não, mas a pressão de uma iminente derrota, somada a uma série de relatórios de inteligência fabricados — que se tornaram comuns dentro do governo Trump —, poderia levá-lo a aprová-la.
Diante da possibilidade desse cenário, expandir as frentes torna-se uma opção estratégica para proteger o Eixo. Após o fracasso do inimigo em obter uma vitória decisiva com um primeiro ataque, enfrentá-lo militarmente em múltiplas frentes e exercer pressão econômica, visando diversas vias navegáveis, tornam-se táticas adequadas para submetê-lo a uma pressão ainda maior.
O inimigo está plenamente ciente de que a ocupação do Estreito de Ormuz não impede o Irã de fechá-lo por meio de uma série de minas rudimentares e de baixo custo, além de minas sofisticadas. Isso tornaria a reabertura do estreito extremamente difícil e exigiria um longo período de tempo — algo que a economia global não pode suportar. E há sempre o Estreito de Bab el-Mandeb, cuja interrupção tornaria o custo de vida no mundo ocidental insuportável.
O Irã está sofrendo perdas humanas e econômicas, mas possui grande determinação e força de vontade. Enquanto isso, nosso povo, devido à prolongada opressão, vive em um estado de resignação e com uma tendência a aceitar a derrota. Recordemos a situação geral após o martírio de Sua Eminência Sayyed Hassan Nasrallah e os acordos de cessar-fogo no Líbano e em Gaza. Esta guerra veio para refutar muitas de nossas crenças e suposições. O Irã cumpriu suas promessas, e o Hezbollah e o Ansar Allah permanecem firmes em suas posições.
Independentemente do curso dos acontecimentos e de seus resultados, os apoiadores da resistência devem permanecer convictos de que ela perdurará e triunfará, e de que esta guerra, ou a próxima, ou a seguinte, nos trará a vitória, pois o império colonial envelheceu e seu tempo chegou ao fim.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



