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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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Quem a ditadura matou e ainda não aparece na foto?

Travestis também foram vítimas da ditadura e seguem ausentes das listas oficiais de mortos e desaparecidos

Quem a ditadura matou e ainda não aparece na foto? (Foto: Fotos cedidas pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo)

No próximo dia 29 de março, a cidade de São Paulo recebe a 6ª edição da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado. A concentração será às 16h, em frente ao antigo DOI-Codi, na Rua Tutoia, espaço que se tornou um dos principais símbolos da repressão durante a ditadura militar brasileira. A caminhada segue até o Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, no Parque Ibirapuera, onde acontece o encerramento.

Organizado pelo Movimento Vozes do Silêncio, com participação do Núcleo de Preservação da Memória Política e do Instituto Vladimir Herzog, o ato reafirma o compromisso público com a memória, a verdade e a justiça. Mais do que um gesto simbólico, a caminhada convoca a sociedade a reconhecer que lembrar continua sendo uma forma concreta de proteger a democracia.

Há uma dimensão da memória ainda marcada por silêncio histórico, entre as vítimas da violência de Estado durante a ditadura, travestis e outras pessoas dissidentes de gênero permanecem quase invisíveis nos registros oficiais apesar do movimento denso que professores e artistas LGBTI+, bem como movimentos sociais denunciam.

Uma repressão que existiu, sem ser nomeada

A Comissão Nacional da Verdade reconheceu que gays, lésbicas, travestis e pessoas trans sofreram perseguições sistemáticas durante o regime iniciado em 1964, com prisões arbitrárias, tortura, censura e vigilância policial. Ainda assim, diferentemente de militantes políticos identificados nominalmente, essas vítimas raramente aparecem nas listas formais de mortos e desaparecidos. Isso não significa ausência de violência, mas as ausências de registros.

A própria documentação histórica demonstra que a repressão à dissidência sexual foi estruturada como política moral e urbana. Travestis eram detidas, fichadas, expulsas de territórios centrais e submetidas a operações policiais de “higienização” social que atravessaram os anos 1970 e 1980. 

E se há mortes sem arquivo, também há vidas sem nome!

A Comissão Nacional da Verdade contabilizou 434 pessoas mortas ou desaparecidas por razões políticas durante a ditadura. Esse número, porém, não contempla plenamente populações perseguidas por critérios morais e sexuais. Travestis assassinadas, espancadas ou empurradas para zonas de vulnerabilidade extrema raramente foram registradas como vítimas políticas, ainda que o fossem. Muitas morreram sob violência policial indireta, expulsão territorial, encarceramento arbitrário ou abandono institucional. O regime operava também pela produção de invisibilidade e mesmo anos depois de presenciar e sofrer uma infinidade de violências, não me recordo de ter recebido um pedido formal de "desculpas” por parte do Estado. Por isso, hoje movimentos sociais articulam pedidos formais de anistia coletiva para travestis e mulheres trans perseguidas naquele período, reivindicando reconhecimento histórico e reparação estatal. 

A política da aparência e a pedagogia da exclusão

Durante a ditadura, a presença pública de algumas figuras dissidentes não significava aceitação. Ao contrário, funcionava como estratégia estética e política de controle social. A travesti ou o homossexual da família brasileira, menções a Rogéria e Clodovil, criavam a ilusão de acolhimento e cristandade. Havia uma lógica silenciosa, porém eficaz, certas figuras eram toleradas como exceção familiarizada, quase domesticada, usadas como exemplo de que existiria uma diferença aceitável dentro da ordem. Outras eram enquadradas como ameaça moral, sujeira urbana ou degeneração social.

Era uma pedagogia pública da distinção ensinada na Tv aberta sem precisar dizer uma só palavra. A artista do "Show de Calouros” versus as "vergonha da família". Um caos que validava algumas em detrimento do resto. E aqui "resto”sem o exato sentido do que pode ser descartado.

Essa operação simbólica produzia um recado claro para a sociedade, a diferença podia existir desde que fosse disciplinada, discreta e útil à narrativa de normalidade. Fora disso, tornava-se alvo legítimo de repressão. A ideologia dominante do regime associava dissidência sexual à subversão e à ameaça política, reforçando políticas de vigilância e exclusão que atingiram diretamente as estigmatizadas travestis, as lésbicas e os homossexuais.  

Cultura e presença

Na 6ª Caminhada do Silêncio, a memória também será construída por meio da arte. O cantor e compositor João Suplicy participa do encerramento com voz e violão. A cantora Raíssa Spada apresenta repertório atravessado por experiências íntimas e políticas da memória. Já Thobias da Vai-Vai, referência histórica do Grêmio Recreativo Cultural Social Escola de Samba Vai-Vai, reafirma o papel da cultura popular como linguagem de resistência.

A caminhada integra o calendário oficial da cidade por meio da Lei nº 17.886, de autoria do deputado estadual Antonio Donato.

Reconhecer quem ficou fora da fotografia

A organização convida o público a participar levando uma flor branca e caminhando em silêncio, um gesto simples, mas profundamente político.

Porque lembrar não significa apenas repetir nomes já conhecidos. Significa também ampliar o campo da memória para incluir aquelas vidas que o Estado perseguiu sem registrar, silenciou e apagou, sem listar e sem reconhecer.

Entre elas, muitas travestis. Muitas histórias interrompidas que sempre lembro, não estão aqui para recontar suas versões.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.