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Alexandre Aragão de Albuquerque

Escritor e Mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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Quem manda no mundo

Como a disputa entre Estados Unidos e China redefine o poder global e expõe os riscos de uma ordem internacional baseada na força

O presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente dos EUA, Donald Trump, têm uma reunião privada em Zhongnanhai, em Pequim, capital da China, em 15 de maio de 2026 (Foto: Xinhua/Yan Yan)
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 Na última terça-feira, 12, véspera de sua viagem à China, o presidente dos EUA Donald Trump publicou em sua rede social na plataforma X uma imagem do mapa da Venezuela com as cores da bandeira estadunidense, insinuando que aquele país será um 51º estado norte-americano. Um total desrespeito à soberania daquele povo.  

No documento da Nova Estratégia de Segurança Nacional (NSS) do Governo Trump, publicado em 4 de novembro de 2025, é afirmado textualmente que a ordem global se baseia no domínio dos maiores, os mais ricos e os mais fortes, sinalizando à comunidade internacional das nações suas capacidades estratégicas limitadas. Defendendo uma visão de mundo onde não há garantias de respeito ao direito internacional por parte dos EUA, ensejando o abandono da ordem internacional baseada em regras.

Neste sentido, o governo Trump reitera e atualiza a Doutrina Monroe, afirmando uma presença neoimperialista na América Latina e Caribe, região na qual as forças armadas estadunidenses se concentrarão prioritariamente, afirmando que os EUA podem atacar a qualquer momento qualquer país da região, cujo foco está centrado na expulsão da China seja dos portos latino-americanos onde está presente, como em outras estruturas críticas, visando limitar substancialmente seu engajamento na região. O documento afirma textualmente que a força é o melhor elemento dissuador.  

O HOMEM-MASSA

Publicada originalmente em 1930, o clássico “Rebelião das Massas”, do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, tem muito a dizer aos nossos tempos contemporâneos. O escopo do seu trabalho é o de analisar e conceituar o surgimento do homem-massa, presente, segundo o autor, nos mais diversos estratos sociais, caracterizado pela sua incapacidade de reflexão crítica e profunda, consequentemente avesso a qualquer opinião ou posição que lhe seja contrária, definindo como verdade somente aquilo que lhe convém.

Ortega adverte para a estupidez como esses indivíduos pensam, julgam e atuam na política, na arte, na religião e nos problemas gerais da vida e do mundo. A condição de não escutar o outro diferente, e de não se submeter a instâncias do pensamento e da lei, constitui a causa imediata do surgimento da barbárie nos tempos atuais. As verdades teóricas não são só discutíveis, mas todo seu sentido e força estão justamente em serem discutidas; nascem do debate, vivem enquanto se discutem e são feitas para a discussão.  

O homem-massa se caracteriza pela insinceridade, pela galhofa, pela zombaria. Brincam de tragédia porque são apenas aparência enquanto indivíduos: sabem que certas coisas não podem ser e, mesmo assim, e por isso mesmo, fingem com seus atos e palavras a convicção “contrária”. Os fascistas, por exemplo, se mobilizam contra as liberdades políticas e civis investindo precisamente na ausência da verdade.  

Para o homem-massa a vida é algo fácil, contentando-se consigo mesmo, afirmando por bom e completo todo o seu “depósito moral e intelectual”. Tal contentamento consigo mesmo o leva a se fechar para toda instância exterior, a não escutar, a não pôr em questão suas opiniões e não a contar com as demais. Sua sensação íntima de domínio lhe incita constantemente a exercer esse predomínio: age como se somente ele e seus congêneres existissem no mundo.

Intervém em tudo, impondo sua opinião vulgar, sem considerações, contemplações, trâmites nem reservas, quer dizer, segundo um regime de ação direta: prefere a vida sob uma autoridade absoluta a um regime aberto de discussão e representação.

Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos, de medicamentos benéficos, de Estados previdentes, de direitos humanos, porém, em compensação, ignora o quão difícil é inventar esses medicamentos e instrumentos, para assegurar sua produção no futuro. Sequer é capaz de refletir sobre a fragilidade da organização democrática de um Estado, não imponto obrigações republicanas dentro de si para o cuidado com a democracia. Esse seu desequilíbrio o falseia, esvazia sua raiz de ser vivente, fazendo com perca o contato com a própria substância da vida, que é perigo absoluto, problema radical.

QUEM MANDA NO MUNDO

No capítulo XIV do livro, intitulado “Quem manda no mundo?”, Ortega vai analisar a relação entre o deslocamento do poder que traz consigo o deslocamento do espírito.

O mando para o autor é o exercício normal da autoridade, que sempre se funda no espírito hegemônico que norteia determinada sociedade. Ninguém jamais mandou na terra nutrindo seu mando essencialmente de outra coisa a não ser da opinião pública (o espírito). A opinião pública é a força radical que produz, nas sociedades humanas, o fenômeno de mandar, uma coisa tão antiga e perene quanto o próprio humano.

Mandar não é um gesto de tomada de poder, mas seu tranquilo exercício. Em suma, mandar é assentar: num trono, numa cadeira, numa poltrona presidencial, numa sede. Mandar é menos uma questão de punhos do que de assento. O Estado é, definitivamente, o estado da opinião (espírito): uma situação de equilíbrio.

O primeiro Estado ou poder público que se formou na Europa foi a Igreja (católica), com seu caráter específico e já nominativo de poder espiritual. Mando significa prepotência de uma opinião, portanto, de um espírito. Os fatos históricos confirmam escrupulosamente que todo mando primitivo tem um caráter sacro, porque se funda na religião, e o religioso é sempre a primeira forma sob a qual aparece o que logo vai ser espírito, ideia, opinião: em suma, o imaterial e o metafísico.

O poder político aprende com a Igreja que ele – poder político – também não passa, originalmente, de poder espiritual, vigência de certas ideias, configurando-se como um espírito do tempo. Para Ortega, a maioria dos humanos não tem opinião, e é preciso que ela lhe venha de fora, por pressão, como o lubrificante entra nas máquinas. Por isso é preciso que o espírito – seja ele qual for – tenha poder e o exerça para que as pessoas que não opinam, opinem. Sem opiniões a convivência humana seria um caos, um nada histórico.



A MENSAGEM DO PRESIDENTE XI JINPING

No último dia 14 de maio, o presidente chinês Xi Jinping manteve colóquios com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Grande Palácio do Povo, em Pequim, em visita àquele país.

Xi em seu discurso exaltou que uma transformação está se acelerando em todo o mundo, em meio a uma situação internacional instável e turbulenta. Neste sentido convidou Trump a superar a “Armadilha de Tucídides”, e criar um paradigma para as relações entre as grandes potências, enfrentando juntos os desafios globais e proporcionar maior estabilidade ao mundo.

Perguntou: “Seremos capazes de construir juntos um futuro brilhante para nossas relações bilaterais, em prol do bem-estar dos dois povos e do futuro da humanidade? Estas são questões vitais para a história, para o mundo e para os povos”.

Xi Jinping propõe um novo espírito geopolítico, uma nova visão que fornecerá orientação estratégica para as relações bilaterais: a estabilidade estratégica construtiva. Esta deve ser: i) uma estabilidade com efeito positivo tendo a cooperação como pilar; ii) uma estabilidade saudável, por meio de uma competição moderada; iii) uma estabilidade constante, com diferenças administráveis; iv) uma estabilidade duradoura, com a promessa de paz. Não devendo ser um mero slogan, mas uma ação concreta tomada por ambas as partes em direção ao mesmo objetivo.

Diferentemente do espírito destrutivo, bélico, que guia o presidente norte-americano Donald Trump, com seus recentes ataques à Venezuela, ao Irã, juntamente com a ameaça do ataque a Cuba, o presidente chinês Xi Jinping propõe um novo espírito construtivo para guiar as relações bilaterais e internacionais. As nações com seus líderes estão de olhos e ouvidos abertos para essa movimentação fundamental para o futuro da humanidade.  

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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