Relatórios suspeitos no BC ampliam pressão para investigar atuação de Campos Neto no escândalo Master
Relatórios de servidores hoje investigados influenciaram decisões sobre o Banco Master e ampliam pressão por apuração do papel de Campos Neto
As novas revelações da Operação Compliance Zero aprofundam a crise em torno do Banco Master e recolocam no centro do debate o papel desempenhado por Roberto Campos Neto durante sua gestão à frente do Banco Central. Informações recentes indicam que relatórios produzidos por servidores hoje investigados por suspeita de favorecer o controlador do banco, Daniel Vorcaro, tiveram peso relevante em avaliações regulatórias feitas quando Campos Neto presidia a autarquia. O conjunto de fatos torna cada vez mais difícil sustentar que o ex-presidente do BC permaneça fora do alcance das investigações.
Segundo reportagem do jornal Valor Econômico, análises elaboradas por técnicos da área de supervisão ajudaram a afastar, naquele momento, a hipótese de liquidação do Banco Master. Os relatórios apontavam normalidade nas operações da instituição, mesmo diante de alertas vindos do mercado financeiro sobre possíveis irregularidades. O problema é que esses mesmos servidores passaram posteriormente a ser investigados pela Polícia Federal por suspeita de atuar em favor de Vorcaro dentro da estrutura do próprio regulador.
Os nomes centrais desse episódio são Paulo Souza e Belline Santana, integrantes da área responsável por supervisionar o sistema financeiro. Souza acompanhava diretamente o Banco Master, enquanto Belline chefiava o Departamento de Supervisão do Banco Central. Ambos produziram ou encaminharam análises que sustentaram a avaliação de que não havia irregularidades relevantes na instituição — conclusão que hoje se mostra profundamente questionável.
Campos Neto não pode alegar desconhecimento completo do problema. De acordo com as informações divulgadas, ele recebeu alertas de agentes do mercado financeiro sobre possíveis distorções nas operações do banco. Diante dessas denúncias, determinou que a equipe técnica analisasse as carteiras do Master. O relatório apresentado por Paulo Souza concluiu que não havia irregularidades relevantes. À luz das investigações atuais, confiar integralmente em avaliações produzidas dentro de um ambiente posteriormente marcado por suspeitas revela, no mínimo, uma falha grave de supervisão.
O avanço das investigações da Polícia Federal alterou completamente o cenário. Souza e Belline passaram a ser suspeitos de ter recebido vantagens financeiras relacionadas ao banco controlado por Vorcaro. O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça determinou o uso de tornozeleira eletrônica pelos dois enquanto as apurações prosseguem. A decisão judicial menciona pagamentos feitos por meio de uma empresa por supostos serviços de consultoria no caso de Belline — estrutura que investigadores consideram simulada.
Outro episódio que levanta dúvidas profundas envolve a elaboração de um relatório sobre uma reunião realizada em novembro de 2025 entre Vorcaro e o diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino. Mesmo não sendo prática comum produzir registros formais detalhados desse tipo de encontro, Paulo Souza redigiu um documento descrevendo a conversa. O texto foi rapidamente encaminhado por Belline aos advogados do banqueiro e acabou sendo utilizado pela defesa para sustentar argumentos que contribuíram para a soltura de Vorcaro após sua primeira prisão.
Também chama atenção a atuação de Souza na defesa da proposta de venda do Banco Master ao Banco de Brasília dentro do próprio Banco Central. Mesmo sem ter sido solicitado e atuando fora de sua área direta de competência, o servidor enviou mensagens internas defendendo a operação. O episódio reforça a impressão de que havia movimentos dentro do regulador alinhados aos interesses do controlador do banco, o que torna ainda mais grave a ausência de reação firme da direção da instituição naquele momento.
A pressão política por esclarecimentos começou a crescer. O deputado federal Lindbergh Farias anunciou que apresentará uma notícia-crime à Procuradoria-Geral da República para que Roberto Campos Neto seja investigado por “omissão dolosa” no caso do Banco Master. Segundo o parlamentar, as mensagens encontradas no celular de Vorcaro e as suspeitas envolvendo servidores do Banco Central indicam fatos extremamente graves. Lindbergh sustenta que a proximidade entre o banqueiro e integrantes da área de supervisão da autarquia sugere uma subordinação do regulador aos interesses do banco, razão pela qual defende a apuração do papel pessoal do ex-presidente do BC.
Tudo isso coloca inevitavelmente Roberto Campos Neto sob um foco institucional que tende a se intensificar. Ele comandava o Banco Central quando relatórios hoje considerados suspeitos influenciaram decisões importantes sobre a supervisão do Banco Master. O escândalo já revelou fraudes bilionárias, suspeitas de corrupção dentro da autoridade monetária e sinais de captura regulatória. Diante desse quadro, investigar o papel da antiga direção do Banco Central não é apenas legítimo — é indispensável para a credibilidade do sistema financeiro brasileiro.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



