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João Lister

Advogado, graduado pelo UNIUBE – Universidade de Uberaba, Pós Graduado MBA, em Direito Empresarial pela FGV e psicanalista

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Resetem a República

Não estamos diante de um “escândalo”; estamos diante de um diagnóstico. E diagnósticos pedem palavra dura: resetar

Resetem a República (Foto: ABR)

A palavra “República” virou ornamento. Um brasão em prédio público. Um selo em papel timbrado. Uma liturgia de solenidades. Por baixo, porém, o que se move — como motor real do país — é outra coisa: um sistema de permissões, uma engenharia de impunidades, um ecossistema de interdependências tão entranhado que já não se sabe onde termina a exceção e começa a regra.É nesse ponto que “reforma” se torna eufemismo. Reforma supõe que o edifício tem fundação aproveitável. O que o Caso Master revela — não como prova final de culpabilidades individuais (isso é assunto do devido processo), mas como sintoma institucional — é que a estrutura se acostumou a funcionar com vazamentos de ética, com atalho procedimental, com proteção recíproca. Não estamos diante de um “escândalo”; estamos diante de um diagnóstico. E diagnósticos pedem palavra dura: resetar.

I. O Caso Master como sintoma: quando a República vira ambiente operacional

Um país pode sobreviver a um criminoso. O que um país não sobrevive por muito tempo é a um ambiente criminosamente funcional — aquele em que esquemas não são acidentes, mas possibilidades permanentes, porque o Estado oferece o que eles precisam: brechas, sombras, intermediários, facilidades, o silêncio certo na hora certa.O que assusta no Caso Master não é apenas o conteúdo que veio a público em notícias e informes investigativos; é o desenho de mundo que ele sugere: a circulação de influência como tecnologia, a tentativa de controlar narrativas, a intimidação como instrumento, a proximidade perigosa entre finança, política e esferas de poder. Mesmo sem condenar pessoas no varejo, o atacado está exposto: se o Estado pode ser “operado”, então já não é Estado; é plataforma.Há um ponto em que a indignação não é emocional: é racional. É quando se percebe que o país passou a discutir “o que aconteceu” como se fosse o centro, quando o centro é outro: o que pode acontecer de novo, com os mesmos mecanismos, amanhã.

II. Separar o joio do trigo: a coerência de Lula e o truque da insinuação eterna

Há, contudo, um cuidado moral que precisa ser preservado — e que costuma desaparecer justamente quando a política vira guerra: separar o joio do trigo.A República apodrece também quando substitui prova por insinuação, e processo por sugestão. Por isso, se há um ponto em que a crítica precisa ser intelectualmente honesta, é este: não se pode transformar o Caso Master em arma de “cola narrativa” contra o presidente Lula.Lula, goste-se ou não de seu projeto, carrega um dado histórico singular: foi submetido a uma devassa prolongada — pessoal, familiar, política — em escala incomum. E o que se consolidou, ao longo desse percurso, foi que a perseguição pode ser barulhenta e ainda assim ser vazia, pode ser teatral e ainda assim não produzir substância. Esse contraste — devassa profunda e ausência de lastro conclusivo para demonização permanente — é parte do que sustenta, hoje, a leitura de “homem ilibado” no imaginário de amplas parcelas populares: não por santidade, mas por sobrevivência a uma máquina de suspeitas.No Caso Master, repete-se o truque: não se apresenta fato; apresenta-se “ambiente”; não se prova vínculo; sugere-se “proximidade”; não se argumenta; insinua-se. É a política reduzida à fofoca institucional. E isso interessa precisamente a quem quer impedir o reset verdadeiro, porque o país se perde numa guerra de torcidas e deixa de enxergar o que importa: a engrenagem.

III. A engrenagem: o pacto mafioso das elites e o Estado como clube

A engrenagem, aqui, não é metáfora literária — é sociologia política.

O Brasil tem uma tradição que atravessa séculos: a de um Estado que frequentemente funciona como patrimônio de castas. O nome acadêmico disso é patrimonialismo; o nome popular é mais simples: o público tratado como propriedade privada. O ponto não é dizer “todo mundo é corrupto”; isso é vulgar e covarde. O ponto é dizer que, em determinados estratos, o sistema se protege, e a proteção é mais rápida do que a transparência.

Esse pacto mafioso moderno raramente precisa de reuniões secretas. Ele opera por reflexo:

  • quando uma apuração ameaça atravessar fronteiras sensíveis, instala-se a cautela seletiva;
  • quando a imprensa encosta em nervos expostos, surge o “vamos aguardar”;
  • quando o escândalo pode escalar, brota o silêncio;
  • quando a política deveria investigar, ela calcula.

Essa é a forma civilizada da “omertà”: não a ameaça explícita, mas a administração do tempo, o abafamento por exaustão, o esvaziamento por proceduralismo.E é por isso que o Caso Master, mais do que qualquer nome próprio, confronta o país com uma pergunta intolerável: quantas instituições funcionam como instituições — e quantas funcionam como corporações de autopreservação?Quando a resposta é incerta, não há República: há corporativismo com bandeira.

IV. A corrupção como continuidade histórica: não é um “surto”, é uma estrutura

O Brasil tem episódios históricos de corrupção e captura do Estado que não precisam de folclore recente nem de cruzadas judiciais midiáticas para serem lembrados. Eles existem antes e além do moralismo de ocasião: crises orçamentárias, esquemas de licitação, redes de extração de renda pública, fiscalizações transformadas em extorsão, emendas convertidas em balcão.

Mas o argumento mais duro não é listar casos. O argumento mais duro é reconhecer o padrão histórico: sempre que a República tenta organizar um circuito de controle, o circuito é reconfigurado para controlar o controle. Sempre que se criam travas, surgem intermediários. Sempre que se exige transparência, inventa-se o sigilo conveniente. Sempre que o país tenta moralizar, surge o “jeitinho” institucionalizado.Esse é o fundo filosófico do reset: não se trata de “acabar com a corrupção” como slogan infantil; trata-se de admitir que o país está preso num modelo em que a corrupção é uma modalidade recorrente de governança — um tributo informal, um pedágio social, uma renda parasitária.

Quando isso vira cultura operacional, a reforma incremental vira placebo.

V. Por que “resetar” significa começar do zero — e não “melhorar”

Há um momento em que a sociedade precisa escolher entre dois caminhos igualmente desconfortáveis:

  1. normalizar — aceitar que o Estado funciona assim, apenas com mudanças cosméticas, troca de personagens, punições episódicas, escândalos administrados; ou
  2. refundar — aceitar que certos pilares precisam ser reescritos, porque foram corroídos a ponto de não sustentarem legitimidade.

“Resetar” significa reconhecer que o problema deixou de ser uma soma de falhas individuais e passou a ser um regime de funcionamento. E regime não se corrige com remendo; regime se substitui.Isso não é chamado à ruptura irresponsável; é chamado à ruptura constitucionalmente organizada: uma reconstrução com regras novas, travas novas, fiscalização real, transparência como default, e — sobretudo — controle efetivo sobre os controladores.

Sim: isso implica tocar no que o Brasil costuma tratar como intocável.

Implica discutir seriamente:

  • mecanismos robustos de responsabilização e auditoria institucional onde o poder é quase absoluto;
  • filtros contra conflitos de interesse, portas giratórias e promiscuidade entre privado e público;
  • limites claros para poderes extraordinários e para a opacidade seletiva;
  • reforma profunda das formas de indicação, controle e prestação de contas nos vértices do sistema.

E, se a engrenagem política impede qualquer reação rápida, é legítimo discutir arquitetura de regime. Em sistemas parlamentaristas, crises profundas podem gerar dissolução e recomposição com menos trauma do que no presidencialismo de coalizão — onde tudo vira chantagem orçamentária, pacto de sobrevivência e “governabilidade” como sinônimo de concessão infinita. Não é que o parlamentarismo seja milagre. É que ele reconhece uma verdade: quando o sistema apodrece, o país precisa de mecanismo para trocar o sistema sem implodir a nação.

VI. Um líbelo final: a República não é um prédio — é um pacto moral

O Brasil está cansado. E o cansaço é a principal arma da podridão: quando o povo se cansa, ele aceita o inaceitável como paisagem. Aceita a captura como “política”. Aceita a blindagem como “institucionalidade”. Aceita o silêncio como “prudência”. Aceita o medo como “normal”.

É por isso que este artigo não pede paciência. Paciência é o nome polido da rendição.

O que se pede é uma insubordinação cívica contra o estado de coisas — não a insubordinação do vandalismo, mas a insubordinação da consciência: a recusa em tratar como inevitável um sistema em que a lei, tantas vezes, parece não ser regra, mas ferramenta.

Se o Caso Master ensina algo — como sinal de época, e não como sentença definitiva — é que a República, do jeito que está, se tornou vulnerável demais para ser consertada por retoques. Ela precisa ser reiniciada.

Resetem a República:

não para trocar um grupo por outro,

não para criar um novo clube,

não para repor a mesma elite com outra máscara, mas para devolver ao país o que lhe foi sequestrado: o direito de que o público seja público, e o poder seja controlável.

Porque, se não houver reset, o que haverá é pior: a consolidação de uma democracia de fachada — onde se vota, mas não se governa; onde se investiga, mas não se atravessa; onde se denuncia, mas não se altera; onde se espera, mas não se muda.

E isso, sim, é o fim da República — não com tanques, mas com silêncio. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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