Rica Perrone, o mundo do futebol e a liberdade de expressão como pretexto
Se a sua opinião exclui, humilha, subjuga, ridiculariza, torna inválida ou violenta a existência do outro, ela passa a ser um crime, defende Ricardo Nêggo Tom
Segundo o jornalista esportivo Rica Perrone, “a imprensa esportiva do Brasil virou um circo. O que fazem com os 'inimigos' é surreal." É dessa forma que ele classifica as críticas a Neymar, pela fala machista e sexista do jogador do Santos após o jogo contra o Remo, onde ele disse que árbitro da partida “acordou de ‘chico’ e veio pro jogo”, numa referência ao período menstrual das mulheres. Só por conta dessa polêmica, fiquei sabendo que o termo “chico” é uma corruptela de chiqueiro, e sugere que o ciclo menstrual feminino seria algo sujo e impuro. Como defende a Bíblia em Levíticos, quando mulheres menstruadas eram consideradas impuras por sete dias, e tornavam impuro quem as tocasse, tocasse em seus objetos, ou mantinham relações sexuais com elas durante este período.
A Bíblia também recomenda “rituais de purificação” para as mulheres após a menstruação, e, em outras culturas antigas, a impureza do sangue menstrual é usada como metáfora para pecados e vergonha. Uma loucura que, se perpetuada até os dias de hoje, ainda estaria submetendo as mulheres a uma condição de inferioridade e de limitação de sua liberdade. Não estamos numa aula de biologia, nem dentro de um consultório ginecológico, mas assistindo a dois vídeos bem distintos – um do Rica Perrone, e outro da jornalista Milly Lacombe – entendi, como homem, que há uma necessidade de letramento feminino para nós que fomos criados numa sociedade estruturalmente machista e patriarcal. E isso não é identitarismo não, turma do PCO. Que certamente irá escrever um texto anônimo refutando o meu no site do partido. É a atualização do processo civilizatório. E é normal que nem todos estejam preparados para isso. Talvez, por não serem tão civilizados quanto imaginam.
Enquanto Milly Lacombe aborda questões estruturais, sociais e educacionais que moldaram a subjetividade masculina em outras épocas - e ainda continuam moldando – chamando a atenção para a necessidade de letramento para o público masculino, antes de instituir a lei que criminaliza a misoginia, Rica Perrone opta pelo discurso raso característico da extrema-direita, defendendo a liberdade de expressão e de opinião para o cometimento de falas preconceituosas. Perrone diz que “noventa por cento do Brasil hoje é formado por um bando de frouxos, doutrinado por um bando de idiotas que está sentado numa sala de redação, com um microfone na mão e dentro de uma bolha, achando que aquilo é o mundo real. Sendo que, noventa por cento das pessoas não concordam com isso” Uma estatística que tem como fonte as vozes conservadoras e reacionárias que insistem em falar aos seus ouvidos.
Não serei hipócrita de dizer que nunca usei a expressão chula dita por Neymar. Porém, ao mudar de mentalidade e pensamento, não posso continuar dentro da bolha que um dia estive, e justificar o uso de expressões preconceituosa como algo lúdico, sob a égide do “mundo real” Até porque, nós podemos mudar o conceito de mundo real com base em uma nova visão de mundo. Como já cantou Gabriel, o pensador: “Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente. A gente muda o mundo na mudança da mente. E quando a mente muda, a gente anda pra frente. E quando a gente manda ninguém manda na gente.
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura.
Na mudança de postura a gente fica mais seguro, na mudança do presente a gente molda o futuro!”
Os versos da música “Até quando?”, é uma aula de mudança de postura e pensamento, que só os “frouxos” e os “idiotas” convencidos de que o mundo real é o que é, e por naturalidade, se recusam a frequentar. Entender que estar ao lado de uma maioria nem sempre significa ter razão, é desconhecer o conceito de efeito manada, e resistir à ideia de que preconceitos e paradigmas forjados sob este viés, são construções sociais, e, portanto, podem ser desconstruídos em qualquer tempo. Desde que a mente esteja disposta a mudar. Do contrário, ainda estaríamos escravizando seres humanos, queimando mulheres na fogueira santa, apedrejando pecadores e dizimando povos não desejados. Não que isso ainda não seja feito nos dias atuais. Mas já não é visto com a naturalidade de outrora. Problematizar um problema e trazê-lo ao escrutínio público usando o futebol como palco do debate, não é pretexto para campanha eleitoral, como Rica Perrone intitula o seu vídeo. Pode até ser para alguns oportunistas eleitoreiros, mas não para as pessoas que historicamente foram vítimas desses preconceitos.
Perrone precisa entender que o futebol como “um mundo à parte”, como se caracterizou em outros tempos, não existe mais. Nem dentro – com a qualidade técnica de jogadores que tínhamos no passado – nem fora de campo, como um efeito positivo da globalização e integração das sociedades e suas culturas, através dos meios de comunicação. A chamada “aldeia global” é uma bolha que passou a abrigar e influenciar todas as outras, como uma espécie de Cristo e seu evangelho. Já que estamos na semana santa, vou evocar uma frase atribuída a ele e que se encaixa no contexto social em que vivemos: “Eu não vim trazer a paz, mas a espada”. E a espada da desconstrução dos preconceitos sociais, raciais e culturais, está nas mãos daqueles que estão “evangelizando” a sociedade, a fim de libertá-la de males históricos, e permitir que os tradicionalmente oprimidos tenham suas vidas e almas protegidas e salvas da violência existencial que o mundo sempre lhes impôs.
Pode ser que você não veja nenhum problema numa piada ou em uma fala racista, machista, homofóbica ou elitista. No entanto, se você não for um idiota, irá perceber que não é sobre você, suas opiniões e sua visão de mundo. Algo que nem deve importar para a maioria das pessoas. É sobre toda uma coletividade, o seu bem-estar, a sua validação e o seu pertencimento ao mundo. Se o que eu falo exclui, humilha, subjuga, inferioriza, ridiculariza, torna inválida ou violenta a existência do outro, a minha opinião passa a ser um crime contra a humanidade do outro. A não ser que o seu conceito de humanidade seja diferente. Não estou querendo dizer que todos somos iguais, porque não somos. Nem Deus nos vê como iguais, segundo prega a maioria das religiões, que sempre tem um líder, alguém que para o “ser superior” é mais capaz do que os outros, e deve guiá-los no “caminho”. Não que eu concorde integralmente com isso, diga-se de passagem. Somos diferentes, e essas diferenças devem ser respeitadas e não alvos de preconceito, reprovação ou ira divina.
Culturalmente, o futebol sempre foi “coisa pra homem”, e eu, um dia, também reproduzi essa fala, entre outras, que hoje entendo que não devem ser mais reproduzidas. Também culturalmente, ofensas raciais, misóginas e homofóbicas também já foram consideradas normais. Hoje são criminalizadas. Mas ainda há quem considere o combate a essas falas uma idiotice de quem vive numa bolha. Óbvio, que eu não defendo uma punição ao Neymar pela fala que ele fez. Como já foi dito anteriormente, estamos em processo de desconstrução – apesar da resistência de alguns – e nem todos ainda estão letrados a ponto de evitar tais falas. Porém, existem diversas “bolhas” e “redações” promovendo este letramento, e alertando quanto à necessidade de mudança. E não são idiotas que desconhecem o mundo real. Pelo contrário, são pessoas que não suportam mais o mundo como ele ainda está e trabalham para mudar tal realidade, de modo que ela se torne melhor para todos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


