Rubens Menin defende pacto nacional contra juros e alerta: “O estado brasileiro pode quebrar”
Empresário afirma que taxa em torno de 15% ao ano corrói contas públicas e cobra mobilização de todos os Poderes para destravar a economia
247 – Em entrevista concedida à TV 247, o empresário Rubens Menin afirmou que a atual política de juros no Brasil se tornou insustentável para a economia, para as famílias, para o setor produtivo e também para as contas públicas. Ao conversar com o jornalista Leonardo Attuch, Menin defendeu um pacto nacional para enfrentar o problema e fez um alerta direto sobre o impacto da taxa básica em patamar elevado por um período prolongado.
Ao longo da entrevista, Menin sustentou que o país vive uma situação nociva e prolongada demais. Para ele, o juro alto poderia até ser admitido em momentos excepcionais, mas apenas por pouco tempo. “Eu sou um defensor da tese de que os juros altos têm que ser por muito período muito curto de tempo. O efeito nocivo na sociedade, na economia, é muito grande”, declarou.
Juros altos corroem empresas, famílias e o próprio Estado
Na avaliação do empresário, o dano causado pelos juros elevados vai muito além do ambiente de negócios. Ele argumenta que a política monetária restritiva afeta diretamente a renda das famílias, encarece o crédito cotidiano, desestimula investimentos e aprofunda o endividamento público.
Menin resumiu sua crítica em termos contundentes: “Eu acho que nós estamos chegando a um ponto que passou do tolerável”. Em seguida, comparou o atual desafio ao esforço nacional feito contra a hiperinflação nos anos 1990. “Em 94 a inflação incomodava todo mundo e aí o Brasil entendeu que todo mundo precisava se unir e fazer um sacrifício. Só que o juro passou desapercebido. O efeito do juro é tão nocivo quanto o efeito da inflação”, afirmou.
Para ele, o debate sobre juros não pode ser tratado como uma disputa ideológica entre campos políticos. Trata-se, segundo sua formulação, de uma agenda de Estado. “Isso não é agenda de direita, agência de esquerda, é agenda de estado”, disse. E reforçou: “O estado brasileiro não pode achar que vai ganhar a guerra com uma taxa de juro. É inviável”.
Crítica ao custo fiscal da política monetária
Um dos pontos centrais da entrevista foi a relação entre juros e deterioração fiscal. Menin contestou a ideia de que o ajuste das contas públicas possa ser discutido sem enfrentar o peso dos juros reais sobre a dívida. Para ele, mesmo com esforço no resultado primário, o problema persiste se o custo financeiro continuar em níveis tão elevados.
Sua advertência foi direta: “O estado brasileiro vai quebrar se continuar pagando um juro de 15%. Não fica de pé”. Na mesma linha, ele observou que o crescimento da dívida pública está sendo alimentado pelo próprio nível da taxa real de juros. “Não adianta você ter um déficit primário zerado se você tem um juro real tão alto”, afirmou.
Menin defendeu que o país precisa identificar com clareza o foco do problema. “Nós temos que achar o inimigo certo, que é o juros”, disse. Para ele, o enfrentamento dessa distorção exigirá a participação coordenada do Executivo, do Congresso, do Judiciário e da sociedade.
Pacto nacional e sacrifício compartilhado
Ao longo da conversa, o empresário voltou várias vezes à ideia de um grande acordo nacional para reduzir o peso do custo do dinheiro na economia brasileira. Em sua visão, nenhum setor conseguirá escapar de algum nível de sacrifício, mas a repartição desse esforço é justamente o que pode tornar a transição viável.
Menin afirmou: “Todo mundo vai ter que ter uma parcela de sacrifício”. E completou que será necessário construir uma mensagem ampla de compromisso com a racionalização dos recursos públicos: “O judiciário tem que ser um grande parceiro nessa hora. O Congresso tem que ser um grande parceiro, o executivo tem que ser um grande parceiro e a sociedade como toda tem que participar”.
Ele também associou esse processo à necessidade de demonstrar à população que há empenho efetivo para melhorar a qualidade do gasto. “Otimizar gasto vai ser fundamental, mas mais importante que otimizar é passar a mensagem para toda a sociedade que os gastos estão sendo otimizados”, afirmou.
Banco não ganha com juro alto, diz Menin
Leonardo Attuch levantou durante a entrevista um ponto frequentemente presente no debate público: a percepção de que banqueiros tenderiam a defender juros altos por se beneficiarem diretamente desse cenário. Menin, que além de fundador da MRV também é controlador do Banco Inter, rebateu essa leitura.
“O pessoal acha que o banco ganha dinheiro com juro, o banco perde dinheiro com juro”, disse. Segundo ele, a atividade bancária depende da intermediação entre captação e concessão de crédito, e juros muito altos elevam o risco, ampliam a inadimplência e tornam o spread ainda mais problemático.
Na explicação apresentada por Menin, o ambiente de juros elevados encarece não apenas o crédito final, mas também amplia a insegurança do sistema como um todo. “Quanto maior os juros, esse spread fica mais arriscado porque a inadimplência aumenta”, afirmou. Em seguida, chamou atenção para a escalada das recuperações judiciais e para o enfraquecimento geral da atividade produtiva.
Rentismo como consequência, e não causa
Outro trecho relevante da entrevista tratou do chamado rentismo. Attuch observou que a taxa real elevada estimula a formação de uma base social interessada na manutenção dos juros altos, composta por grandes investidores, super-ricos e setores da classe média alta. Menin concordou que o rentista prospera nesse cenário, mas sustentou que ele não é a origem do problema.
“O rentismo não é a causa, é a consequência”, disse. Segundo o empresário, a remuneração excessiva do capital financeiro desvia recursos que poderiam estar sendo canalizados para investimento produtivo, expansão empresarial e consumo das famílias. “Ele tá, vamos dizer, sangrando um dinheiro que iria para investimentos”, afirmou.
Na avaliação de Menin, taxas reais menores continuariam oferecendo remuneração relevante ao capital, sem sufocar a economia real. “O juro de 5% é muito dinheiro. Em vez de 10% é muito dinheiro em qualquer lugar do mundo e as empresas poderiam investir, as famílias poderem investir”, declarou.
Construção civil resiste, mas sofre descapitalização
Ao comentar os efeitos do juro alto sobre a construção civil, Menin destacou que o setor possui enorme relevância econômica e social no Brasil, mas vem sendo pressionado pelo encarecimento do capital e pela perda de fôlego financeiro das empresas.
Ele lembrou que o país tem escala demográfica suficiente para sustentar grandes plataformas produtivas e afirmou que a construção continua sendo uma atividade estratégica. No entanto, fez um alerta sobre o avanço da descapitalização: “Eu tô sentindo que as empresas estão ficando mais descapitalizadas”.
Segundo Menin, a deterioração não aparece apenas na taxa básica, mas também nos spreads cobrados do setor. “Hoje já estão pegando CDI mais 3, CDI mais 4. O spread cresceu muito pra indústria. A indústria fica fraca”, afirmou. Em sua leitura, o problema é estrutural: com custo de financiamento tão alto, a conta do investimento de longo prazo simplesmente deixa de fechar.
Minha Casa Minha Vida segura o setor
Apesar do ambiente adverso, Menin apontou um fator de sustentação importante para a habitação popular: o programa Minha Casa Minha Vida. Para ele, a política pública tem funcionado como um escudo parcial contra os efeitos mais destrutivos da taxa básica elevada, graças ao modelo de funding vinculado ao FGTS.
“O que tá segurando hoje é o Minha Casa e Minha Vida”, afirmou. Em seguida, elogiou o desenho operacional do programa: “Minha Casa e Minha Vida tá muito bem gerido”. Segundo ele, o setor poderá registrar em 2026 o maior volume de unidades da história dentro da política habitacional, com mais de 600 mil imóveis.
Menin também enfatizou a importância social e econômica da construção habitacional. “A habitação é um dos maiores ganhos da sociedade”, declarou, defendendo a ideia de que o país precisa preservar políticas capazes de ampliar acesso à moradia ao mesmo tempo em que dinamizam a produção nacional.
Elogios a Jader Filho
Na entrevista, o empresário também elogiou o ministro das Cidades, Jader Filho. Menin relatou que não conhecia o ministro antes de sua posse, mas afirmou ter sido positivamente surpreendido pela forma como ele passou a se relacionar com o setor.
“O Jader foi uma grata surpresa”, disse. Segundo Menin, o ministro abriu diálogo efetivo com os agentes da construção e estruturou uma governança de alto nível dentro da pasta. “Ele sentou, fez uma governança lá no Ministério das Cidades de altíssimo nível e ele entregou muito”, afirmou.
O empresário acrescentou que o setor reconheceu esse desempenho e chegou a prestar uma homenagem ao ministro. “Ele fez um trabalho muito bom, muito bom mesmo”, resumiu.
Relação com Lula e Haddad
Ao ser questionado sobre o diálogo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o ministro Fernando Haddad, Menin disse que o setor já levou essa preocupação ao governo federal. Segundo ele, houve receptividade às críticas e às sugestões, embora a implementação das mudanças seja difícil.
“O setor teve uma reunião com o presidente Lula e com o ministro Hadad e falamos, eles concordaram na época sobre o juros”, relatou. Ainda assim, reconheceu que as saídas possíveis envolvem custos políticos e sociais, motivo pelo qual insiste na necessidade de uma construção coletiva.
Menin argumentou que as elites brasileiras não podem se limitar à reclamação passiva. “Nossa obrigação, independente de que governo que seja, a gente tem que tá na linha de frente conversando”, afirmou.
Ajuste fiscal, Bolsa Família e debate sensível
No trecho mais delicado da entrevista, Menin defendeu que o debate sobre reorganização fiscal precisará incluir programas sociais, sempre com foco em aprimoramento e não em simples supressão de direitos. Ao abordar o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada, ele afirmou que o país precisa criar mecanismos de transição para que beneficiários tenham uma porta de saída.
“Eu sou favorável ao Bolsa Família”, declarou. Mas acrescentou: “Precisamos arrumar uma porta de saída pro Bolsa Família”. Em seguida, procurou afastar a interpretação de que estivesse propondo cortes lineares: “Não, não, não tô querendo cortar o Bolsa Família, tô querendo melhorar o Bolsa Família”.
Menin argumentou que o Brasil precisa combinar proteção social com mecanismos de emancipação econômica. “Num país igual o Brasil, a gente precisa dar o peixe, mas precisa dar a vara de pescar também”, disse.
Imprensa, democracia e rejeição a alinhamentos eleitorais
Na parte final da entrevista, Rubens Menin falou sobre sua entrada no setor de comunicação, onde controla ativos como CNN Brasil e Rádio Itatiaia. Ele afirmou que sua decisão de investir em mídia decorre da convicção de que não existe democracia sólida sem imprensa forte e crível.
“Não existe um país forte, democracia forte sem uma imprensa”, declarou. Segundo ele, o compromisso central de seus veículos deve ser com o jornalismo sério e com o interesse nacional. “Nosso jornalismo ético, ele é apartidário, é pro bem do Brasil”, afirmou.
Menin também rejeitou a ideia de que veículos de imprensa devam apoiar formalmente candidaturas. “A imprensa não pode apoiar candidatura. A imprensa tem que ser isenta”, disse. E completou: “A imprensa é pró Brasil”.
Atlético, aporte de capital e confiança no futebol brasileiro
Nos minutos finais da conversa, o empresário comentou a situação do Atlético Mineiro, clube cuja SAF tem sua participação. Menin disse que haverá novo aporte para enfrentar o endividamento e melhorar a estrutura do futebol profissional e das categorias de base.
“Estamos fazendo um aporte novo de capital”, afirmou. Em seguida, resumiu a lógica da decisão com uma ironia em relação ao debate anterior sobre juros e rentismo: “Em vez de ser rentista, vamos botar dinheiro no Galo”.
Ele acrescentou que a dívida deverá ser reorganizada nos próximos 30 dias e disse acreditar em evolução esportiva ao longo de 2026. “Eu tô levando muita fé nesse ano”, declarou. Ao comentar a seleção brasileira e a situação de Neymar, Menin afirmou: “Eu hoje concordo com o Neymar, eu acho que ele é um cara diferenciado, só que hoje ele não tá apto 100%”.
Um alerta que mira o centro da economia brasileira
A entrevista de Rubens Menin à TV 247 recoloca no centro do debate um tema que afeta diretamente a vida nacional: o uso prolongado de juros reais muito elevados como instrumento de política econômica. Ao falar como empresário da construção, banqueiro e investidor em comunicação, ele procurou desmontar a ideia de que apenas um campo político ou um setor específico perde com essa escolha.
Sua tese é a de que o país entrou num círculo vicioso em que o custo do dinheiro prejudica simultaneamente o crédito, o investimento, a produção, a renda das famílias e a própria solvência do Estado. Em sua formulação mais forte, isso já deixou de ser um problema técnico para se transformar numa urgência nacional.
Como resumiu ao longo da conversa, trata-se de uma questão que exigirá pacto, divisão de responsabilidades e coragem política. E, em sua frase mais incisiva, de uma constatação que pretende soar como alerta: “O estado brasileiro vai quebrar se continuar pagando um juro de 15%”.


