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"Precisamos fazer uma cruzada cívica contra os juros altos", diz Gleisi Hoffmann

Gleisi Hoffmann aponta o endividamento das famílias como foco central da economia popular

Gleisi Hoffmann (Foto: Valdenio Vieira/SRI)

247 - A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que o endividamento das famílias se tornou o principal ponto de pressão sobre a economia popular e defendeu uma reação política mais dura contra os juros cobrados pelo sistema financeiro. Ao abordar o tema, ela relacionou a perda de bem-estar social ao comprometimento crescente da renda com dívidas e disse que esse é hoje um dos fatores mais sensíveis para a percepção da população sobre a situação econômica do país.

As declarações foram dadas em entrevista ao programa Boa Noite 247, ao responder a questionamentos sobre a distância entre as entregas do governo e a aprovação percebida nas pesquisas. Gleisi reconheceu o peso do problema e afirmou que o diagnóstico feito internamente converge com a leitura de que o endividamento compromete de forma direta o orçamento das famílias. “Esse seu diagnóstico é um pouco o que nós temos aqui. Os levantamentos dão conta que as famílias comprometem, em média, 30% da sua renda com dívidas”, declarou.

Ao tratar do tema, a ministra procurou situar o problema para além dos indicadores macroeconômicos. Segundo ela, ainda que o país viva um momento positivo em termos agregados, com emprego e melhora de renda, a situação cotidiana das famílias permanece pressionada pela estrutura do crédito e pelo peso das prestações mensais. “Mesmo a gente tendo melhorado a renda, a gente está num dos patamares mais altos de renda do ponto de vista histórico. Mesmo tendo emprego, a renda ainda no Brasil é uma renda muito baixa”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “Vamos considerar aqui que 70% das pessoas ganham até dois salários mínimos. Então é uma renda baixa e, quando se compromete com dívida, é complicado”.

A fala da ministra indica que o governo identifica um descompasso entre os números gerais da economia e a experiência concreta da população. Segundo ela, esse desencontro aparece com nitidez nas pesquisas qualitativas. “As pessoas dizem assim: ‘O meu salário não chega ao final do mês’. Não chega por conta disso, um compromisso grande com dívida e tudo que ela tem que pagar também da vida cotidiana”, relatou. Na formulação apresentada por Gleisi, o problema não está apenas no volume de crédito tomado, mas no encadeamento de dívidas renovadas em condições cada vez mais onerosas.

Ao aprofundar a crítica, Gleisi apontou o nível das taxas de juros como eixo central da deterioração da renda disponível. Na avaliação dela, o encarecimento do crédito produz um ciclo em que as dívidas são roladas sucessivamente em condições mais pesadas. “Vamos lembrar aqui que nós temos juros estratosféricos. Então são dívidas que vão sendo roladas com juros maiores e isso vai aumentando cada vez mais o endividamento”, disse.

Foi nesse contexto que a ministra fez sua declaração mais contundente sobre o sistema financeiro. Para ela, o debate sobre juros precisa deixar de ser restrito ao campo técnico e passar a ocupar o centro da disputa pública. “Acho que nós temos que fazer uma cruzada cívica contra os juros cobrados pelo sistema financeiro”, afirmou. Em seguida, direcionou a crítica ao crédito rotativo do cartão. “Não é possível que uma taxa do rotativo do cartão de crédito seja equivalente à Selic, que é anual, 14,8%. Isso é roubo. Não dá para a gente achar que isso é normal”, declarou.

Gleisi distinguiu ainda a taxa básica de juros das taxas efetivamente cobradas pelos bancos ao consumidor final, sustentando que o problema se agrava justamente na ponta do sistema. “Pior que a Selic são as taxas cobradas na ponta pelos bancos. Não tem justificativa você ter 14,8% de juro ao mês para crédito rotativo”, disse. Ao mesmo tempo, ela contestou a ideia de que o uso desse tipo de crédito possa ser tratado apenas como falha de planejamento individual. “Tudo bem, o crédito rotativo não devia ser usado. Não devia. Mas se as pessoas precisam de dinheiro, está disponível, vai ser usado”, afirmou.

Na entrevista, a ministra também criticou a condução da política monetária. “Eu sempre fui muito crítica à política que o Banco Central está fazendo de taxa de juros. Acho isso muito ruim. Isso tem impacto na economia”, disse. Ainda assim, sua fala desloca parte importante do debate para o comportamento das instituições financeiras, ao sugerir que a situação se torna mais grave justamente no momento em que o crédito chega ao consumidor em condições incompatíveis com a renda média da população.

Gleisi afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a concentrar atenção sobre esse tema e que novas alternativas estão em estudo. Segundo ela, a preocupação já existia desde o início do mandato, quando o governo lançou um programa de renegociação de dívidas, mas o problema persiste. “É uma preocupação do presidente. Já havia sido lá no início do mandato. A gente fez aquele programa de refinanciamento, renegociação, mas a gente vê que ainda é um problema grande”, declarou.

De acordo com a ministra, Lula pediu estudos ao Ministério da Fazenda e também ao Banco Central para avaliar medidas que possam reduzir a pressão sobre o orçamento das famílias. “O presidente pediu para o Ministério da Fazenda, pediu também para o Banco Central para saber de que forma a gente pode ajudar, sim, melhorar com programa de oferecimento de crédito com juros mais baratos”, disse. Embora não tenha detalhado quais soluções serão adotadas, Gleisi indicou que o governo quer atacar tanto o custo do crédito quanto os mecanismos que mantêm a renda popular aprisionada em dívidas contínuas.

Ao definir o endividamento como “o maior problema que afeta a economia popular”, a ministra sinalizou que o tema deve ganhar espaço crescente na agenda do governo. Sua fala organiza uma leitura política e econômica segundo a qual os avanços em emprego, renda e indicadores macroeconômicos não bastam para produzir sensação de melhora concreta enquanto boa parte da renda das famílias continuar comprometida por juros elevados. Nesse quadro, a expressão “cruzada cívica” funciona como síntese de uma posição que tenta transformar o debate sobre crédito, Banco Central e sistema bancário em uma questão central do embate público sobre o custo de vida no país.

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