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Alckmin defende ajuste fiscal em 2027 e diz que reeleição de Lula exigirá novo ciclo de medidas

Vice-presidente critica juros “totalmente descalibrados” e sustenta que eventual novo mandato do presidente deverá começar com correção fiscal

03.03.2026 - Vice-Presidente da República e Ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, durante a abertura da 2º Conferência Nacional do Trabalho, no Teatro Celso Furtado. São Paulo - SP.

Foto: Ricardo Stuckert / PR (Foto: Ricardo Stuckert)

247 – Em entrevista ao jornal Valor, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou que um eventual segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá começar com um novo ajuste fiscal. Ao defender que o governo já promoveu melhora nas contas públicas, Alckmin disse, no entanto, que ainda será necessário avançar mais a partir de 2027.

A declaração insere a questão fiscal no centro do debate eleitoral e econômico do próximo período. Segundo Alckmin, o tema deverá integrar o programa de governo da chapa de reeleição do presidente, embora ele tenha ressaltado que a agenda econômica não se resume ao equilíbrio das contas públicas e que, neste momento, o problema mais urgente estaria na condução da política monetária.

Ao resumir sua posição, Alckmin foi direto: “Eu entendo que ajuste se faz no primeiro ano”. A frase condensa a visão do vice-presidente de que, em caso de vitória de Lula nas eleições, o governo precisará aproveitar o início do novo mandato para reorganizar de forma mais contundente a política fiscal.

Alckmin diz que governo melhorou contas públicas, mas ainda precisa avançar

Na entrevista, Alckmin procurou apresentar um balanço positivo do atual governo, sustentando que houve avanços concretos tanto na defesa institucional da democracia quanto nos indicadores econômicos e ambientais. Ao justificar sua permanência na chapa presidencial, ele afirmou que a atual gestão cumpriu seu papel histórico desde a eleição de 2022.

“Eu fiquei muito honrado com o convite para participar da chapa com o presidente. O nosso trabalho cumpriu de maneira fiel os princípios e os fins do governo. Nos princípios, a defesa da democracia é uma pedra basilar. Nós salvamos a democracia brasileira com a eleição em 2022. Nos fins, o Brasil avançou nas várias áreas do governo”, declarou.

Alckmin também afirmou que o país melhorou sua situação fiscal em comparação com anos anteriores, lembrando a deterioração observada no período da pandemia. Segundo ele, o debate hoje gira em torno de metas de superávit primário muito mais moderadas do que os déficits explosivos registrados anteriormente.

Ao citar esse contraste, afirmou: “Já avançamos na questão fiscal. Nós estamos discutindo hoje zero ou 0,5% de superávit primário. É bom lembrar que, em 2020, o Brasil teve quase 10% de déficit primário”. Em seguida, reforçou que considera insuficiente o estágio atual de reorganização das contas públicas: “Mas eu sou dos que entendem que é preciso avançar mais”.

Ajuste fiscal entra no radar do programa de governo

A fala de Alckmin indica que o debate sobre responsabilidade fiscal deverá aparecer de maneira mais explícita na formulação do programa da campanha de reeleição. Embora não tenha antecipado medidas concretas, ele deixou claro que o tema será tratado politicamente pela campanha e administrativamente pelo presidente.

Questionado sobre como esse avanço fiscal poderia ocorrer, preferiu não detalhar instrumentos, mas reiterou o princípio de que a correção deve ser feita no início do mandato: “Eu entendo que ajuste se faz no primeiro ano. Agora, esse é um tema em que o presidente Lula, no programa de governo, vai avançar, vai estudar”.

Ao ser perguntado se a questão fiscal já deverá estar endereçada no programa eleitoral, respondeu: “Eu acho que faz parte de um conjunto”. A observação sugere que, para o vice-presidente, a política fiscal será apenas uma entre várias frentes de uma agenda mais ampla de desenvolvimento, investimento e crescimento sustentável.

Vice-presidente ataca juros altos e chama política monetária de “descalibrada”

Se o ajuste fiscal aparece como necessidade futura, Alckmin deixou claro que, no presente, considera a política monetária o principal entrave ao desempenho econômico. Em um dos trechos mais contundentes da entrevista, ele criticou o nível dos juros e questionou a eficácia do atual remédio monetário diante de pressões inflacionárias associadas ao câmbio, ao clima e ao petróleo.

“A questão mais premente é juros, a política monetária, que me parece totalmente descalibrada”, disse.

Na avaliação de Alckmin, parte importante da inflação recente decorreu de fatores externos ou de oferta, e não de um excesso de demanda interna que justificasse uma política monetária mais dura. Ele citou a disparada do dólar em momentos anteriores, a seca e a alta do petróleo como fatores determinantes para a pressão sobre os preços.

Sua crítica foi ainda mais enfática ao afirmar: “O que levou à alta da inflação no ano passado? Dólar chegou a R$ 6,30. Hoje está em R$ 5,15. Despencou o dólar. Preço de alimento foi [causado pela] seca. E de outro lado petróleo. Geopolítica e guerra. Não tem nada a ver com taxa de juros. Juro não vai subir nem baixar o preço do barril do petróleo. Então, a política monetária tem que ser mais adequada”.

A fala reforça uma divergência já conhecida dentro do campo governista: enquanto a área econômica busca conciliar metas fiscais e previsibilidade institucional, setores políticos e produtivos próximos ao governo insistem em apontar o custo do crédito como obstáculo central ao crescimento, ao investimento e ao consumo.

Guerra e petróleo preocupam governo, mas Alckmin descarta novas medidas imediatas

Outro eixo importante da entrevista foi o impacto da guerra no Oriente Médio sobre os preços da energia e, por consequência, sobre a inflação brasileira. Alckmin afirmou que o governo acompanha diariamente os desdobramentos do conflito, mas avaliou que, por enquanto, não há necessidade de novas medidas além das que já foram adotadas.

“Hoje não, mas é uma coisa a ser acompanhada todo dia”, afirmou, ao ser questionado sobre a necessidade de ações adicionais.

Segundo o vice-presidente, a principal preocupação está no petróleo, especialmente pelo peso do diesel no transporte de cargas e, portanto, nos preços dos alimentos. “Não tem como acabar a guerra amanhã, então estamos tomando todas as medidas para minimizar os seus efeitos. E o principal efeito é o petróleo. E afetando o preço do diesel, afeta tudo: transporte, logística, comida”, declarou.

Sobre os combustíveis, Alckmin não descartou novos avanços na política de biocombustíveis. Ao comentar a presença do etanol na gasolina, disse: “Pode aumentar. Não tem nenhuma decisão tomada, mas nós temos 85% da frota flex, o consumidor escolhe, e somos o único país do mundo que tem 30% de etanol na gasolina. Os estudos mostram que pode avançar”.

Também reconheceu preocupação com os fertilizantes, especialmente por conta da dependência externa do potássio. “É preciso estudar. A gente espera que a guerra se resolva o mais rápido possível. Já tem crescido a produção. Nitrogenados, fosfatados, inauguramos várias indústrias. O problema nosso maior é potássio, que 95% é importado”, disse.

Taxa das blusinhas, indústria nacional e lealdade concorrencial

No campo político, Alckmin se posicionou contra a ideia de revogar a chamada “taxa das blusinhas”, medida que vem sendo debatida por setores interessados em reduzir desgaste popular do governo. Sem aderir ao discurso de flexibilização, ele defendeu a manutenção de regras que assegurem condições minimamente equilibradas entre empresas estrangeiras de comércio eletrônico e a produção nacional.

“Se está havendo um debate, eu não tenho acompanhado. É importante destacar que o imposto federal é 20% e o dos Estados, 18% em média. É ainda muito menor do que o imposto de quem fabrica no Brasil. Uma das razões de Estado é garantir a lealdade concorrencial, garantir que as pessoas concorram em igualdade de condições”, afirmou.

A fala dialoga com a defesa recorrente que Alckmin faz da reindustrialização e de mecanismos de proteção competitiva para o setor produtivo brasileiro, especialmente em áreas sensíveis à competição internacional baseada em assimetrias tributárias, cambiais e trabalhistas.

Datacenters, minerais críticos e cautela com incentivos fiscais

Na área de política industrial e investimentos, o vice-presidente destacou a importância de aprovar rapidamente iniciativas voltadas à atração de datacenters para o Brasil. Ao comentar os obstáculos legislativos ao programa, afirmou que o governo trabalha junto ao Congresso para evitar perda de investimentos em um setor considerado estratégico.

“Nós estamos trabalhando junto ao presidente Davi Alcolumbre para que isso seja votado o mais rápido possível, para a gente não perder investimento. Porque se a limitação [para expansão dos datacenters] é de energia, o Brasil hoje tem energia sobrando. E energia renovável. Então, atende o interesse público duas vezes: vamos aproveitar a energia que está sobrando e que está dando problema por estar sobrando e, ao mesmo tempo, atrair investimentos”, declarou.

Já sobre a cadeia de minerais críticos, Alckmin defendeu que o país avance no conhecimento geológico, na exploração econômica e no processamento de maior valor agregado, mas adotou tom cauteloso diante da concessão de benefícios tributários.

“Eu sou sempre daqueles cautelosos com o incentivo fiscal. Ele não é proibido, mas a gente deve sempre verificar a sua extrema necessidade”, disse.

Quando perguntado sobre rumores em torno da criação de uma estatal para gerir minerais estratégicos, a chamada “Terrabrás”, respondeu de forma categórica: “Nunca ouvi essa discussão. O papel do governo, do Estado, é o papel regulatório”.

Relação com os Estados Unidos e diálogo com Trump

Alckmin também tratou da agenda bilateral com os Estados Unidos e indicou que o governo brasileiro segue apostando em diálogo político e entendimento econômico com o país, hoje presidido por Donald Trump. Sem detalhar uma reunião entre Lula e Trump, ele reiterou que a orientação oficial continua sendo a busca por convergência.

“A orientação é sempre diálogo e entendimento”, afirmou.

Ao justificar o interesse do Brasil em aprofundar a relação, destacou o peso dos Estados Unidos como investidor externo: “Interessa porque é sempre bom ter um bom entendimento. Estados Unidos é o maior investidor no Brasil. Não é o maior comprador, é a China, mas é o maior investidor. Compra produto de valor agregado. O Brasil não é problema para os Estados Unidos, é solução. Nós precisamos ser mais ousados em parcerias, investimentos recíprocos, abertura de mercado, dá para avançar muito”.

A fala mostra que, mesmo em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas e reconfiguração de alianças econômicas, o governo busca preservar canais de interlocução com Washington sem abrir mão de sua estratégia de diversificação comercial.

Alianças para 2026 e confiança na força eleitoral de Lula

No terreno estritamente político-eleitoral, Alckmin disse haver otimismo com a construção de uma ampla frente de apoio à reeleição do presidente. Segundo ele, o presidente do PT, Edinho Silva, conduz as articulações partidárias, e já existem diversas siglas em estágio avançado de negociação.

“Queremos fazer uma frente grande. O presidente do PT, Edinho Silva, está fazendo essa conversa partidária. Eu diria que já tem uns oito mais ou menos encaminhados. Mas o Brasil é um país continental, com realidades totalmente diferentes. Em uma região o partido é mais próximo de um, na outra, mais próximo de outro. É difícil ter unanimidade em muitos partidos, mas estamos otimistas”, declarou.

Alckmin evitou citar nominalmente as legendas que estariam em negociação e afirmou que cabe aos próprios partidos tornarem públicas suas movimentações. Ainda assim, a declaração indica que a campanha governista pretende reeditar e ampliar a lógica de frente ampla que foi decisiva em 2022.

Popularidade, comunicação e momento político

Um dos pontos mais sensíveis da entrevista foi a avaliação sobre os índices de aprovação do governo. Alckmin rejeitou a tese de que o problema central seja de comunicação e preferiu associar o cenário ao “momento” vivido pela população, ainda que reconheça a importância do convencimento político durante a campanha.

“Eu nunca responsabilizo a comunicação, é momento. Eu sou meio cauteloso com pesquisa, a gente não deve estar norteando tudo por causa de pesquisa”, afirmou.

Ao mesmo tempo, reconheceu que o processo eleitoral é decisivo para apresentar à população os resultados da gestão. “A campanha eleitoral é um bom momento para você mostrar o que foi feito, comparar. Saúde, educação, infraestrutura, saneamento, tudo melhorou. Comércio exterior, indústria, melhorou. É inegável. Então, cabe, durante a campanha, mostrar isso”, declarou.

Em outro trecho, resumiu a lógica da disputa política de forma objetiva: “Política é convencimento. Levar as informações a toda a população, dialogar”.

Sucessão no Mdic e cenário em São Paulo

Ao ser questionado sobre quem poderá substituí-lo no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Alckmin citou dois nomes: o secretário-executivo Márcio Rosa e o ministro do Empreendedorismo, Márcio França. Ressaltou, porém, que a decisão caberá exclusivamente ao presidente Lula.

“Cabe ao presidente escolher os seus ministros. Há dois grandes nomes. O Márcio Rosa é o secretário-executivo aqui do ministério. E o Márcio França foi governador de São Paulo, ministro da pasta nova, ele implantou a pasta do empreendedorismo. Vamos aguardar”, afirmou.

Alckmin observou ainda que França também avalia a hipótese de disputar o Senado, o que interfere na equação paulista. Nesse contexto, mencionou ainda as movimentações políticas envolvendo Simone Tebet e Marina Silva, apontando que a definição dos espaços eleitorais dependerá de uma composição mais ampla.

Sobre a eleição em São Paulo, demonstrou confiança no nome de Fernando Haddad. “Eu acho que o Haddad tem chance real. Começa já muito perto do primeiro colocado [nas pesquisas]. Tem preparo. Foi prefeito da maior cidade do Estado, que é São Paulo. Ministro da Educação, tem uma enorme penetração na área. Ministro da Fazenda. Só para dar dois exemplos [de medidas que ele aprovou]: reforma tributária e reforma de renda”, declarou.

Pacheco em Minas e reforço ao PSB

Pouco antes de participar do evento de filiação do senador Rodrigo Pacheco ao PSB, Alckmin também comentou a expectativa em torno de uma possível candidatura do parlamentar ao governo de Minas Gerais. Embora tenha dito que Pacheco ainda não confirmou sua intenção, deixou clara a disposição do partido em incentivá-lo.

“Nós estamos muito felizes com a filiação dele, como também com a filiação de lideranças da Rede: a Marina Helou, Ricardo Galvão. Se vai ser candidato, ele não falou, mas estamos empenhados [para isso]. Ser candidato é um ato de amor ao próximo, então vamos lá dar um abraço”, disse.

A menção a novas filiações reforça o esforço do PSB para ampliar seu peso na coalizão governista e na disputa regional, especialmente em estados-chave como Minas Gerais e São Paulo.

Reeleição de Lula, ajuste fiscal e disputa de projeto nacional

A entrevista de Geraldo Alckmin projeta, desde já, os contornos de uma campanha em que o governo tentará combinar defesa da democracia, balanço positivo de gestão, promessa de desenvolvimento sustentável e sinalizações de responsabilidade fiscal. Ao mesmo tempo em que critica os juros elevados e atribui a pressão inflacionária a fatores externos, o vice-presidente indica que um novo mandato de Lula não prescindirá de correções adicionais nas contas públicas.

Ao insistir que “ajuste se faz no primeiro ano”, Alckmin antecipa um dos debates mais decisivos do próximo ciclo político: como articular crescimento, reindustrialização, proteção social e estabilidade macroeconômica sob um projeto de desenvolvimento liderado pelo presidente Lula.

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