Salò ou os 120 dias de Sodoma para além da ficção

Qualquer semelhança da história do filme e de seus personagens com a história e personagens do governo Bolsonaro não é mera coincidência, afinal estamos tratando, nos dois casos, de fascismo puro e simples

Pier Paolo Pasolini era um artista excepcional! Poeta, romancista, dramaturgo e cineasta. No cinema, foi responsável por algumas das grandes obras produzidas no século XX das quais a que eu mais admiro é Salò ou os 120 dias de Sodoma (Salò o le 120 giornate di Sodoma, em italiano). Produzido em 1975, foi o último longa dirigido por Pasolini que seria brutalmente assassinado em novembro de 1975, poucos meses após a finalização de Salò. Este filme foi inspirado na obra Os 120 dias do Sodoma ou Escola de libertinagem, do Marquês de Sade. Seu roteiro remete ao final do governo fascista na Itália. Com a derrota iminente, quatro altos dirigentes do partido fascista um banqueiro, um bispo, um duque e um juiz se refugiam em um castelo do norte da Itália, região ainda controlada pelo governo fascista. Estes personagens sequestram jovens de ambos os sexos, moradores do entorno do castelo, para submetê-los a experimentos e relações sexuais sádicas que incluem a tortura durante cento e vinte dias. Todas as noites uma cafetina contratada pelos fascistas conta histórias de pervessões sexuais para animá-los e incitá-los a cometerem os atos mais vis contra os jovens sequestrados. O filme é dividido em ciclos: o ciclo das manias, o ciclo das fezes e o ciclo da dor. Nesta obra, Pasolini sintetiza de maneira brilhante o desejo de morte e de controle dos corpos presentes nas mentes fascistas.

Qualquer semelhança da história do filme e de seus personagens com a história e personagens do governo Bolsonaro não é mera coincidência, afinal estamos tratando, nos dois casos, de fascismo puro e simples. Só para situar a discussão, o fascismo não é uma ideologia, mas práticas políticas violentas de controle dos trabalhadores e da democracia dos trabalhadores – sindicatos, imprensa operária, organismos de autodefesa e ajuda – às quais a burguesia recorre em momentos de crise do modo de produção capitalista. Nos dois contextos históricos aqui em questão, o fascismo italiano e o fascismo bolsonariano, estas práticas violentas estão presentes.

Um elemento que é crucial no fascismo é o controle do corpo do trabalhador. No filme os fascistas usam os corpos dos jovens como instrumento de experiências as mais perversas. No governo Bolsonaro, os corpos que não permitem uma rápida identificação e classificação binária são alvo da violência, assim como os corpos dos trabalhadores e trabalhadoras, sobretudo os corpos negros.

Os três ciclos apresentados no filme também estão presentes no contexto brasileiro, com um diferencial que no Brasil eles manifestam-se simultaneamente. O ciclo das manias se materializa nas notícias falsas, na mentira como método de governança, na criação de falsos problemas que desvirtuam a discussão política e a desloca dos temas fundamentais (as reformas neoliberais), concentrando-se em bobagens que atraem a atenção dos tolos (“meninos vestem azul, meneinas vestem rosa”, “a terra é plana” e outras mais). 

O ciclo das fezes está presente nas falas escatológicas do filósofo-astrólogo ideólogo do governo e na fala do próprio Bolsonaro que recomendou “fazer cocô dia sim, dia não” como estratégia de preservação da natureza. 

A fase da dor se manifesta no extermínio diário das populações LGBTI, negra e indígena brasileiras. Não que este extermínio seja uma novidade na história do Brasil. Ele é velho de mais de quinhentos anos, mas assumiu métodos e escala quase industrial nesse primeiro ano do governo fascista.

Tal como no filme, podemos identificar representantes dos quatros segmentos de classe presentes no filme: o banqueiro, Paulo Guedes; o juiz, Sérgio Moro; o bispo, Edir Macedo, neste caso um bispo cristão, mas não católico como o do filme; e um nobre, o autodenominado “príncipe” deputado pelo PSL. Aqui precisamos fazer um parêntese histórico. A Itália tornou-se uma república somente em 1946 e por isto a nobreza ainda desempenhava papéis importantes no jogo político italiano sob o governo fascista, momento histórico em que se passa o filme de Pasolini. A monarquia brasileira foi derrubada em 1889 e isso faz com que o que sobrou da nobreza brasileira tenha um caráter extremamente anacrônico. Alguém se autoproclamar príncipe no Brasil atual pode ser entendido como manifestação sintomática de psicose. O fato de a monarquia ter sido abolida há mais de cem anos explica porque os descendentes da família real brasileira não possuem qualquer relevância na conjuntura brasileira atual, diferentemente do que ocorria na Itália durante o governo fascista. Contudo, um de seus representantes ocupa um cargo político republicano o que lhe dá um local de fala importante que lhe permite falar ao povo brasileiro e angariar seguidores.

O domínio dos corpos dos trabalhadores pelos fascistas se manifesta em dados. O Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de transsexuais e travestis. O país registra uma morte por motivo de homofobia a cada vinte e três horas. Jovens negros são mortos graças a uma necropolítica eficaz que, desta forma, evita que estes jovens tenham chances de chegar ao mercado de trabalho, organizem-se e constituam-se em algum tipo de ameaça ao governo totalitário. Corpos indesejados são facilmente descartados.

Como bem me alertou uma amiga socióloga ao ler minha última coluna aqui publicada (“Para que/quem serve esta polícia?” https://www.brasil247.com/blog/para-que-quem-serve-esta-policia) este descarte dos corpos indesejados é um projeto do atual estágio de desenvolvimento capitalista presente, em maior ou menor grau, em todos os regimes políticos do mundo, sejam eles democráticos ou ditatoriais. É uma solução para a crise atual do capitalismo e para enorme concentração de renda que caracteriza a conjuntura presente deste modo de produção. Esta solução é respaldada pela grande maioria dos cidadãos controlados e manipulados pelo medo do diferente, pelas “ameaças” que os indesejados representam. A grande estratégia de controle utilizada pela burguesia e pelo mercado é a criação, a difusão e a manipulação do medo. É preciso que haja sempre um inimigo interno, algum grupo social que possa ser estigmatizado como ameaça ao emprego, à reprodução social do cidadão comum para colocá-lo na defensiva e ser mais facilmente manipulado, manipulado a tal ponto que ele passa a crer que a terra é plana, que existe um kit distribuído nas escolas onde há uma mamadeira de piroca e outros absurdos. A razão, o argumento racional nesta conjuntura se dissolve e se deixa dominar pelo absurdo racional. Desta maneira, os “homens livres”, os “homens de bem”, os “bons cristãos” se tornam bestas-feras para gozo e júbilo do mercado. O mercado, então, sente-se livre e respaldado para, por meio do aparato repressor e de controle do Estado, optar pela eliminação dessa gente cuja qualificação sequer atende às suas exigências e filtros. Como bem advertiu Zygmunt Bauman, o Estado no atual estágio do capitalismo restringe-se a exercer uma função de polícia e repressão, gerindo e eliminando os descartáveis e indesejáveis.

Esta estrutura está sofisticando-se a tal ponto que mesmo esta função policialesca e repressora exercida pelo Estado contemporâneo, que ainda gera custos que colocam empecilhos à livre acumulação de capital, está em vias de desaparecer. A burguesia busca tornar a manutenção do aparelho estatal cada vez mais barata. Este aparelho policialesco e repressor ainda se faz necessário para manter a visão de mundo da burguesia e sua estrutura de produção e acumulação de capital, diante do crescimento exponencial das desigualdades e da concentração de renda. Para tornar esta estrutura menos dispendiosa, a burguesia tirou da cartola e busca disseminar mundo afora o porte de arma. Com os “cidadãos de bem” armados, estes mesmos se ocuparão da manutenção da ordem e da segurança. Logicamente, quem decidirá sobre quem pode ou não pode comprar uma arma é o aparelho estatal controlado pela burguesia e, por extensão, pelo mercado. Ao mesmo tempo, a expansão do porte de arma leva à expansão do mercado de produção, venda e circulação de armas legalizadas, um nicho de mercado ainda pouco desenvolvido em boa parte dos países. Isto gera novas possibilidades e oportunidades de negócios. O mercado sai ganhando mais uma vez.

O governo Bolsonaro se organiza como um grande laboratório contemporâneo onde a burguesia e o mercado elaboram, executam, testam e refinam novas maneiras de dominação. Com o apoio de uma significativa parcela da população brasileira e diante da ainda esporádica e desorganizada resistência que os indesejados impõem a estas experiências, estas se multiplicam e se aceleram. Quando elas alcançam setores da população que se alimenta regularmente e possui uma formação acadêmica um pouco mais complexa, há resistência e o governo recua. Como no filme de Pasolini, estas experiências são preferencialmente implementadas com os indesejados que são menos organizados e mais facilmente descartáveis. Desta maneira, a situação que no filme estava restrita a um castelo no norte da Itália, alcança uma nova escala no Brasil e é aplicada sobre os corpos de dezenas de milhões de brasileiros com o beneplácito de outras dezenas milhões e a indiferença de outros tantos. Assim, ficção e realidade se confundem e, mais uma vez, a vida imita a arte. 

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247