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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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Santa Catarina, laboratório do bolsonarismo e o assassinato de Orelha

O alerta central da análise é inequívoco: Santa Catarina não é exceção regional; é antecipação histórica

Florianópolis (SC) (Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Secom/Santa Catarina)

Enquanto parte do debate público insiste em decretar a morte do bolsonarismo, a realidade brasileira aponta para um cenário mais inquietante: a extrema direita não desapareceu — ela mudou de forma. E nenhum estado expressa melhor essa metamorfose do que Santa Catarina, hoje o território mais bolsonarista do país.

No Programa 20 Minutos, o analista Breno Altman recebeu a jornalista e professora Amanda Miranda para discutir uma questão central do momento político: o bolsonarismo está em colapso ou apenas em recomposição?

Quando a análise se desloca para Santa Catarina, a resposta se torna incômoda. O estado aparece não apenas como reduto eleitoral da extrema direita, mas como um ecossistema ideológico funcional, onde o bolsonarismo deixou de depender exclusivamente de Jair Bolsonaro para existir.

Ali, a extrema direita não opera apenas em ciclos eleitorais. Ela organiza valores, molda comportamentos e estrutura uma visão de mundo autoritária e violenta que se reproduz no cotidiano.

Santa Catarina encarna o bolsonarismo

Segundo Amanda Miranda, Santa Catarina representa um estágio avançado do fenômeno bolsonarista. O apoio à extrema direita não se limita ao voto: tornou-se identidade social, marcador de pertencimento e código cultural.

O bolsonarismo catarinense:

  • organiza relações profissionais e comunitárias;
  • circula em escolas, igrejas, associações empresariais e redes sociais;
  • e se apresenta como “normalidade política”.

Não se trata de conservadorismo clássico. Trata-se de uma cultura política autoritária, sustentada por antipetismo radical, rejeição ao Estado social e naturalização da violência simbólica — e, em certos casos, física — contra adversários políticos.

Nesse ambiente, discursos contra o STF, a imprensa, as universidades e os movimentos sociais não geram constrangimento. Circulam como senso comum.

Uma base social confiante e legitimada

Diferentemente de outros estados onde o bolsonarismo entrou em retração após 2022, em Santa Catarina ele segue confiante, organizado e legitimado socialmente. Sua base envolve:

  • setores expressivos da classe média urbana;
  • pequenos e médios empresários;
  • segmentos industriais;
  • grupos que associam políticas sociais a “ameaças” econômicas ou morais.

A retórica da ordem, do mérito e da força substitui o debate democrático. A exceção vira regra. O autoritarismo deixa de ser tabu.

Outros polos do bolsonarismo

Santa Catarina não está isolada. É o ponto mais avançado de um fenômeno que também se manifesta, com intensidades distintas, em outras regiões.

No Centro-Oeste, o bolsonarismo se ancora no agronegócio e no discurso antiambiental. No interior de São Paulo, mistura conservadorismo empresarial e antipetismo histórico. No Paraná, sobretudo em áreas urbanas e industriais, reproduz um padrão semelhante ao catarinense, ainda que menos homogêneo.

A diferença de Santa Catarina está na densidade cultural: ali, o bolsonarismo não apenas disputa eleições — ele molda valores e comportamentos.

Santa Catarina como antecipação do Brasil

O alerta central da análise é inequívoco: Santa Catarina não é exceção regional; é antecipação histórica.

O estado funciona como laboratório onde a extrema direita:

  • aprende a sobreviver sem líder carismático;
  • radicaliza o discurso sem perder base social;
  • e testa os limites da democracia sem isolamento político relevante.

Em cenários de crise econômica, instabilidade institucional ou intensificação da guerra cultural, esse modelo pode irradiar para outras regiões.

2026: menos Bolsonaro, mais bolsonarismo

O principal risco para 2026 não é apenas Jair Bolsonaro — hoje juridicamente fragilizado cumprindo pena de 27 anos na Papudinha —, mas a consolidação de um bolsonarismo pós-Bolsonaro: menos personalista, mais ideológico, mais enraizado socialmente.

Esse movimento tende a:

  • pressionar permanentemente o governo Lula;
  • tensionar o STF;
  • corroer a confiança na imprensa e atacar ciência;
  • e manter viva a lógica de deslegitimação eleitoral.

Quando a barbárie vira método 

Ao comentar, no Programa 20 Minutos, o assassinato do cão Orelha — um animal idoso e dócil espancado até a morte por adolescentes em Santa Catarina — Breno Altman resumiu o sentimento de quem ainda se recusa a naturalizar o horror: “quanto mais conheço a humanidade, mais gosto dos cachorros”.

Não era ironia. Era diagnóstico.

Em seguida, Breno formulou a pergunta que atravessa este artigo: a tortura e o assassinato brutal de um ser indefeso não fazem parte do mesmo processo de brutalização social alimentado pelo discurso extremista?

O crime comoveu o país e levou pessoas às ruas. Mas tratá-lo como episódio isolado é recusar-se a enxergar a realidade. Violência extrema não surge do nada. Ela é ensinada, legitimada e normalizada.

O bolsonarismo não se limita a atacar instituições. Ele rebaixa o valor da vida, transforma empatia em fraqueza e converte a crueldade em identidade política. Quando esse discurso se enraíza, ele transborda para o cotidiano e dissolve freios morais básicos.

Espelho incômodo 

A morte de Orelha expõe um limite rompido. Há ambientes onde a barbárie já não choca. Onde a violência circula. Onde espancar um ser indefeso deixa de ser impensável e vira apenas mais uma notícia.

Santa Catarina reaparece, assim, como espelho incômodo. Não por essência regional, mas porque ali o discurso extremista encontrou ambiente permissivo, socialmente legitimado. O assassinato do cão não é desvio. É sintoma.

O risco que o bolsonarismo representa para o Brasil não se resume a eleições. É a corrosão do tecido moral da sociedade, a normalização da brutalidade e a aceitação da violência como linguagem política.

Quando uma sociedade chega a esse ponto, a democracia já está em perigo — não apenas por golpes, mas porque parte da sociedade deixou de reconhecer limites éticos elementares.

Santa Catarina não é um caso distante. É um aviso. Ignorá-lo é aceitar que a barbárie deixe de ser escândalo — e passe a ser método.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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