São Paulo precisa se libertar da extrema-direita
As hesitações e omissões de Tarcísio são expressão de uma atitude submissa ao clã Bolsonaro, recorrente em sua trajetória política
O relatório do Escritório de Comércio dos EUA (USTR) propôs uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, cuja decisão final caberá a Trump até 18 de julho próximo. O governador Tarcísio de Freitas manifestou contrariedade com as consequências desse novo tarifaço sobre a economia nacional e evitou criticar o governo Lula. Mas silenciou sobre outras ameaças propostas nas recomendações, como sanções ao sistema bancário nacional, restrições ao PIX, barreiras ao etanol e ameaças ao Judiciário por decisões que responsabilizam as grandes plataformas digitais estadunidenses.
Não faz muito tempo, Tarcísio apoiou sem titubear outro tarifaço dos Estados Unidos articulado pela extrema direita para pressionar o recuo do STF na prisão da quadrilha golpista de Jair Bolsonaro. Justificou a punição imposta e condenou a postura independente e multilateralista de Lula no cenário internacional. Acabou recuando diante da pressão do empresariado paulista, mas sugeriu dar uma vitória a Trump. Em outras palavras, ceder pedaços da nossa soberania para atender à vaidade imperialista.
Há poucas semanas, Tarcísio ensaiou repetir a dose. Parabenizou Flávio Bolsonaro pelo sucesso de sua agenda com Trump, que resultou no enquadramento do PCC e do CV como organizações terroristas. Afirmou, sem explicar, que a decisão facilita o combate ao crime organizado, o que é mentira. Tarcísio omitiu que a legislação dos Estados Unidos autoriza, nesses casos, intervenção militar em território estrangeiro, sanções a bancos e empresas nacionais.
As hesitações e omissões de Tarcísio são expressão de uma atitude submissa ao clã Bolsonaro, recorrente em sua trajetória política. Não levou adiante sua candidatura presidencial mesmo tendo a seu favor a blindagem da mídia corporativa, a mobilização dos partidos do centrão e a articulação de lideranças do naipe de Ciro Nogueira, Hugo Motta, Gilberto Kassab e Antonio de Rueda. Presta vassalagem a Jair, mas hesita em se mostrar bolsonarista-raiz, com receio de perder parte do eleitorado. Com isso, vai construindo a imagem de político fraco, vacilante e sem personalidade.
O seu programa de governo é a submissão aos interesses da Faria Lima. Algo que se revelou com clareza na privatização escandalosa da Sabesp, entregue ao “mercado” por valor muito inferior à sua cotação em bolsa. Os novos controladores e acionistas demitiram um terço dos trabalhadores, terceirizaram funções vitais de engenharia e manutenção e, com isso, fizeram o lucro disparar, os dividendos aumentarem e as ações triplicarem em valor.
Os paulistas sofrem hoje as consequências dessa irresponsabilidade, com tarifas mais altas, má qualidade do serviço, torneiras secas e acidentes sucessivos em obras, alguns deles fatais. Recentemente assumiu implicitamente o fracasso das privatizações ao desistir de entregar as linhas remanescentes do Metrô – Azul, Vermelha e Prata – à iniciativa privada, como havia anunciado várias vezes.
Mas a subordinação do governador aos interesses empresariais não fica só nas privatizações. Tarcísio vem operando, via Artesp, agência reguladora dos serviços de infraestrutura de transporte, uma série de revisões contratuais por desequilíbrios econômico-financeiros. A soma dos valores públicos transferidos ao empresariado atinge cifras espantosas: R$ 2 bilhões para concessões rodoviárias por redução de tráfego entre 2020 e 2022, R$ 3,7 bilhões para a entrega parcial em ano eleitoral da linha 6 do metrô, além de novos ressarcimentos em análise para concessionários de rodovias e de transporte sobre trilhos.
Somam-se mais de R$ 18 bilhões em favor dos ocupantes das terras devolutas do Pontal do Paranapanema, considerando a diferença entre preços de venda e de mercado. Tarcísio criou e modificou um programa de entrega destas terras a seus ocupantes, com descontos de até 90% de seu valor de mercado. Não bastasse, o elevou para R$ 85 bilhões a renúncia fiscal para 2026, depois de abrir mão de R$ 71 bilhões em 2025, apesar das críticas do Tribunal de Contas do Estado sobre a falta de transparência e flagrante ilegalidade em benefícios concedidos a empresas inadimplentes com o Fisco.
O governador de São Paulo comemorou a vitória do trumpismo, vestindo o boné do MAGA, movimento supremacista estadunidense que adota valores e símbolos do nazi-fascismo. Participou de manifestações bolsonaristas que desfraldaram bandeiras dos EUA e atacou decisões do STF quando o governo de lá impunha sanções a autoridades brasileiras pela Lei Magnitsky. Apoiou a sabotagem ao Brasil promovida por Eduardo Bolsonaro, auto-exilado nos Estados Unidos, e agora saudou a visita de Flávio à Casa Branca e o enquadramento das facções criminosas como terroristas.
O que não deixa de ser uma ironia para um governador que manteve proximidade com pessoas e empresas vinculadas ao crime organizado. Afinal, foi Tarcísio quem manteve como Comandante da PM um homem suspeito de acobertar policiais ligados ao PCC, teve em sua equipe um segurança suspeito de lavar dinheiro e privatizou a Emae para um grupo bastante suspeito ligado ao Banco Master, cujos serviços também foram utilizados para a lavagem de dinheiro da facção.
Tarcísio tenta se apresentar como um gestor técnico e equilibrado, mas sua trajetória revela outra coisa: uma disposição permanente de subordinar os interesses do Brasil e de São Paulo aos interesses do mercado financeiro, da família Bolsonaro e, quando conveniente, até do governo estadunidense.
Sua omissão diante das ameaças à soberania nacional, seu apoio às articulações que buscam constranger as instituições brasileiras e sua adesão ao projeto político do trumpismo mostram que não se trata de episódios isolados, mas de uma visão de mundo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




