Será uma jogada inteligente tirar o Lula da campanha?

"Usar como estratégia de campanha de Haddad justamente sua desvinculação de Lula será o maior dos equívocos. Haddad só existe como possibilidade porque o povo que votava em Lula, acredita que votando nele está votando no melhor presidente que conheceram", diz a colunista Isabel Lustosa; "O que provocou o golpe, o que possibilitou a longa campanha da mídia e do judiciário contra o PT foram justamente o bom mocismo do PT; seu excessivo temor diante da poderosa rede Globo; seu 'republicanismo' equivocado ao indicar pessoas sem qualquer compromisso com seu projeto de país para cargos estratégicos no judiciário"

Será uma jogada inteligente tirar o Lula da campanha?
Será uma jogada inteligente tirar o Lula da campanha?
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Até aqui, toda a estratégia vencedora da campanha de Haddad foi traçada a partir de uma cela em Curitiba.

Foi de lá que se firmou a resistência em não abrir mão da cabeça de chapa para o PT; foi de lá que a candidatura Lula se manteve firme, elevando até quase 50% seu potencial de votos; resistindo diante de mil e um obstáculos até não haver mais possibilidade de prosseguir sem que o PT perdesse a chance de ter um candidato; foi de lá que se organizou a campanha de forma a dar a Haddad a formulação do projeto de governo e com isto a liderança diante das várias correntes do PT.

Com isto, o PT se manteve firme nas campanhas nos Estados e elegeu governadores e a maior bancada da Câmara; com isto, apesar de todas as armadilhas e golpes sofridos, o PT continua a ser a única grande força de resistência ao golpe e aos seus desdobramentos.

Com isto, um candidato que tinha perdido as eleições para a prefeitura de São Paulo, se cacifou para ser o substituto de Lula na chapa.

Agora, o medo do totalitarismo representado pela possível eleição de Bolsonaro leva a propostas estratégicas duvidosas.

Adotar uma postura propositiva, baseada em projetos, acenar aos candidatos derrotados da direita e do mercado; investir em Haddad e esquecer Lula; não continuar a visitá-lo na prisão para não ficar marcado como o poste, o candidato que é apenas o porta-voz do que Lula quer é um erro estratégico que trará consequências trágicas.

Parece que o PT e parte das esquerdas não aprenderam nada com a experiência que nos levou até aqui.

O que provocou o golpe, o que possibilitou a longa campanha da mídia e do judiciário contra o PT foram justamente o bom mocismo do PT; seu excessivo temor diante da poderosa rede Globo; seu "republicanismo" equivocado ao indicar pessoas sem qualquer compromisso com seu projeto de país para cargos estratégicos no judiciário; a autonomia dada ao ministério público e à PF, forças claramente direitistas e seu respeito excessivo pelas forças armadas que se mantiveram quietas mas, quando chegou o momento revelaram de que lado sempre estiveram.

Um pouco mais de ousadia e firmeza talvez nos tivesse poupado do que estamos vivendo hoje.

Usar como estratégia de campanha de Haddad justamente sua desvinculação de Lula será o maior dos equívocos.

Haddad só existe como possibilidade porque o povo que votava em Lula, acredita que votando nele está votando no melhor presidente que conheceram.

O povo do sertão vê Lula como o pai bondoso e Haddad como seu filho.

Podem dizer o que quiserem contra essa construção simbólica, talvez achando que é hora do povo ser esclarecido sobre salvadores e pais da pátria, mas é nesse campo simbólico que a disputa está sendo travada: o povo está diante da escolha entre o pai protetor e o coronel ameaçador.

Se esse pai não existe mais e em seu lugar, aparece um jovem bonito, educado e da elite, sem força aparente para enfrentar o coronel, o mais fácil e menos arriscado é fazer o que o coronel manda pois não tem ninguém para nos defender mesmo.

Assim se raciocinava na República Velha e assim se volta a raciocinar nos Brasil de hoje.

Esta é uma eleição de oposto absolutos.

Os de centro foram todos eliminados na primeira varredura.

Esta é uma eleição marcada pela emoção, pelo simbólico, pela fé.

E só quem consegue despertar a esperança do povo em um futuro melhor é Lula.

Só quem consegue mobilizar os sentimentos da multidão é o líder carismático.

Até agora não inventaram outro.

E é por isso que Lula está preso. É por isso que ele tem que ser calado.

E não vai ser Haddad, fazendo cara de moço obediente e humilde, diante dos mesmo jornalistas da Globo que o entrevistaram de forma tão agressiva que vai capturar o sentimento de carência da população diante do futuro ameaçador que se desenha.

Não vai ser Haddad se submetendo até ao que pediam os seus entrevistadores: uma derradeira humilhação pública a José Dirceu, que vai despertar a força da resistência.

Acenos ao mercado com promessas de bom comportamento já demonstraram ao PT o que representam.

Acreditar em Miriam Leitão, fazendo agora uma jogada ensaiada com seus colegas para bancar o policial bonzinho da história, quando na verdade o pacto entre seus patrões e o capitão já foi acertado antes da facada; acreditar que a Globo vai brigar com o bispo Macedo pela democracia, é alimentar ilusões que só resultariam no que tais atitudes já resultaram para o PT em sua história.

Acordos com antigos adversários podem até ser feitos mas têm que ser feitos nos bastidores porque quando publicados só provocam desânimo e descrédito nos que estão lutando contra tudo o que tem representado o golpe e contra as forças que estão por trás dele.

Nesta eleição essas forças já alijaram as oligarquias e os tucanos emplumados para se apoderarem do poder de fato.

Elas elegeram a segunda maior bancada na Câmara, vários senadores, estão em vias de capturar alguns governos estaduais e suas assembleias.

É contra essas forças do obscurantismo: o aparato jurídico capturado pelos interesses internacionais; os militares ruminando seus rancores desde a redemocratização, sem que os governos progressistas tenham feito nada para formar ali corações e mentes comprometidos com os destinos do país; as igrejas evangélicas que, há décadas vêm suplantando a igreja católica, cujo ramo progressista foi eliminado faz tempo.

Igrejas e pastores que aprofundam os preconceitos contra a diversidade e que pregam uma religião que reproduz elementos do totalitarismo em sua conexão com o individualismo: o fiel sozinho diante de Deus, responsável único por sua sorte ou desgraça, sem formar de fato uma união em defesa de seus interesses com os demais e seguindo as ordens do pastor como boas ovelhas.

Essas forças estão a serviço do mercado, o mesmo mercado que está impondo derrotas aos progressistas em vários cantos do mundo.

O mesmo mercado que não está nem aí para ideologias, religiões, valores culturais. O mesmo mercado que quer privatizar a educação, a saúde e a previdência no Brasil. O mesmo mercado que sabe que o perigo está na capacidade de formular um pensamento crítico sobre a realidade e, em seu projeto de dominação de longo prazo, investe pesado no esvaziamento dos currículos escolares e na repressão e perseguição aos professores de todos os níveis.

Não se engane a classe média instruída com a possibilidade de união com Meirelles e companhia.

Esse tempo já passou.

Eles não precisam de nós e nós é que somos o principal alvo desse processo de destruição do Brasil tal como o conhecemos.

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