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José Dirceu

José Dirceu é advogado e ex-ministro da Casa Civil

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Soberania financeira para um mundo em transformação (e em perigo)

A soberania financeira deve ser parte constitutiva desse novo projeto nacional de desenvolvimento

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante 7ª Reunião Plenária do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, em 10 de junho de 2026 (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
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A crise da ordem construída no pós-guerra, a perda relativa de centralidade dos Estados Unidos, a emergência da China, a ampliação dos Brics, as guerras, as sanções econômicas e a disputa tecnológica revelam uma etapa de transição na geopolítica e na economia internacional. A soberania nacional, no século XXI, envolve a defesa do território e da democracia, mas passa também pelo controle da moeda, do crédito, dos sistemas de pagamento, das infraestruturas digitais, dos dados, da ciência e da tecnologia.

Em artigo recém-publicado, o economista André Lara Resende chamou a atenção para a decomposição da arquitetura financeira internacional e para o anacronismo de parte da macroeconomia dominante diante da moeda fiduciária, da financeirização global e das novas formas privadas de dinheiro digital. Sua reflexão ilumina um ponto central que nós, da esquerda, e em particular o PT, temos destacado: quem controla fluxos financeiros, instrumentos de pagamento, crédito e plataformas digitais controla parte essencial do poder contemporâneo.

Essa “macroeconomia anacrônica”, como Lara Resende define, continua pensando a moeda, o Estado, a dívida pública, os juros e a inflação com categorias herdadas de outro momento histórico, como se a economia contemporânea ainda funcionasse sob as mesmas condições do padrão-ouro, da escassez monetária rígida ou de mercados financeiros menos integrados. Trata a moeda como simples instrumento neutro, a dívida pública como ameaça permanente, o déficit como pecado original e os juros elevados como única resposta legítima a qualquer tensão inflacionária, sem reconhecer que, no capitalismo financeirizado atual, a moeda é uma instituição política, o crédito organiza a produção e a vida social, e a política monetária define ganhadores e perdedores. No caso brasileiro, esse anacronismo serve de justificativa para manter juros reais entre os mais altos do mundo, subordinar o orçamento público à remuneração da riqueza financeira, comprimir o investimento do Estado e bloquear um projeto nacional de desenvolvimento. 

Desde Bretton Woods, o dólar ocupa a posição de moeda internacional de referência. Esse arranjo deu aos Estados Unidos o poder de financiar déficits, impor sanções, controlar circuitos financeiros e transformar sua moeda nacional em instrumento de poder global. Agora, com a emergência de novos polos de poder e a busca de alternativas por parte do Sul Global, esse sistema entra em tensão. O Brasil, por suas riquezas, sua base industrial, seus bancos públicos, suas universidades e seu papel estratégico na América do Sul, não pode aceitar uma posição subordinada nessa nova ordem. 

Essa disputa começa em solo brasileiro. Durante anos, a política econômica do País foi condicionada por uma visão segundo a qual o Estado deve se submeter aos humores do mercado financeiro, o Banco Central deve operar distante das prioridades definidas pelo voto popular, os juros elevados são tratados como destino inevitável e o desenvolvimento nacional deve caber nos limites impostos pelo rentismo. O resultado foi baixo crescimento, desindustrialização, concentração de renda, endividamento das famílias e transferência permanente de recursos públicos para os detentores da riqueza financeira.

O governo do presidente Lula recolocou o país em movimento, com retomada do crescimento, redução do desemprego, valorização do salário mínimo, investimentos do PAC, Nova Indústria Brasil, transição energética e ambiental e política externa soberana. Mas a disputa central do próximo período será mais profunda: romper o bloqueio dos juros altos, da dependência tecnológica, da financeirização e da chantagem permanente do capital especulativo.

A soberania financeira deve ser parte constitutiva desse novo projeto nacional de desenvolvimento. Não haverá democracia substantiva nem crescimento sustentado enquanto a política econômica estiver capturada pelo rentismo, pelos juros elevados, pela dívida convertida em mecanismo de expropriação da renda nacional e por um sistema financeiro mais voltado à remuneração da riqueza acumulada do que ao financiamento da produção, da inovação, da indústria e da infraestrutura. A despesa financeira do Estado, decorrente sobretudo dos juros altos, que retroalimenta o endividamento público e favorece os rentistas, consome parcela imensa do orçamento e reduz a capacidade de investimento público.

Reformar o sistema financeiro brasileiro não significa negar o papel do mercado de capitais nem desconhecer a importância do sistema financeiro-bancário para uma economia complexa. O Brasil precisa de poupança, crédito, financiamento de longo prazo, mercado de ações, debêntures, títulos públicos, renda fixa e renda variável. Milhões de brasileiros aplicam parte de sua renda no mercado financeiro, e quanto maior a capacidade de poupança nacional, maior também pode ser a capacidade de financiar o investimento, a dívida pública, a produção, o comércio, os serviços, o consumo e a inovação. O problema começa quando esse sistema deixa de ser meio e passa a ser fim em si mesmo. Com juros estruturalmente altos, a ciranda financeira desloca recursos da produção para a especulação, estimula a remuneração passiva da riqueza, encarece o crédito e reduz a capacidade de investimento do Estado e da economia real. 

Por isso, reformar o sistema financeiro significa fortalecer os bancos públicos, ampliar o crédito produtivo, reduzir o custo do financiamento para famílias, pequenas e médias empresas e setores industriais, enfrentar a concentração bancária, regular novas formas de intermediação financeira e submeter o sistema financeiro a regras de transparência, supervisão e responsabilidade pública. Significa também redefinir os objetivos do Banco Central, incorporando, ao lado do controle da inflação, metas de crescimento, emprego e estabilidade financeira, o que exige a redução da Selic e a coordenação entre política monetária, fiscal e de desenvolvimento.

O Brasil precisa de juros estruturalmente mais baixos, câmbio competitivo, crédito de longo prazo, planejamento público e coordenação entre política monetária, fiscal, industrial, tecnológica e ambiental. A moeda, o crédito, o orçamento e os bancos públicos precisam estar a serviço de uma estratégia nacional. Sem isso, continuaremos exportando commodities, importando tecnologia, remunerando o rentismo e perdendo capacidade de decidir soberanamente nosso futuro.

A integração regional é parte dessa estratégia. A América do Sul não pode continuar fragmentada, dependente de moedas, bancos, plataformas, sistemas de pagamento e cadeias financeiras controladas de fora. Mecanismos regionais de compensação, instrumentos próprios de financiamento, comércio em moedas locais e uma referência monetária para transações entre países sul-americanos devem ajudar a reduzir vulnerabilidades, ampliar o comércio regional e fortalecer cadeias produtivas locais.

A revolução digital amplia essa agenda. Stablecoins, moedas privadas digitais, big techs, plataformas de pagamento, inteligência artificial e infraestruturas de dados disputam funções que antes pertenciam aos Estados e aos bancos centrais. Sem regulação democrática e capacidade tecnológica nacional, parte da soberania monetária, fiscal e informacional será transferida para corporações privadas globais. O Pix brasileiro mostrou a força de uma solução pública e soberana. Esse caminho precisa ser aprofundado com infraestrutura nacional de dados, inteligência artificial, software livre, regulação das plataformas digitais e defesa da soberania tecnológica.

O Brasil deve atuar nos Brics, no G20, no Mercosul, na Celac e nos organismos multilaterais em defesa de uma nova arquitetura financeira internacional – mais democrática, multipolar e cooperativa, com mecanismos que reduzam a dependência do dólar, ampliem o financiamento ao desenvolvimento e deem ao Sul Global maior capacidade de decisão.

Defender o Brasil hoje é defender nosso trabalho, nossa indústria, nossa ciência, nossos dados, nossos bancos públicos, nossa moeda, nosso crédito e nossa capacidade de decidir os rumos do desenvolvimento nacional. A arquitetura financeira mundial está mudando. O desafio é impedir que essa mudança aprofunde dependências e construir, com soberania, democracia e justiça social, um novo lugar para o Brasil no mundo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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