Soberania sob ataque
'Os imbecis que aplaudem Trump poderão tornar-se suas vítimas', escreve o colunista Oliveiros Marques
A prisão de Nicolás Maduro e de sua esposa não pode ser lida como um episódio isolado, tampouco como resultado exclusivo de disputas internas da Venezuela. Há fortes indícios - apontados por analistas e coerentes com a própria tradição histórica da política externa dos Estados Unidos - de que tal ação só se tornou viável porque agentes da CIA atuavam em território venezuelano, seja de forma clandestina, seja sob coberturas institucionais. Não se trata de teoria conspiratória, mas de um método recorrente que Washington jamais abandonou. Ainda que tenha havido algum traidor dentro do regime, o contato só foi possível porque agentes norte-americanos já estavam presentes no país.
Mais uma vez, torna-se evidente a atuação dos Estados Unidos por meio de agentes infiltrados. E, a partir desse reconhecimento, impõe-se uma pergunta incômoda, que muitos preferem evitar: quem garante que o mesmo não esteja sendo planejado em outros países da América Latina? Mesmo no Brasil? Nesse campo, a ingenuidade costuma sair caro. A história é clara ao demonstrar que golpes, desestabilizações e operações de “extração” de lideranças políticas raramente ocorrem sem apoio logístico, inteligência estrangeira e presença física no território-alvo.
Mesmo quando camuflados como membros do corpo diplomático, assessores técnicos, consultores internacionais ou representantes de supostas “missões de cooperação”, esses agentes podem estar cumprindo tarefas objetivas: mapear atores políticos, estimular conflitos internos, financiar opositores seletos e, no limite, preparar o terreno para rupturas institucionais. Foi assim no passado, e não há qualquer sinal de que esse método tenha sido abandonado. Os exemplos são numerosos: Panamá, Iraque, Líbia. Na própria América, operações encobertas marcaram golpes e quedas de governos ao longo do século XX, do Chile à América Central.
Quando práticas desse tipo passam a ser tratadas como aceitáveis, a autonomia e a independência dos países deixam de existir. Restam apenas formalidades jurídicas e bandeiras hasteadas. A soberania torna-se condicional, subordinada à conveniência de potências estrangeiras e aos interesses econômicos e geopolíticos que elas escolhem priorizar.
Diante disso, impõe-se aos países que prezam por sua soberania uma reflexão urgente: faz sentido manter regras frouxas de entrada e circulação para cidadãos norte-americanos ou para aqueles que, mesmo sem cidadania dos Estados Unidos, mantêm vínculos estreitos com seu governo? À luz dos fatos, a resposta é negativa. Fiscalizações mais rigorosas, critérios transparentes e mecanismos de controle não configuram hostilidade diplomática nem violação do direito de ir e vir. São medidas elementares de autoproteção.
Defender a Venezuela, nesse contexto, não é defender um governo específico nem ignorar seus problemas internos. É defender um princípio básico: nenhum país tem o direito de agir como polícia global, infiltrando agentes, sequestrando lideranças e impondo sua vontade geopolítica e econômica pela força. Se hoje foi lá, amanhã pode ser aqui. A história mostra que, quando esse alerta é ignorado, o preço costuma ser alto. E mesmo os imbecis que hoje aplaudem Trump poderão, amanhã, tornar-se suas vítimas. O império não tem amigos. Tem interesses.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




