Sobre a obscena tolerância ao fascismo
Essa é uma historinha que ilustra o que é “falar para fora da bolha”
Os feriados são sempre bem-vindos.
É verdade que alguns deles, especialmente quando os acompanha a expressão “vamos emendar”, assusta os pequenos comerciantes que vivem do movimento do dia a dia.
Feriados existem desde a antiguidade e têm a função de demarcar a passagem do tempo ou a celebração de algum fato significativo.
No feriado de 7 de setembro desse ano, abençoadamente distante da idolatria histérica, obscena e patológica ao Inominável, resolvi retomar as minhas caminhadas, afinal, além de “ligeiramente” acima do peso, todos sabemos que caminhar é uma atividade extremamente benéfica à saúde.
Saí cedinho, estava pleno de disposição, encontrei um vizinho, pontepretano raiz como eu; o “papo” durante o início da caminhada tomou rumo da nossa preocupação com a Macaca Querida.
Não falamos mais de política, combinamos assim, pois ele não sustenta a fragilidade das suas certezas com polidez e acaba “partindo” para agressões verbais, rótulos covardes e vazios de qualquer verdade.
Como perdemos o dérbi e estávamos de luto, o assunto “Ponte Macaca Querida” não rendeu, segue doloroso, então começamos a falar sobre outros temas, os quais nos levaram à “1ª Emenda” da constituição estadunidense.
Ele - eleitor histórico do PSDB, um “bom liberal” - acabou sendo cooptado pelo lavajatismo e depois capturado pelo olavobolsonarismo como muitos tucanos. Uma tristeza!
Quando converso com ele, respiro fundo e penso no evangelho de Lucas que nos ensina a amar todos, com seus defeitos e virtudes, na misericórdia de Deus.
O argumento dele foi “falta ao Brasil uma 1ª Emenda”.
Eu disse a ele que a nossa constituição, e não uma emenda, já contém todos os direitos previstos na tal “1ª Emenda”.
Expliquei que a “1ª Emenda” da Constituição dos EUA é uma parte da Declaração dos Direitos dos EUA, que procura impedir o congresso de infringir seis direitos fundamentais e que aqui no Brasil a nossa Constituição contém os mesmos direitos.
O meu feriado começou a azedar – azedar no sentido figurado evidentemente -, quando começou o surto Olavobolsonarista e ele disse: “vivemos numa ditadura, o supremo rasgou a constituição”; nesse momento desejei que não fosse feriado, me arrependi da caminhada, afinal, o que são uns quilos a mais, e pensei: “se eu estivesse no escritório não estaria ouvindo isso”.
Como me comprometi a não me estressar com a limitação intelectual de ninguém, até porque sei que nada sei, expliquei para o vizinho que nem a 1ª Emenda não contém valores absolutos, que lá, em menor grau é verdade, também há restrições necessárias ao abuso do exercício de direitos; que essas restrições geralmente estão relacionadas a conteúdos que incitem à violência iminente, ameaças reais, discursos difamatórios e obscenidades.
Então tentei explicar para ele que tudo que a 1ª Emenda proíbe, ou tenta preservar o nosso artigo 5º da Constituição prevê e contém, portanto, não nos falta uma “1ª Emenda”, mas ele não estava mais prestando atenção (quando os olavobolsonaristas surtam é até perigoso, a minha sorte é que ele estava tão cansado quanto eu em razão da caminhada) e disse o que diz todo bom vassalo colonizado pelo American way of life: “mas lá funciona”.
Pedi a Deus paciência e disse a ele que aqui também funciona.
Fiz com que ele se lembrasse que as democracias que são excessivamente tolerantes com abusos, discursos de ódio e os preconceitos, correm o risco de criar monstros e verem-se destruídas, foi assim na Alemanha de Hitler.
Falei para ele que os discursos de ódio, podem e devem, ser restringidos, especialmente se caem dentro de uma classe que nos EUA eles chamam de “ameaças reais” de violência; que, apesar da mítica 1ª Emenda, nos EUA a obscenidade, por exemplo, pode ser restringida, a Suprema Corte dos EUA definiu o que é obscenidade e o que é o discurso do ódio – geralmente definido como um discurso que calunia uma pessoa ou grupo com base em raça, etnia, gênero, religião, orientação sexual ou deficiência.
Mas o vizinho insistia no “lá funciona”.
Então dei um exemplo para ele. No final de agosto dois grupos de neonazistas americanos desfilaram pelas ruas da cidade de Orlando, na Flórida. Uniformizados e escondendo o rosto com balaclavas, os supremacistas empunhavam bandeiras com a suástica, faziam a saudação romana e gritavam “White Power” e “Estamos em todos os lugares”.
Eu perguntei: “em nome da liberdade de expressão você apoia manifestações nazistas e de ódio?”, meu vizinho concordou que há um exagero achar que a liberdade de expressão é um direito absoluto, afinal, defender a supremacia branca e pregar a eliminação de determinados grupos sociais, manifestações, em tese, cobertas pela tal 1ª Emenda deles, não nos serve.
O paradoxo é que, na “terra da liberdade”, os nazistas podem desfrutar do direito de se organizarem em milícias e ir para as ruas para pregar a extinção da liberdade das minorias. E, como escreveu o jornalista João Filho: “É esse o paraíso libertário tão sonhado por alguns brasileiros, como o influencer Monark e o deputado federal Kim Kataguiri, do União Brasil do MBL”.
Para esses subprodutos não recicláveis das marchas de 2013, a Alemanha “cometeu um erro” ao criminalizar o nazismo depois do Holocausto, pois, na visão obscena de “kins” e “monarks” os nazistas devem poder se organizar em partidos políticos e concorrer às eleições (ou esses dois são nazistas ou ignorantes).
Depois de ouvir esse exemplo o meu vizinho concordou constrangido e disse apenas: “acho que vou dar só mais uma volta, está calor, né?”.
Essa é uma historinha que ilustra o que é “falar para fora da bolha” e a sua importância.
e.t. o adjetivo “obscena” que uso no título desse artigo deve ser compreendido com despudorada ou desavergonhada.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

