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Sara York

Sara Wagner York é jornalista, psicanalista, PhD em Educação, pós-doutora em Semiótica, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. Especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, é autora do primeiro trabalho sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido no mestrado em 2020. Tem um filho, é avó e foi a primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro, pela Brasil 247, tornando-se referência nacional nas discussões sobre mídia, educação e direitos humanos. É imortal da Academia de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro.

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Sobrevivência institucional e as táticas para derrotar o extremismo redefinem as fronteiras entre o PSOL e o PT

A geografia política da esquerda brasileira passa por uma de suas mais profundas reconfigurações desde a redemocratização

Sobrevivência institucional e as táticas para derrotar o extremismo redefinem as fronteiras entre o PSOL e o PT (Foto: Reprodução)
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A geografia política da esquerda brasileira passa por uma de suas mais profundas reconfigurações desde a redemocratização. O fluxo migratório de quadros históricos e novas lideranças expressivas do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), bem como de siglas do campo progressista tradicional, em direção ao PT (Partido dos Trabalhadores) e à sua base direta de sustentação, aponta para um fenômeno estrutural. Longe de ser um movimento meramente individual, a mudança responde a imperativos táticos de sobrevivência institucional e à consolidação da estratégia de "Frente Ampla" liderada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Para compreender esse cenário, é necessário abdicar de leituras lineares e adotar um viés polissêmico, nossa leitura um tanto semiótica. Sob a ótica da governabilidade, o fortalecimento do PT consolida a estabilidade democrática contra a persistente ameaça da extrema-direita. Sob a perspectiva da autonomia partidária, contudo, o esvaziamento de siglas à esquerda do PT tensiona o debate sobre o pluralismo ideológico e o papel da oposição programática.

## O Funil Institucional: Cláusula de Barreira e Realpolitik

Dois fatores principais empurram as lideranças para o partido que detém a hegemonia do Executivo Federal:

 1. A sufocação das siglas médias: A aplicação progressiva da cláusula de desempenho (entendido como barreira) restringe o acesso ao fundo partidário e ao tempo de televisão. Para lideranças de grande apelo popular, a permanência em legendas menores impõe tetos estruturais sufocantes para a realização de campanhas majoritárias viáveis.

 2. Diluição das fronteiras ideológicas: Desde que a corrente majoritária do PSOL optou por integrar formalmente a base de apoio ao governo Lula, a diferenciação prática entre as siglas se estreitou. Se a atuação cotidiana consiste em defender a gestão federal no Parlamento, a fusão de horizontes táticos torna-se uma consequência natural. O caso de Marcelo Freixo, que migrou para o PSB abrindo caminhos para alianças mais amplas, e a centralidade de Guilherme Boulos na articulação governista em São Paulo são os exemplos mais nítidos desse realinhamento histórico.

## Representatividade Trans e Travesti no Tabuleiro de Poder

A análise ganha ainda mais densidade ao observar como esse movimento atinge a vanguarda das candidaturas trans e travestis do país. A disputa por espaços de poder reais, orçamentos e estruturas de proteção contra a violência política de gênero alterou as escolhas partidárias dessas parlamentares.

O caso de Benny Briolly, primeira vereadora trans eleita na história de Niterói (RJ), é emblemático. Alvo histórico de racismo religioso e de graves ameaças que a obrigaram a deixar temporariamente o país no passado, Briolly oficializou sua migração do PSOL para o PT. Em um cenário onde a extrema-direita flerta continuamente com a violência política, o guarda-chuva institucional e a capilaridade jurídica do Partido dos Trabalhadores oferecem uma retaguarda de segurança e musculatura política indispensáveis para o enfrentamento nas câmaras municipais.

Em contrapartida, o movimento não é homogêneo, revelando a multiplicidade de sentidos da realpolitik brasileira:

 Erika Hilton*, hoje uma das vozes mais potentes do cenário nacional e líder da bancada do PSOL na Câmara dos Deputados, optou por fincar estacas na legenda. Hilton atua como uma ponte orgânica fundamental entre a esquerda partidária e o Palácio do Planalto, mostrando que a sustentação ao projeto de Lula também pode ser operada mantendo a independência formal da sigla de origem.

 Duda Salabert*, deputada federal por Minas Gerais e figura central no debate ecológico e de direitos humanos, cumpre sua própria trajetória de tensionamento do ecossistema político. Tendo deixado o PSOL em 2019 denunciando limites internos para candidaturas trans, Salabert construiu sua projeção no PDT, legenda pela qual disputou a prefeitura de Belo Horizonte, e retornou posteriormente às fileiras do PSOL, evidenciando que as fissuras na centro-esquerda também geram movimentos de refluxo.

 Thabata Pimenta*, que fez história como a primeira vereadora trans do Rio Grande do Norte (em Carnaúba dos Dantas) e posteriormente eleita em Natal, ilustra a busca por viabilidade em solo nordestino. Sua transição por partidos como o PSB, o próprio PSOL e, finalmente, o PV (partido que integra a Federação Brasil da Esperança junto ao PT) reflete a necessidade de acomodação em estruturas que garantam legenda e quociente eleitoral seguros em regiões onde o coronelismo e o conservadorismo regional ainda imperam.

> *O Diagnóstico do Cenário:* A marcha dessas lideranças em direção ao núcleo gravitacional do PT não representa uma capitulação, mas um realinhamento tático diante de um ecossistema político hostil. Em tempos de polarização aguda, a esquerda brasileira parece ter compreendido que a eficácia eleitoral e a defesa física e institucional de seus quadros mais vulneráveis exigem o peso da maior máquina partidária da América Latina. O desafio, a partir de agora, reside em equilibrar o gigantismo do PT com a oxigenação indispensável que as identidades radicais e os novos movimentos sociais oferecem à democracia.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.