Tarcísio irá à Papudinha para ouvir que candidato da direita é Flávio
Encontro reforça hierarquia do bolsonarismo, esvazia plano presidencial do governador paulista e consolida Flávio Bolsonaro como aposta da direita
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), vai à Papudinha, no Complexo da Papuda, em Brasília, para ouvir novamente do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) que o nome da direita para disputar o Planalto é o do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). É o segundo “beijo da morte” político imposto ao aliado que flertou com o Planalto e volta de mãos vazias.
A visita depende de autorização do ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no STF. Bolsonaro cumpre pena de 27 anos e três meses por tentativa de golpe e foi transferido da PF para a ala especial da Papuda, conhecida como Papudinha.
Em agosto, quando Bolsonaro ainda estava em prisão domiciliar, Tarcísio já havia ouvido o recado. O projeto presidencial do governador foi abortado ali. Agora, a cena se repete, apesar da militância da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que tenta manter o nome de Tarcísio vivo no campo conservador.
A mensagem é direta. Jair Bolsonaro reafirma o filho zero um como candidato e cobra lealdade do governador paulista. O gesto sela a hierarquia interna da direita e esvazia, mais uma vez, qualquer ensaio de autonomia de Tarcísio.
Nos bastidores, o governador buscou a visita para preservar pontes e evitar ruído com o bolsonarismo raiz. Sai com o ônus político de apoiar Flávio e com o bônus restrito de manter São Paulo como palanque estratégico da direita.
Bolsonaro irá dizer que manter o governo de São Paulo é fundamental para garantir a direita no páreo, isto é, seu filho, na disputa presidencial de outubro.
Os números ajudam a explicar a insistência do ex-presidente. Pesquisa Quaest, divulgada em primeiríssima mão pelo Blog do Esmael, mostra Lula (PT) à frente em cenários de segundo turno. Lula marca 44% contra 39% de Tarcísio. Contra Flávio, 45% a 38%. O capital eleitoral do governador é maior, mas não é ele o escolhido.
A decisão reforça a leitura de que Bolsonaro prioriza controle político e fidelidade familiar, mesmo diante de cenários menos competitivos. O cálculo é interno, não eleitoral.
No STF, a defesa também pediu autorização para visitas de aliados próximos e familiares. Fora dos autos, o recado político já está dado. A direita sai da Papudinha com um candidato definido e com um aliado novamente neutralizado.
Bolsonaro troca viabilidade por controle e empurra a direita para um caminho mais estreito. Tarcísio aceita o papel e preserva o mandato paulista, mas perde timing e musculatura nacional. O eleitorado decidirá se a estratégia familiar compensa o risco eleitoral.
Prevalecendo o cenário de Flávio como candidato, abre-se espaço para o surgimento de outros nomes, fragmentando a corrida eleitoral. É o caso do governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), que pode receber autorização tácita para entrar no páreo. O racha na direita deixa Lula com uma mão na taça.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


