Terra plana, estado de direito redondo?

Passada a catarse inicial que as matérias publicadas pelo The Intercept causaram e sejam quais forem as suas consequências, o rei já está nu. Talvez seja o que baste para a retomada da consciência cidadã perdida no atropelo de marcos civilizatórios seculares: devido processo, fair trail, decência e jogo da amarelinha

O mundo se persegue, perseguindo em si a ânsia pela vida. Obrigado, Glenn; muito obrigado.

Passada a catarse inicial que as matérias publicadas pelo The Intercept causaram e sejam quais forem as suas consequências, o rei já está nu. Talvez seja o que baste para a retomada da consciência cidadã perdida no atropelo de marcos civilizatórios seculares: Devido processo, fair trail, decência e jogo da amarelinha – com a licença de Cortázar, hoje, mais que ontem, parece urgente ‘vir dormir comigo, mas não iremos fazer amor; ele nos fará’.

A voz do The Intercept ainda vai longe e, das consequências de sua luz, cuidarão outros, com mais informação e, até por isso, mais profundidade. Nosso mergulho raso, aqui e agora, volta-se para a vergonhosa condição que o estado está a impor a João Vaccari Neto, preso político desde antes dos sete a um do Mineirão.

Sabemos, hoje, que o juiz que lhe ordenou a prisão e que lhe condenou (com duas sentenças revistas no TRF 4, que referendou outras tantas), orientava o ministério público acerca da condução dos procedimentos acusatórios e políticos que lhe serviam de fundamento para as decisões que estão a custar, desde 2014, a liberdade de João Vaccari.

Esta miséria judicante impõe a questão que não quer calar: O estado brasileiro será coautor desta vergonha? Tutor ético/moral desta covardia?

A defesa técnica de João Vaccari sempre soube e continuará sabendo o que deve ou não fazer.  E o Poder Judiciário? Já acordou, ou continua no compasso da covardia?

Esta miséria judicante, sabe-se agora, foi costurada e arrematada em conversas tiradas à margem de qualquer contexto legal e à mingua de qualquer solução republicana, num ‘Stand by Me’ tão hipócrita quanto covarde que, para falar apenas de meu irmão João Vaccari, custa-lhe a liberdade há mais de cinco anos, tempo no qual nasceram seus dois netos e ele não pode partilhar em família a plenitude da renovação de sua vida.

O tear do destino, em se tratando de João Vaccari especificamente, foi conduzido por uma mão perversa, maligna e absolutamente covarde, na medida em que o estado de direito é democrático (ou deveria ser) exatamente para evitar que canalhas lhe tomem de assalto, se auto outorgando a condição de ungidos pela pena, iluminados pela toga, arrebatados pela mediocrização e covardia da guarda exclusiva da verdade.

Respeitosa licença (a quem me lê, não de quem falo) a verdade pertence ao tempo e a mais ninguém. A nós, mortais (e, pensamos, até aos terraplanistas alienígenas) o que resta é respeitar a baliza tripartite desenhada por Platão e concebida nos detalhes por Montesquieu, para que o ideário civilizatório que balança a teia do tempo não esteja à disposição de quem, em determinado momento histórico, detenha a força – porque a força, sem o equilíbrio da justa medida, não é senão despotismo não esclarecido que vem corroendo a nossa condição humana, engrossando a salga da banalização do mal.

Deveras, não se combate o bom combate sendo um combatente do mal. Não há ganho, honra, galhardia ou qualquer implemento civilizatório no assalto ao estado de direito e, João, meu irmão, saiba: Sua custódia envergonha o país!

Hoje, vou tomar um vinho dos que você gosta e dos que tomamos algumas vezes e, no tomar, mais uma vez levantarei o brinde que levanto há cinco anos: A João Vaccari, o que não se curvou à Sua Majestade.

Penso, com Vosso consentimento, estender o brinde a uma prece, suposto que Vaccari Livre inicia a recomposição da equação de equilíbrio então subtraída, devolvendo o preceito ético mínimo às instâncias punitivas, no afã de lhe recuperar a própria decência.

Saúde, irmão; há, enfim, luz ao final do túnel.

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