Tire a mão do meu hijab – meu lenço, minhas regras!

O uso do lenço traz para o ocidente um debate cheio de desconhecimento e controvérsias. Há uma dificuldade de compreensão sobre o real uso da vestimenta religiosa e sobre a satisfação de usá-la pela maioria das mulheres muçulmanas

(Foto: Eduardo Campos Ferreira (Mesquita de Santo Amaro))
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Ó Profeta! Diz às tuas esposas, às tuas filhas e às mulheres dos crentes, que se cubram inteiramente com seus mantos (quando saírem de casa). Isso é mais apropriado para que sejam reconhecidas e não sejam abusadas. E Allah é perdoador, Misericordioso (Alcorão, 33:59).

Desde 2013 temos o Dia Mundial do Hijab– World Hijab Day – comemorado em 1º. de fevereiro em mais de 140 países. O objetivo desta campanha é desmitificar o uso do lenço e encorajar que as muçulmanas façam uso de sua vestimenta religiosa, mas também, pedir que mulheres não muçulmanas façam uso do hijab nesta data como uma forma de apoiar muçulmanas na sua prática religiosa. Escrevi sobre esta campanha no artigo #Womenmarchs e #WorldHijabDay: em tempo de recrudescimento de políticas antimulheres – muçulmanas[1]

A campanha também recebeu críticas, pois alguns consideram o uso de lenço como forma de opressão do corpo, da mente de mulheres. Para essas, fazer campanha de apoio ao uso é como seguir apoiando a violência. Será mesmo?  Será que outras mulheres não estão tirando das muçulmanas as suas próprias agendas? As suas próprias lutas? Quem pode dizer que é opressão, libertação e escolha? Há muita discussão pautada em direitos e deveres de mulheres no Islã, como se todas e todos pudessem opinar sobre o uso de uma vestimenta usada exclusivamente por mulheres. Neste artigo busco trazer algumas experiências para compartilhar com um público leigo, laico e religioso e, desta forma, elucidar algumas questões que já explorei em outros artigos e por isso estão sinalizados no corpo do texto para quem quiser se aprofundar mais no tema. 

 A primeira discussão trata-se do objetivo da campanha World Hijab Day direcionada as não muçulmanas em apoio às mulheres muçulmanas. Muitas pessoas me perguntam se não muçulmanas ao fazerem uso do lenço não estariam fazendo apropriação cultural. Entende-se por “apropriação cultural” o uso de vestuários, objetos de grupos marginalizados, acredita-se que quem faz isso retira o significado religioso e político da vestimenta, objeto. Minha resposta é não! Não é apropriação cultural que mulheres se fotografem usando lenço, principalmente em apoio às muçulmanas. O uso do lenço não é invenção islâmica, não nasceu com a religião. Mulheres judias, cristãs já usavam em seu tempo, as judias deixaram de usar no século IX quando migraram para Europa, adotando neste período o uso da peruca. O lenço islâmico tem uma proximidade com a vestimenta que Mariam, mãe do profeta Jesus, isso tem uma representação forte no Islam, -  se assemelha a única mulher citada no Alcorão -,  e que para a teologia islâmica é uma das quatro mulheres no paraíso[2]. Há no livro sagrado dos muçulmanos uma surata (capítulo) dedicado à Mariam. Outro dado importante é que muitas mulheres quando se interessam pelo Islam passam a fazer uso do lenço como forma de se preparar para reversão (categoria nativa, que significa conversão), outras já revertidas também fazem este tipo de “experimento” muitas vezes para ver as reações das pessoas, além disso, temos as fotos que as pessoas fazem em viagens, sabe-se que em muitos países e espaços islâmicos o uso do hijab é obrigatório. 

O segundo ponto, é considerar que o uso do lenço traz para ocidente um debate cheio de desconhecimento e controvérsias. Há uma dificuldade de compreensão sobre o real uso da vestimenta religiosa e sobre a satisfação de usá-la pela maioria das mulheres muçulmanas. No Brasil, venho ouvindo para minha pesquisa sobre Islamofobia[3 ]várias narrativas de mulheres, que passaram por agressões, desde puxões do seu lenço em transporte público, pedradas, cusparadas, olhares inquisidores. Eu mesma em rede social fui atacada na minha condição de mulher que usa hijab, como se eu fizesse isso por causa de um marido muçulmano. Expressões como: “seu pano na cabeça só serve para limpar o chão que eu passo”; “Eu não respeito mulher com pano na cabeça”; “volte para o seu país” e outras frases que dá um livro de horrores e intolerância religiosa que são expressas por pessoas em redes sociais e pessoalmente. Apresentei algumas violências vividas por mulheres muçulmanas no texto Je suis mulheres muçulmanas (Barbosa, 2015) é possível detectar que qualquer ato de terrorismo que envolva muçulmanos fora do Brasil reflete significativamente nas mulheres, o que venho chamando de islamofobia de gênero. 

 Costumo dizer que a vestimenta não revela uma santificação da mulher, ao contrário, revela o quanto nós mulheres precisamos nos aperfeiçoar na nossa fé e isso não pode ser feito por meio de imposição, pois invalida a nossa subjetividade, desejo, intenção. No Islam a intenção é algo recompensado, se o uso do lenço for por devoção sincera a Deus, será uma ação aceita por Ele. O que se denominou chamar de “pureza na intenção”, conforme o dito do Profeta Muhammad (SAAS):

Todas as ações são julgadas pelos motivos e cada pessoa será recompensada de acordo com sua intenção. Então, aqueles que migraram por Deus e Seu Mensageiro, sua migração será por Deus e Seu Mensageiro, mas aqueles que migraram por alguma coisa terrena que pudessem obter ou por uma esposa com a qual pudesse se casar, sua migração será por aquilo pelo qual migrou. (Saheeh Al-Bukhari, Saheeh Muslim). 

Revertida ao Islam há quase 8 anos, só adotei o lenço em 2019. O desejo sempre existiu, mas a decisão em usar em um país onde o Islam é ainda desconhecido não em “imagens” estereotipadas pelo cinema, literatura, etc, mas sim, em seu conteúdo teológico, me fez esperar. Com o tempo percebi que estava confortável ser mulher muçulmana, branca, professora de uma das universidades mais importante do país (com emprego estável), e não usar o lenço, enquanto isso, muitas mulheres perdiam seus empregos, inclusive em lojas de muçulmanos, isto porque, a pressão à comunidade é tão grande, que lojistas preferem o não “confronto” com não muçulmanos. Não foi uma, ou duas mulheres que me alegaram a retirada do lenço por necessidade de permanecer em seu trabalho. Professoras de escolas particulares, lojistas, profissionais liberais, entre outras estão sempre às voltas de tirar e colocar o lenço.  

Aleguei por muito tempo: medo. E era de fato medo dos olhares, medo das reprovações de colegas, amigos, alunos. Tudo isso foi superado, quando percebi o meu privilégio, o mesmo privilégio que vejo em mulheres casadas com muçulmanos, de famílias muçulmanas. Por que privilégio? Porque a maioria que sofrem agressões é revertida, que não tem família muçulmana, as agressões são inclusive acontecem dentro de suas casas. Faz diferença pertencer a uma família muçulmana ou não muçulmana, os desafios são maiores. As revertidas precisam construir uma rede de apoio, sem esta rede fica difícil sustentar o uso da vestimenta. A nascida muçulmana encontra no seu grupo familiar esta rede naturalmente, não que isso seja suficiente, mas já é uma luta a menos, mesmo porque a luta pelo uso do lenço no Brasil começou por meninas de origem árabe, que na década de 1990 passaram a usar o lenço contra a vontade da família, criando um impacto a princípio negativo, mas que com o tempo resultou algo positivo e de empoderamento para quem veio depois, escrevi sobre isso na minha dissertação de mestrado (Barbosa-Ferreira, 2001). É sabido, que as imigrantes muçulmanas nas primeiras levas de migração abandonaram o lenço por medo de não serem aceitas, influenciadas pelos seus maridos em sua maioria. Só as mais velhas permaneceram com o uso da vestimenta.  

Meu pertencimento ao Islã não foi marcado por obrigação, opressão, mas por conhecimento de 23 anos de pesquisa de campo, de leituras e cursos, e por uma fé em Deus que é anterior a tudo isso. No nosso Brasil atual, completamente fascista, misógino, genocida, racista, homofóbico, estar de lenço é fazer parte de uma minoria de resistência. Resistência para nossa existência em todos os espaços. E isso não tem sido fácil e nem confortável mesmo em rodas de feministas e pessoas “ditas progressistas”. Há sempre uma dúvida que paira no ar de que estar coberta significa uma “santificação”, “opressão”, nunca é entendida como liberdade, desejo, identidade, ressignificação da própria vida e forma de luta, resistência. Penso que as mulheres olham com o desejo de queimar os lenços como forma de liberdade, mas é preciso mudar a ótica, e ver que colocar o lenço é dizer que temos a liberdade de ser quem somos. 

Atualmente, mesmo com dificuldades enfrentadas em seus cotidianos, as mulheres muçulmanas ocupam os espaços públicos como deixamos entrever no artigo escrito por mim e Luana Bauman (2020) Empoderamentos múltiplos de mulheres muçulmanas em espaços públicos na França e no Brasil e "como" essas em diferentes contextos (inter)nacionais, ocupam, constroem e produzem seus lugares sociais no espaço público. 

A ideia de “salvar mulheres muçulmanas” é muito antiga, o texto de Lila Abu Lughod traz isso fortemente, mas a violências que elas sofrem por não muçulmanos isso nunca ganha destaque. A invasão do Iraque em 2003 pelos EUA reflete claramente o que os soldados faziam com as mulheres que encontravam. O estupro, a violência de gênero foi silenciada, velada. As pessoas desejam salvar-nos de nossas vestimentas, mas não querem nos salvar das violências que operam sobre nossos corpos. É necessário retomar a discussão que apresentei no artigo Diálogos sobre o uso do véu (hijab): empoderamento, identidade e religiosidade(BARBOSA-FERREIRA, 2013), que o uso da vestimenta islâmica deve ser analisado na perspectiva do empoderamento, da identidade e da religiosidade. 

O discurso “meu corpo, minhas regras”, não se enquadra quando se trata de muçulmanas, como se fossemos abjetasem se cobrir, fora do lugar. “Para que isso? Você é tão bonita sem lenço!”; “Não sente calor?”. Frases que ouvimos com frequência. Vale relembrar o que escrevi no artigo Pode as mulheres muçulmanas falarem?  

O Pode a mulher muçulmana falar? É uma analogia com o texto de Gayatric Spivac “Pode o subalterno falar?”, pois quando se trata de olhar para as mulheres muçulmanas temos sempre uma visão distorcida dessas como sendo subalternas (subjugadas) e abjetas, para usar um termo de Judith Butler. É inconcebível, para alguns, que mulheres possam pertencer a um grupo religioso no qual a vestimenta, o cobrir-se faça parte da sua religiosidade e da sua escolha. A perspectiva de opressão se inverte neste caso, pois ao dizer que mulheres muçulmanas não devem se cobrir, estamos criando um discurso objetivado na nossa ótica “não islâmica” de corpo, sentidos, etc. Ao desejar/obrigar que o outro siga o nosso padrão cultural estamos excluindo-o do espaço público e silenciando a sua fala. (BARBOSA, 2017) 

 Cabe lembrar que vivemos um país laico, no qual a liberdade de religião, de crença, de expressão da fé e pensamento religiosos, devem ser considerados e protegidos conforme os Direitos Fundamentais do Homem, expressos, inclusive, na DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948.Em um dos artigos está expresso:

"Artigo XVIII - Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular. 

 Para finalizar, convido as mulheres que lutam por igualdade, justiça que se juntem às mulheres muçulmanas em 1º. de fevereiro e postem suas fotos de lenço em apoio a nossa luta, que é o direito de sermos quem somos. E se vocês sofreu alguma violência que se enquadra como ato de intolerância ao Islam, escreva para nós, conte sua história pelo email: [email protected]  

Referências

Alcorão.(2018). Tradução Sheikh Aminuddin Muhammad Ibrahim.

BARBOSA-FERREIRA, Francirosy, C. (2001) Imagem Oculta. Dissertação de Mestrado. Antropologia, USP, 2001.

BARBOSA, Francirosy, Campos. (2013) Diálogos sobre o uso do véu. In: https://periodicos.fclar.unesp.br/perspectivas/article/view/6617

BARBOSA, Francirosy, Campos. (2020) Empoderamentos múltiplos de mulheres muçulmanas em espaços públicos na França e no Brasil https://www.revistas.usp.br/ra/article/view/168619

BARBOSA, Francirosy, Campos. Não é só pelo lenço que lutam as mulheres muçulmanas. In: https://icarabe.org/mulher/hijabday-nao-e-so-pelo-lenco-que-lutam-mulheres

BARBOSA, Francirosy, Campos. Je suis mulheres muçulmanas. In: https://observatorio3setor.org.br/noticias/je-suis-mulheres-muculmanas/

BARBOSA, Francirosy, Campos. (2017) Pode as mulheres muçulmanas falarem? In: https://brasiliainfoco.com/coluna-pode-a-mulher-muculmana-falar-por-francirosy-ferreirausp/

  [1] https://icarabe.org/node/2929 acesso 28/01/2021. [2]Maryam, Assia, Khadija e Fatima.  [3] Se você sofreu alguma situação islamofobica ou presencial algo do gênero, seja homem ou mulher, escreva para [email protected] queremos ouvir a sua história. 

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