Pedro Benedito Maciel Neto avatar

Pedro Benedito Maciel Neto

Pedro Benedito Maciel Neto é advogado, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, Ed. Komedi, 2007.

209 artigos

HOME > blog

"Todos nós mudamos, mudaram os tempos, mudou o Brasil, mudou o mundo..."

Uma reflexão atual sobre o legado político de Brizola, sua rejeição ao radicalismo e a defesa de uma esquerda conectada ao povo brasileiro

Leonel Brizola (Foto: Reprodução Youtube)

Acordei cedo no segundo dia desse 2026, liguei a TV e busquei alguma coisa interessante no Youtube, encontrei algumas entrevistas de Brizola, uma delas me impactou muito.

Antes um pouco de História.

Leonel de Moura Brizola, filho de lavradores, alfabetizado pela mãe, estudou com dificuldades, prestou o serviço militar, trabalhou como jardineiro, concluiu o cientifico e, aprovado no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tornou-se engenheiro.

O movimento estudantil o levou à política. Foi deputado estadual, prefeito de Porto Alegre - tendo como vice Maneco Vargas, filho de Getúlio, e governador do Rio Grande do Sul, antes do golpe de 1964, foi obrigado a exilar-se, ficou fora do Brasil por quinze anos no Uruguai, nos EUA e em Portugal; voltou do exilio em 1979.

Fundou e presidiu o PDT, um partido de viés social-democrata, foi eleito governador do Rio em 1982 e em 1990, o foco dos seus governos foi a educação, exatamente como disse no Canal Livre, construiu os Centros Integrados de Educação Pública, os CIEPs.

Na eleição presidencial de 1989 ficou em terceiro lugar, com uma diferença inferior a 1% em relação a Lula, foi ainda candidato a vice-presidente na chapa com Lula em 1998.

Eu o avistei no aeroporto de Buenos Aires em 1990, não tive coragem de ir até ele, me pareceu invasivo demais.

No ano seguinte, como pode confirmar o amigo Edison Cunha, estivemos com ele no apartamento do Jacó, lá no Largo Santa Cruz; o momento foi, como os jovens dizem hoje em dia, “bizarro”, afinal ver e ouvir Jacó Bittar e Leonel Brizola tomando cafezinho na cozinha, era algo impensável.

Depois os acompanhamos à inauguração de um CIEP em Americana, que tinha como prefeito o Waldemar Tebaldi, o vice era Herb Carlini, hoje no PSB (fomos até Americana de helicóptero, experiência que não recomendo a ninguém, nunca mais cheguei perto de um e voltei de carro com alguém, voltaria a pé na falta de carona).

Mas voltemos a Brizola e à entrevista à qual eu me referi acima.

Seu retorno trazia grandes expectativas, todos tinham na memória o líder da resistência de 1961 e 1964, o corajoso governador que encampou empresas multinacionais, como as de energia elétrica e telefonia no Rio Grande do Sul, nos anos 60, sob o argumento de serviço precário, e de fato, o valor simbólico de 1 cruzeiro foi pago pela Companhia de Energia Elétrica Rio-Grandense em 1959, um ato visto como nacionalista e de resistência à dominação estrangeira.

Contudo, em 1980, uma entrevista ao Programa Canal Livre na Rede Bandeirantes - ancorado por Roberto D'Ávila, da qual participaram nomes como Samuel Wainer, Plinio Marcos e Tarso de Castro -, frustrou os presentes.

As posições cautelosas de Brizola, logo na abertura do programa, ele disse: “Todos nós mudamos, mudaram os tempos, mudou o Brasil, mudou o mundo, mudamos nós”; o professor Fernando Perroni e o escritor Fernando Moraes, chegaram a afirmar que ficaram decepcionados com as posições do então-ex-governador; a publicitária Maria do Carmo Kosma chegou a dizer que ele perdeu a oportunidade que o programa lhe oferecia, apenas o sociólogo Abdias Nascimento mostrou entusiasmo com a mensagem de Brizola.

Após dizer que recepcionava as críticas e discordâncias com respeito, Brizola conclui a entrevista de 1980 dizendo: “A mim ninguém fará radicalizar. (...). Um dos grandes erros que cometi e que todos nós da esquerda brasileira cometemos, que foi o de não levar em conta a confiabilidade da classe média; neste país os trabalhadores, as grandes massas marginalizadas que precisam emergir, sair da miséria em que se encontram, não conseguirão realizar o seu projeto, não conseguirão realizar o seu projeto sem ter a confiabilidade, a colaboração da classe média (...), porque nós precisamos rever tudo que fizemos na passado, recolhendo dele o que teve de bom, para construir o nosso pais, a mim ninguém fará radicalizar; é um grande erro, o povo brasileiro não quer radicalismo, o povo brasileiro quer políticos que trabalhem ombro a ombro com ele e não que vivam por aí como liberais, embora falando uma linguagem de esquerda, no fundo querendo construir aparatos, no fundo querendo mandar no povo, ninguém conseguirá fazer desse país, o grande país que sonhamos se não trabalhar juntamente, ombro a ombro, com o nosso povo, é isso que pretendo fazer; radicalismos eu elimino da minha frente... Aliás, existem duas áreas neste país, com as quais eu não quero alianças, sabe quais são? São os comprometidos com o imperialismo e com a pequena-burguesia radicalizada, estas duas áreas eu creio que são nefastas para o desenvolvimento político e democrático do povo brasileiro”.

Ouvindo a entrevista, quarenta e seis anos depois, muita coisa interessante foi dita, mas o que me causou impacto foi a clareza do velho líder trabalhista, especialmente quando ele diz que o povo brasileiro não quer radicalismo, o povo brasileiro quer políticos que trabalhem ombro a ombro com ele e não que vivam como liberais, embora com discursos de esquerda.

Compartilho com o leitor do 247 essa minha percepção, os comentários e reflexões sobre a pesquisa.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.