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Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

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Trabalho, tempo e formação humana: o sequestro do ócio no Brasil das desigualdades

No Brasil, as relações de trabalho são marcadas pelo racismo estrutural

Trabalhadores da construção civil REUTERS/Washington Alves/Arquivo (Foto: REUTERS/Washington Alves/Arquivo)

Há algo de profundamente errado numa sociedade que precisa convencer seus membros de que o sofrimento cotidiano é virtude. Paul Lafargue percebeu isso ainda no século XIX, quando escreveu O Direito à Preguiça. Seu alvo não era apenas o capital ou a fábrica, mas algo mais profundo e duradouro. Lafargue denunciou a moral do trabalho, transformada em dogma civilizatório pela burguesia parasitária. 

Historicamente, o capitalismo organizou a vida social a partir do tempo produtivo, ou seja, o tempo do trabalho. O tempo livre surge como seu negativo, aquilo que resta após a jornada laboral, mesmo que extenuante. Nas últimas décadas, entretanto, com a intensificação da financeirização, da uberização e das formas flexíveis e informais de trabalho, essa fronteira tornou-se cada vez mais tênue. O trabalho invade o tempo da vida, coloniza o descanso e transforma o cotidiano em permanente disponibilidade para o trabalho precarizado e sem direitos.

Essa realidade coloca a sociedade contemporânea em uma disputa profunda em torno da ideia de tempo. Não se trata apenas de uma questão subjetiva ou existencial, mas de uma dimensão concreta da vida social que tem no trabalho sua centralidade. Na fase do capitalismo atual, o tempo deixou de ser apenas condição da vida humana e passou a operar como mercadoria escassa, fragmentada e rigidamente controlada.

No Brasil, as relações de trabalho são marcadas pelo racismo estrutural. O que torna essa disputa com contornos ainda mais violentos. Estados como Bahia, Amazonas e Pará, com populações negras que se aproximam dos 80%, expressam de forma cristalina a interseção entre desigualdade social, racismo estrutural e acesso desigual ao tempo. O direito ao descanso, ao lazer e ao ócio permanece profundamente racializado e classista.

É nesse cenário que parte do debate contemporâneo sobre o tempo contribuiu, ainda que involuntariamente, para aprofundar uma confusão conceitual decisiva. Domenico De Masi (1938–2023), renomado sociólogo italiano e professor emérito da Universidade La Sapienza, em Roma, tornou-se mundialmente conhecido por ter formulado o conceito de "ócio criativo", que defende a integração entre trabalho, estudo e lazer como forma de estimular a criatividade e a produtividade na sociedade pós-industrial. 

Ao popularizar a ideia de “ócio criativo”, De Masi trouxe à cena pública uma crítica importante à centralidade absoluta do trabalho produtivo. Contudo, ao deslocar o ócio para um espaço híbrido entre trabalho, estudo e diversão, sua formulação acabou sendo facilmente capturada pelo imaginário neoliberal.

No capitalismo tardio, o “ócio criativo” foi traduzido não como ruptura com a lógica produtivista, mas como autorização para consumir, empreender e produzir continuamente sob novas roupagens. O tempo supostamente livre converteu-se em tempo de autoaperfeiçoamento permanente, inovação constante e desempenho subjetivo, exatamente o oposto do ócio como suspensão consciente do tempo produtivo. 

Para os gregos, o ócio (scholé) ocupava lugar central na produção da vida, da arte, da beleza e do pensamento filosófico. Não era o tempo residual do trabalho, mas sua negação consciente. Foi no ócio que se gestaram a filosofia, a política, a estética e, posteriormente, as bases da própria ciência enquanto racionalidade crítica. O trabalho manual, ao contrário, era associado à submissão à necessidade.

A modernidade capitalista inverteu essa hierarquia. O trabalho alienado tornou-se virtude moral, identidade e destino. O ócio foi degradado à condição de preguiça, improdutividade ou, quando tolerado, reduzido ao consumo. A confusão contemporânea entre tempo livre e lazer mercantilizado expressa essa inversão histórica.

A precarização do trabalho, portanto, não retira apenas direitos, renda e proteção social. Ela rouba algo mais profundo. A possibilidade de experimentar o tempo como dimensão humana. Jornadas extensas, múltiplos vínculos, informalidade e insegurança transformam o tempo livre em cansaço administrado. O lazer converte-se em mera recuperação funcional para o retorno ao trabalho uberizado, precarizado e sem direitos.

Quando essa dinâmica se articula ao racismo estrutural, o quadro se aprofunda. Um exemplo cruel são as imagens cotidianas das praias da costa baiana, que são reveladoras. Observam-se, majoritariamente, corpos negros trabalhando. São vendedores e vendedoras ambulantes, trabalhadores de serviços, pessoas limpando e servindo. Ao mesmo tempo, corpos brancos desfrutam do lazer, como se o regime escravocrata não tivesse sido oficialmente encerrado. Trata-se de uma engrenagem social que define quem sustenta o tempo livre alheio e quem tem direito ao próprio tempo.

A pergunta permanece incômoda. Quando os trabalhadores e trabalhadoras que sustentam o lazer dos outros poderão viver o ócio como experiência plena de humanidade? Em que momento o tempo deixará de ser privilégio e se afirmará como direito social?

Discutir lazer, ócio e tempo livre hoje é discutir projeto de sociedade e, no caso da universidade pública, é também disputar o sentido da formação, do conhecimento e da vida que se produz em seu interior. É enfrentar a lógica que transforma a existência em extensão do trabalho e que racializa o direito ao descanso. O sequestro do tempo é uma das faces mais perversas da exploração contemporânea.  E sua disputa é, necessariamente, política.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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