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Pedro Benedito Maciel Neto

Pedro Benedito Maciel Neto é advogado, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, Ed. Komedi, 2007.

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Trump e "o declínio do império norte-americano"

Crise fiscal, dependência industrial e perda do papel do dólar

O presidente dos EUA, Donald Trump 3 de março de 2026 (Foto: Jonathan Ernst/Reuters)

O filme “O Declínio do Império Americano”, de 1986, do diretor Denys Arcand, nunca foi tão atual. Nele, oito amigos se encontram para um jantar e conversam, entre outras coisas, sobre teorias que explicavam o mundo que, no final da década de 1980, começavam a ser contestadas. Ao mesmo tempo, falam sobre as escolhas políticas e culturais que a geração nascida nos anos 1950 fez nesse período; há um monólogo no final do filme bastante importante.

Há um célebre monólogo final do filme no qual a personagem Dominique reflete sobre o fato de que os grandes impérios não caem apenas por invasões externas, mas por uma exaustão interna, na qual a busca pelo prazer pessoal e a indiferença superam os ideais coletivos. Eis parte dele: “Quando penso na história, vejo um vasto cemitério... Grandes impérios, civilizações refinadas... todos desaparecem. E nós? Nós estamos apenas desfrutando dos últimos dias de um império. Estamos preocupados com nossas pequenas vidas, nossos prazeres, nossos confortos, enquanto o mundo ao nosso redor está em chamas ou prestes a desmoronar. A história não se importa com a nossa felicidade individual.”

O fato é que, em 1986, há quarenta anos, a percepção do declínio do grande império estadunidense foi pautada pelo diretor canadense e, creiam, existe um padrão histórico que se repete, mostrando como impérios colapsam ao longo dos séculos.

Os EUA removeram o ditador-presidente da Venezuela, ao arrepio do Direito Internacional, e agora declaram guerra ao Irã em busca de controle do petróleo e com o objetivo de atrapalhar a “nova rota da seda”, além de constranger os BRICS, argumento que vou defender noutro artigo, demonstrando o desespero do Império.

Tal “padrão histórico do colapso dos impérios” possui estágios identificáveis e mensuráveis que aparecem em uma sequência mais ou menos previsível. Exemplos históricos incluem a Espanha do século XVII, o Império Britânico do século XIX e a União Soviética; o próximo império a ruir seriam os Estados Unidos, pois a superpotência atual, que domina o mundo desde a II Guerra, está a caminho do colapso.

Impérios começam seu declínio no auge de seu poder aparente, expandindo comprometimentos militares além da sustentabilidade econômica. Foi assim com a Espanha do século XVII, que mantinha exércitos em Flandres e frotas no Mediterrâneo, gastando mais do que a prata das colônias podia financiar, resultando em déficit operacional permanente; com a Grã-Bretanha, cuja vasta extensão do império exigia uma marinha gigante e guarnições globais, com custos insustentáveis — evidentemente as duas guerras mundiais aceleraram o processo —; e com a União Soviética, que gastava 15% a 20% do PIB em despesas militares, levando à estagnação econômica.

Os Estados Unidos possuem 800 bases militares em mais de 70 países, com um orçamento de defesa de quase 1 trilhão de dólares anuais. O custo total real de todos os comprometimentos militares americanos é de 1,5 trilhão anualmente, cerca de 6% do PIB, superando o crescimento econômico real, o que aponta para um colapso inevitável.

Some-se ao custo militar a depreciação do dólar.

Nos Estados Unidos, a dívida nacional é de 35 trilhões de dólares, ou 120% do PIB, e continua crescendo; o déficit anual é de 1,8 trilhão, e apenas os juros sobre a dívida excedem 1 trilhão de dólares anualmente. A dívida cresce mais rápido que o PIB, tornando-se insustentável.

Enquanto o governo estadunidense desperdiça recursos em gastos improdutivos, a economia real encolhe e a base industrial atrofia; foi assim com outros impérios.

No caso do colapso do império americano, parecem existir vários desses fatores: a indústria, que era 27% do PIB em 1960, hoje é 11%; cidades industriais como Detroit e Cleveland colapsaram; os EUA dependem da China para eletrônicos, medicamentos e componentes críticos, uma dependência estratégica perigosa.

Com a economia real encolhendo e bons empregos desaparecendo, a coesão social desmorona.

Há um elemento que precisamos observar: o dólar vem perdendo o status de “moeda de reserva”. O mundo está mudando: China e Rússia estão comerciando em moedas locais; os BRICS estão criando mecanismos de pagamento alternativos; e a Arábia Saudita aceita yuan por petróleo. A participação do dólar nas reservas globais caiu de 70% para 58%, indicando uma erosão constante no citado status. Quando o status de reserva se vai, a capacidade de financiar déficits desaparece, a espiral da dívida torna-se insustentável e a inflação explode.

Quando ocorrerá o colapso do império americano? O tempo é incerto, pode ocorrer em 5 ou 20 anos, mas a direção é clara, pois não há país excepcional, não há povo escolhido, não há império eterno. Roma, mongóis, Espanha, Grã-Bretanha e URSS, além dos otomanos, caíram seguindo o mesmo padrão, e os EUA dão sinais claros de decadência, o que os torna mais perigosos do que nunca. Afinal, eles têm a tal bomba atômica e, como sabemos, a história não se importa com a nossa felicidade individual.

Essas são as reflexões que compartilho com o leitor do 247.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.