Um Egas que deu pano para mangas
Conheci Egas Francisco no MACC em 1981, minha colega Etoile havia sido sua aluna e, como estudávamos todas as tardes na biblioteca municipal, que fica no mesmo prédio do museu, aproveitamos a oportunidade para visitá-lo.
À época ele ministrava o curso “Os Pintores Malditos” no Museu de Arte Contemporânea; conversamos bastante, contei que meus pais e tios haviam sido vizinhos de seus pais no Taquaral. Ele foi muito atencioso conosco e durante a conversa desenhou um retrato meu, foi um presente especial que guardo com enorme carinho.Meu pai - que se orgulhava de um desenho que Egas fez para ele num pratinho de papelão, aqueles de festinha de aniversário -, dizia que Egas é baiano, mas pesquisando para escrever esse artigo descobri que sua mãe, a também artista plástica Maria de Lourdes Muniz Sampaio de Souza é que é baiana; Egas é da Vila Mariana, em São Paulo. Atualmente a Vila Mariana é um bairro residencial com restaurantes de gastronomia internacional e bares descontraídos e por lá estão o Museu de Arte Contemporânea.
Sua família se mudou para Campinas na década de 1940, quando ele tinha sete anos e todos aqui em Campinas conhecem o paulistano Egas, mas ele é mais do que um artista plástico, cenógrafo e professor, ele é parte fundamental da cultura da cidade; para mim é protagonista de algumas das histórias que meu pai me contava.
Ele foi professor de educação artística no Instituto Dom Nery e no Centro de Ciências, Letras e Artes, onde dirigiu o departamento de pintura e onde ministrou cursos para crianças – provavelmente foi no CCLA que a Etoile foi sua aluna.
A arte é ação humana que nos serve para expressar sentimentos e convicções a respeito dos acontecimentos; ela pode também mudar vidas e Egas, atento à realidade e às enormes possibilidades que o povo possui na alma e na vida, fundou o curso livre para engraxates e jornaleiros. Quem imaginaria um curso de artes para esse público? Apenas um artista.
Coube ao cineasta Maurice Capovilla apresentá-lo àqueles que foram à exposição do jovem Egas, sua primeira, na Livraria Macunaíma em São Paulo em 1960.
Para quem esqueceu o valinhense Maurice Capovilla foi um ator, roteirista, produtor e cineasta. O seu filme “Meninos do Tietê” foi eleito o melhor filme na 1ª Semana Latino-Americana de Cinema Documental, em Buenos Aires em 1963 e o filme “O profeta da fome”, de 1969, conquistou prêmios em várias categorias no Festival de Brasília, entre elas: de melhor argumento e roteiro. Na TV ele fez parte da equipe que criou os programas “Globo Shell” e “Globo Reporter”. Mas coube a Lula, sempre Lula, agraciá-lo com a Ordem do Mérito Cultural.
Voltemos ao Egas.
Campinas e São Paulo ficaram pequenas para o talento de Egas, pois, desde a exposição da Livraria Macunaíma em São Paulo, ele rodou o mundo; expos em Bienais, como a do MASP e de Udine, Itália, além de ter realizado dezenas exposições individuais pelo Brasil e por toda a Europa.
É possível encontrar obras de Egas em importantes coleções particulares da Europa e da América e em acervos de museus e pinacotecas: Museu de Arte de Murcia (Espanha); Laboratório Degli Artisti (Udine, Itália); Pinacoteca Garcia Lorca (Granada, Espanha) e “Amigos Del Arco” (Madri, Espanha).
Além do desenho que ele me deu, temos uma tela que adquirimos no CCLA; aliás, a aquisição dessa tela deu pano para mangas.
Por quê? Bem, Celinha e eu nos casamos muito jovens, logo chegou Lucas e com ele surgiram despesas imprevistas e a planilha, que aprendemos a fazer com Professor Heitor Regina no curso de noivos, ficou rapidamente obsoleta, foi esquecida e passamos a administrar corajosamente um orçamento deficitário.
Eu queria uma tela do Egas e, todas as vezes que eu ia ao Fórum, que ficava na rua Regente Feijó no centro, eu passava no CCLA para paquerar um quadro que estava a venda, provavelmente doado pelo Egas para custear reformas na sede da entidade; criei coragem e o comprei.
Bem, quando cheguei em casa com o quadro precisei de toda a minha capacidade argumentativa.
Eu disse que uma obra de arte, além do valor puramente estético, contém outro valor: a intenção de seu autor em expressar uma mensagem; que o homem cria objetos não apenas para se servir utilitariamente deles, mas também para expressar seus sentimentos diante da vida e, mais ainda, para expressar sua visão do momento histórico em que vive; que essas criações constituem as obras de arte e contam – talvez de forma muito mais fiel – a história dos homens ao longo dos séculos.
Mas falhei, a Celinha não caiu na minha conversa e a compra da tela do Egas dá pano para mangas até hoje, mas ela está lá alimentando nossas almas como toda obra de arte.
Em meados dos anos 1990 enquanto passeávamos no Bosque São José com os nossos filhos ainda pequenos, encontramos Egas e seu enorme sorriso dando aulas a crianças do bairro, sob o olhar orgulhoso dos pais e mães, mais uma iniciativa dele, de sua alma gigante.
Egas é grande, enorme, e merece ser conhecido e homenageado.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

