Um Rio de Janeiro do tamanho do Brasil

Disputa entre Freixo (PSOL) e Crivella (PRB) é de um simbolismo definidor. Um é, neste embate, o autêntico representante e herdeiro do mundo social, mundo do trabalho e de suas variadas manifestações e o outro, um escancarado avatar dos interesses das burguesias e neo-burguesias atávicas e atrasadas do Brasil e, portanto, do Rio de Janeiro

Quem pensa que a peleja eleitoral do Rio de Janeiro é só mais uma calendarizada e burocrática disputa restrita e limitada ao Rio de Janeiro não entende bulhufas de política; quem acha que o pleito entre, de um lado, um professor de história, socialista autêntico e defensor dos direitos humanos e de outro, um neoprotestante obscurantista, escatológico e golpista seja algo que respeita, tão somente, aos entreveros eleitorais do município do Rio de Janeiro não sabe da missa a metade.

Todas as atenções do bom senso brasileiro, dos militantes democráticos, progressistas e populares se voltam integralmente para a velha capital para essa batalha essencial e que, pelo menos, irá definir os próprios rumos da esquerda brasileira.

A disputa entre Freixo (PSOL) e Crivella (PRB) é de um simbolismo definidor. Um é, neste embate, o autêntico representante e herdeiro do mundo social, mundo do trabalho e de suas variadas manifestações e o outro, um escancarado avatar dos interesses das burguesias e neo-burguesias atávicas e atrasadas do Brasil e, portanto, do Rio de Janeiro.

É, por incrível que pareça, um choque de mundos, diametralmente distintos; um vigoroso conflito de civilizações ou projetos de civilizações; a síntese de um processo civilizador sumamente específico e que se arrasta ao menos, desde a fundação invasiva do Brasil. Entram em cena, espectros vivos e pulsantes a envolver duas forças fundamentais e que travam os próprios rumos da nação.

É a mesma e mesmíssima energia que opôs o resistente indígena aos grilhões cegos e assassínios de um colonizador português impiedoso e sedento por ouro e riquezas; a equivalente rítmica sócio-histórica que fez o negro erguer-se revolto contra quatrocentos anos da mais duradoura forma escravagista desde o império romano.

É a mesma lógica e móbile que fez o sertanejo das brenhas nordestinas impor-se contra o latifúndio, as sanhas dos coronéis e donatários quinhentistas e dar forma a epopeia de Canudos, ao cangaço de leis próprias ou às Ligas Camponesas.

O correlato motivo que opõe morros e comunidades repletas de uma "estranha gente" negra, cabocla e misturada aos bairros cinematográficos da zona sul. Não.. Não é só uma concorrência eleitoral. É bem mais que isso! É um mundo histórico recheado de contradições, injustiças e resistências e que ganha forma histórica no espaço/tempo da cidade do Rio de Janeiro.

É a síntese que pode ser elaborada dessa pedra de fogo e sangue e que não casualmente é lançada nas mãos do povo do Rio. É preciso decidir mirando na sinergia do tempo, dessas energias incompreensíveis e reais e que não se dissipam até a integral libertação da gente brasileira da mazela funda do desamparo social, da fome e do analfabetismo.

Até lá... O último índio assassinado seguirá sangrando; o negro quilombola avançará rebelde e fugitivo no breu escaldante das noites; os sons guturais da fome nordestina não cessarão e a casa grande seguirá firme, provocativa e imponente na paisagem e no imaginário social dos trabalhadores do Brasil compelindo-os ao medo e a submissão ao passo que, todos sabemos, esta casa senhorial deve ser imediatamente destruída.

Um tempo, uma história e nosso futuro estão em disputa em Freixo e Crivella. A questão a ser considerada nesse decisivo momento é que Freixo derrotado e oxalá isso não aconteça, a esquerda não irá sucumbir "ad aeternum". Nada disso! Mesmo porque, mais do que um apanhado de partidos, a esquerda está na vida social, na estética, na sensibilidade, nas percepções, narrativas e na visão de um mundo de justiças, ainda distante, mas necessário. Quer dizer isto sim, que a direita conquista espaços essenciais para a sua marcha por mais poder e hegemonismo.

Da mesma forma, a derrota de Crivella, não implica em um "crash" nas pretensões de uma direita que combina os piores vícios éticos, morais e educativos e que só degeneram mais ainda a dramática cultura política brasileira mas, de outro modo, impõe na cartografia do mandonismo político central, objetivamente golpista e reacionário, uma baliza essencial e revigorante às múltiplas formas de esquerda.

Freixo eleito é o fôlego a mais dado aos náufragos de uma utopia teimosa e provocante; é a tribo guerreira que não declinou da luta por liberdade; a lança de Zumbi que se ergue; o punhal fino e cortante que restou nas mãos de Lampião; é o cansaço e a fadiga do torturador e a teimosia viva e ensanguentada do torturado é, por fim, a pedra jogada no centro do lago tranquilo e placido e que gera ondas e que avançam, avançam e avançam sobre a totalidade desse mesmo lago.

Aos meus amigos desta cidade luminosa, inspiradora e rebelde é preciso dizer-lhes que vocês são todos nós e carregam o bom Brasil em vossas peles, em vossos corações e vossos espíritos plenos e universais. Não duvidem, vocês são os representantes de uma nação que quer ser livre, independente e libertária. E nós não nos encontramos por acaso.

Vocês são o Brasil e nós, caipiras, caiçaras, sertanejos e campesinos, somos o Rio de Janeiro! E não há espaço, lugar ou acontecimento em que não se discuta a política, a boa política. Na família, no trabalho, no samba, com os amigos e com os amores... Nós somos apenas um e tudo é política porque tudo pede liberdade e futuro. Tudo pede FREIXO!

 

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