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Francisco Calmon

Combatente da ditadura desde a adolescência, prisioneiro nos cárceres da ditadura do Doi-Codi ao HCE. Advogado, administrador e analista de TI. Organizador da RBMVJ e do Canal Pororoca.  Autor e organizador de vários livros, entre eles “60 anos do golpe: gerações em luta”.

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Uma candidatura natimorta para o bem do Brasil

Para além das votações: redes, investigações e zonas cinzentas do poder

Flávio Bolsonaro (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)
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A trajetória política de Flávio Bolsonaro talvez diga mais sobre o Brasil contemporâneo do que sobre um único parlamentar. Porque, quando observada de forma cronológica, ela revela não apenas uma sequência de episódios controversos, mas um padrão persistente de relações entre poder político, circulação opaca de dinheiro, milícias, fisiologismo econômico e alinhamento subordinado a interesses externos.

Mais do que casos isolados, o que aparece é um método, uma maneira de exercer a política.

O início: homenagens perigosas e as conexões com as milícias

Ainda como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro concedeu a Medalha Tiradentes - maior honraria do estado - a Adriano da Nóbrega. Naquele momento, a homenagem poderia parecer apenas mais um gesto parlamentar protocolar. O tempo, porém, transformou completamente seu significado político.

Anos depois, Adriano seria apontado pelo Ministério Público como liderança do chamado “Escritório do Crime”, organização associada a execuções sob encomenda, extorsão e controle armado de territórios no Rio de Janeiro. A situação tornou-se ainda mais grave quando vieram à tona informações de que familiares de Adriano - sua mãe e sua ex-esposa - trabalhavam no gabinete de Flávio Bolsonaro.

Não se tratava apenas de uma homenagem equivocada. Tratava-se da proximidade entre um núcleo político influente e personagens ligados ao universo miliciano fluminense. E isso importa porque as milícias no Rio de Janeiro não surgem fora do Estado. Elas nascem justamente da fusão entre agentes públicos, violência armada e controle territorial.

Ao longo das últimas décadas, investigações e CPIs demonstraram repetidamente as conexões entre milícias e setores da política institucional. Nesse contexto, homenagens, vínculos e nomeações deixam de ser detalhes administrativos. Tornam-se sinais políticos.

O escândalo das rachadinhas: corrupção como método

Mas foi o caso das “rachadinhas” que colocou definitivamente Flávio Bolsonaro no centro de um dos maiores escândalos de corrupção da política recente.

O núcleo da investigação envolvia Fabrício Queiroz, ex-policial militar e assessor histórico da família Bolsonaro.

Relatórios do antigo Coaf apontaram movimentações financeiras consideradas atípicas envolvendo Queiroz e assessores ligados ao gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj.

As suspeitas iam muito além da simples devolução de salários.

O caso revelou uma engrenagem marcada por: circulação informal de dinheiro público; funcionários fantasmas; depósitos cruzados entre assessores; movimentações incompatíveis com os rendimentos declarados; e uso político da máquina pública para interesses privados.

Mais do que um escândalo administrativo, as rachadinhas expuseram um modelo patrimonialista de poder: a confusão permanente entre gabinete, família, dinheiro público e redes privadas de influência.

Mesmo após decisões judiciais que anularam etapas da investigação, o desgaste político nunca desapareceu. Porque a questão central jamais foi apenas jurídica.

O que ficou para a opinião pública foi a imagem de um grupo político constantemente cercado por suspeitas de corrupção, operadores financeiros paralelos e relações pouco transparentes com o dinheiro.

A chegada ao Senado e a continuidade do padrão

Ao chegar ao Senado em 2019, Flávio Bolsonaro não rompeu com essa trajetória. Apenas a transportou para uma escala nacional. Enquanto se consolidava como herdeiro político do bolsonarismo, manteve uma atuação marcada por contradições profundas entre discurso e prática.

O patriotismo exaltado em discursos convivia com posições econômicas que fragilizavam a indústria nacional e ampliavam a dependência externa. O nacionalismo retórico convivia com alinhamento quase automático aos interesses dos Estados Unidos e às pautas de Donald Trump.

Ao mesmo tempo, as relações políticas e financeiras ao redor de Flávio Bolsonaro continuavam cercadas por zonas cinzentas. E então surge o caso que talvez sintetize tudo isso de maneira ainda mais explícita.

A política transformada em negócio de família

Mas existe um elemento talvez ainda mais revelador no bolsonarismo: a transformação da política em uma estrutura familiar de poder.

A trajetória de Flávio Bolsonaro nunca aparece isolada. Ela funciona como parte de um núcleo político comandado por Jair Bolsonaro e sustentado pelos filhos transformados em personagens permanentes da política nacional: Flávio, o “01”; Carlos Bolsonaro, o “02”; e Eduardo Bolsonaro, o “03”, como cabeças da manda, os filhos se somam na política de acordo com os interesses da família.

Ao longo dos anos, o que se consolidou não foi apenas um grupo político, mas uma espécie de dinastia cercada por investigações, disputas internas, escândalos e crises sucessivas. Rachadinhas, ataques às instituições, conflitos diplomáticos, guerras digitais, suspeitas de corrupção e brigas públicas entre aliados e familiares passaram a fazer parte da rotina do próprio clã.

Nem mesmo Michelle Bolsonaro escapou de ser arrastada para o centro das controvérsias políticas e disputas internas do grupo. Até madrastas, ex-esposas, irmãos e parentes frequentemente aparecem envolvidos em conflitos, acusações ou episódios constrangedores que expõem um ambiente político permanentemente tensionado.

No fim, o bolsonarismo escancarou a farsa que é: tentou vender um projeto nacional e apolítico, mas acabou evidenciando os negócios familiares - onde poder, proteção, interesse pessoal e sobrevivência política se tornam uma simbiose dentro da política.

Patriotismo no discurso, dependência na prática

Existe também uma contradição difícil de ignorar na trajetória política de Flávio Bolsonaro: o abismo entre o discurso nacionalista e a prática econômica defendida por seu grupo político.

Ao longo dos últimos anos, o bolsonarismo construiu sua identidade pública em torno da ideia de patriotismo. Mas, na prática, muitas de suas posições caminham no sentido oposto da soberania nacional.

A famiglia é adoradora dos EUA ao ponto de prestar deferência, com um beijo, à bandeira daquele país, cuja história é de assassinatos, genocídios e apoios a golpes,

No debate sobre terras raras, mineração estratégica e exploração de recursos naturais, por exemplo, a lógica predominante não foi a construção de autonomia econômica brasileira, mas a abertura ampla ao mercado internacional. O mesmo ocorre em relação à indústria nacional.

Ao se posicionar contra mecanismos de proteção comercial e defender importações sem políticas robustas de compensação industrial, Flávio Bolsonaro reforça uma agenda econômica que aprofunda a desindustrialização brasileira. O impacto disso é concreto: perda de competitividade da indústria nacional, redução da capacidade tecnológica do país e aumento da dependência externa. Durante o governo do seu pai, o pais viveu a maior desindustrialização.

O contraste chama atenção porque desmonta a própria narrativa patriótica mobilizada pelo bolsonarismo. Defender a abertura irrestrita do mercado enquanto setores estratégicos nacionais perdem força, não fortalece a soberania. Amplia a dependência.

O alinhamento automático aos Estados Unidos e a Trump

Essa contradição aparece de maneira ainda mais explícita na relação do bolsonarismo com os Estados Unidos e, especialmente, com Donald Trump. Ao longo dos últimos anos, Flávio Bolsonaro e seu grupo político demonstraram alinhamento quase automático às pautas da extrema direita norte-americana.

Guerras culturais importadas, retóricas conspiratórias e ataques às instituições democráticas passaram a ocupar o centro do debate político brasileiro. Mais do que afinidade ideológica, trata-se de uma relação de subordinação simbólica e política.

Enquanto discursam em nome da pátria, reproduzem agendas estrangeiras, importam conflitos políticos norte-americanos e demonstram admiração permanente por lideranças externas. A contradição é evidente: falam em soberania nacional enquanto se comportam como linha auxiliar de projetos políticos forasteiros.

O caso Banco Master: dinheiro, poder e irmandade

Recentemente, uma reportagem publicada pelo Intercept Brasil revelou áudios, mensagens e documentos envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Segundo a investigação, Flávio negociou diretamente com Vorcaro um aporte de 24 milhões de dólares - cerca de R$134 milhões - para financiar um filme sobre seu pai, o preso da Papudinha.

As mensagens reveladas demonstram uma relação de extrema proximidade entre ambos os personagens.

“Irmão, estou e estarei contigo sempre”, escreveu Flávio a Vorcaro, em uma das conversas divulgadas.

O episódio torna-se ainda mais grave quando observamos o contexto envolvendo Daniel Vorcaro. O banqueiro passou a ser alvo de investigações relacionadas a fraudes financeiras bilionárias envolvendo o Banco Master, além de acusações de ocultação patrimonial e corrupção.

Reparem que também a família Vorcaro é quadrilheira tal qual a Bolsonaro.

Ou seja: mais uma vez, o nome de Flávio Bolsonaro aparece associado a relações financeiras obscuras, negociações milionárias e personagens envolvidos em escândalos de grande escala. E, novamente, a questão central não é apenas jurídica. É política.

O que significa para a democracia brasileira que um pré-candidato à Presidência da República mantenha relações tão próximas com operadores financeiros investigados, banqueiros envolvidos em falcatruas e negociações milionárias conduzidas longe do escrutínio público?

O que revela uma trajetória marcada por: homenagens a figuras ligadas às milícias; suspeitas de corrupção envolvendo dinheiro público; operadores políticos associados a esquemas financeiros; relações pouco transparentes com grandes banqueiros; e alinhamento constante entre poder econômico e poder político?

Ainda nem começou para valer a disputa presidencial, e a candidatura de Flávio já faz água e começa a ir a pique. O próprio bolsonarismo dá sinais de falência múltipla - uma espécie de enterro dos ossos de um projeto político desgastado por contradições, escândalos e crises sucessivas. Ocorre que, ao que parece, já não há ninguém capaz de segurar as alças do caixão.

Talvez a pergunta mais importante seja justamente a mais simples: É esse um dos grupos políticos que pretende governar o Brasil nos próximos anos?

Governar ou golpear o Estado democrático de direito, como tentaram no 8 de janeiro de 2023?

Golpista uma vez, é risco de ser outra vez!

Francisco Celso Calmon e Leticia Mendonça

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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