Uma geração de imprestáveis
Políticos atacam programas sociais enquanto ignoram a exploração do trabalho, a desigualdade e os privilégios de uma elite que joga contra o povo brasileiro
A expressão “todo dia é um 7x1” já saiu do contexto do futebol e se tornou corrente na língua portuguesa, sendo utilizada sempre que nos deparamos com uma situação difícil de aceitar e à qual não conseguimos nem ao menos reagir. E olhe que não estamos falando de goleadores como Messi, Mbappé ou Haaland, que defendem suas seleções faça chuva ou sol. Falamos, na verdade, dos “pernas de pau” da política brasileira, que estão sempre prontos a armar e chutar no próprio gol em defesa de seus interesses particulares, sem demonstrar o mínimo de respeito à torcida.
O objetivo da maioria desses políticos é sempre o mesmo: atacar o “superior player of the match” na tentativa de desconstruir o que tem sido feito no Brasil em prol das pessoas mais pobres, excluídas e necessitadas. No Brasil, para quem é minoria, todo dia é um 7x1. Todo santo dia tem um ricaço e/ou um político ricaço esbravejando aos quatro ventos que “as pessoas não querem mais trabalhar” e mimimimimimi, pois se conformam em receber a “esmola” do Bolsa Família. O que esses senhores e senhoras fazem, como sempre faz a extrema direita, é desconsiderar os dados estatísticos, nacionais e internacionais, que comprovam os avanços do Brasil e a diminuição da miséria, como resultado de programas como o Bolsa Família, por exemplo.
Mas esses representantes da casa-grande estão parcialmente certos quando dizem que “as pessoas não querem mais trabalhar”. É que elas “não querem mais trabalhar” em trabalhos análogos à escravidão, escravizadas sete dias por semana e, em muitos casos, domingos e feriados. E isso tudo para receber um salário de miséria e serem desrespeitadas todo dia, ouvindo coisas como: “Esse é o salário e essas são as condições. Se você não quiser, tem uma fila gigante lá fora que quer”. Graças aos programas de inclusão social do atual governo, ficou mais difícil escravizar, pois nosso povo está entrando na universidade, se profissionalizando, abrindo seu próprio negócio e dando uma banana com casca para os fascistas de plantão.
O comportamento tacanho da burguesia brasileira, que não tem nada a não ser dinheiro, se reflete em falas de políticos não menos tacanhos, inclusive em alguns dos atuais candidatos ao mais alto cargo da República, cuja falta de preparo, ignorância e estupidez encheriam, facilmente, o estádio do Mineirão. Por exemplo, ao falar para seus pares, imagine o nível desses pares!, em evento na Confederação Nacional da Indústria, em Brasília, um certo candidato ficou muito à vontade para exercitar sua misoginia e seu ódio ao povo pobre brasileiro.
Entre as muitas “pérolas” à plateia, o referido senhor disse que, se eleito, exigirá de homens beneficiários do Bolsa Família a conclusão dos estudos e a realização de cursos técnicos. Ainda segundo ele, a mesma cobrança não seria exigida das mulheres, uma vez que elas têm “outras atribuições em casa”. E, ao falar sobre violência doméstica, o senhor candidato disse que a violência contra a mulher poderia ser compreendida como um “instinto natural do ser humano”. Como tudo o que é ruim sempre pode piorar, ao defender a revisão dos programas sociais do governo, o candidato disse que o país estaria criando uma “geração de imprestáveis”.
Sobre a “geração de imprestáveis”, o candidato não deu uma palavra sobre os imprestáveis que se escondem atrás de suas poderosas credenciais, assaltam o erário, se mancomunam com o crime organizado, defendem e lucram com os jogos de azar, leia-se bets, planejam golpes de Estado ou tramam com banqueiros formas de sempre se darem bem. Para ele, a “geração de imprestáveis” é composta por trabalhadores e trabalhadoras pretas e pobres que acordam às 4h da manhã, trabalham feito escravizados, voltam para casa às 22h e recebem, em forma de programas sociais, uma minúscula e insignificante parcela do dinheiro que o Estado sempre lhes tomou sem dar nada em troca. A cereja do discurso do referido político foi, no entanto, a promessa de “privatizar tudo no Brasil”. E, mais uma vez, nada foi dito sobre a “maravilha” que foi a privatização das companhias de energia e água. Enfim, candidato, como diz o título de um livro da escritora Eliana Alves Cruz: “Nada digo de ti, que em ti não veja”. Parafraseando Sartre, os imprestáveis são sempre os outros. E segue o jogo, sem pausa para hidratação.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

