Uma ONU para chamar de sua
Uma proposta que enfraquece a ONU, concentra poder em Trump e transforma a paz em instrumento de dominação e negócios
O "novo órgão internacional de transição" para Gaza, proposto pelo presidente do Império, terá como presidente vitalício o presidente estadunidense Donald Trump. O que está por trás disso tudo?
A ideia foi apoiada, inicialmente, pela ONU, como parte do plano de paz capitaneado pelo principal algoz da Palestina, e vem provocando preocupação crescente à medida que novos detalhes surgem. Não sei se a ONU e os países-membros estão tão seguros do porvir.
Líderes mundiais já receberam cartas com convite para integrar o Conselho da Paz de Trump, dentre eles o presidente Lula.
O primeiro-ministro da Nova Zelândia, Christopher Luxon, também foi convidado e afirmou que dará ao convite a "devida consideração", e o Ministério das Relações Exteriores da Tailândia informou ainda que está analisando os detalhes da proposta. Lula ainda não se manifestou.
Entre os que já aceitaram publicamente o convite estão: o primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama; o presidente da Argentina, Javier Milei; o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán; o presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev; o presidente do Paraguai, Santiago Peña, mas sem pagar qualquer valor; e o presidente do Uzbequistão, Shavkat Mirziyoyev.
O secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, Tô Lâm, também teria aceitado o convite, enquanto o presidente de Belarus, Alexander Lukashenko, afirmou estar "pronto para participar". Curiosamente, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, aceitou integrar o conselho, mas disse que não pagará para se tornar membro.
Não há exigência para participar do Conselho da Paz de Trump; no entanto, os interessados em se tornar membros permanentes, em vez de serem membros por apenas três anos, teriam de pagar 1 bilhão de dólares, dinheiro que ajudaria a financiar a reconstrução de Gaza.
O conselho, criado, a meu juízo, para dar fim à ONU e a toda a ordem do pós-guerra, terá Trump presidindo vitaliciamente, mesmo que deixe a Presidência dos EUA, e poderá, como se especula, ser ampliado futuramente para tratar de outros conflitos.
Na carta-convite, Trump afirma que o conselho vai "embarcar em uma nova e ousada abordagem para resolver conflitos globais", ou seja, Trump se coloca como uma espécie de imperador do planeta e dá de ombros para a ONU, pois busca enfraquecer o Conselho de Segurança da ONU, atualmente responsável por mediação de paz, operações de manutenção da paz e sanções internacionais.
A ideia, conforme publicou a BBC, fonte da pesquisa para este artigo, causa desconforto a líderes como o presidente da França, Emmanuel Macron, pois há risco de substituir o atual sistema da ONU, ficando claro que Gaza pode ser o começo, mas não é o fim do conselho, na visão do governo Trump.
O governo Trump já vem reduzindo os recursos dos EUA destinados à ONU; além disso, os vetos dos EUA impediram o Conselho de Segurança de adotar medidas para pôr fim à guerra em Gaza e, mais recentemente, assinou um memorando retirando os EUA de 31 entidades da ONU que, segundo ele, "operam em desacordo com os interesses nacionais dos EUA".
Além do Conselho de Paz, foram anunciados dois conselhos executivos subordinados: (a) o Founding Executive Board (Conselho Executivo Fundador), com foco de alto nível em investimentos e diplomacia; e (b) o Gaza Executive Board (Conselho Executivo de Gaza), responsável por supervisionar todo o trabalho em campo do Comitê Nacional para a Administração de Gaza, um grupo de tecnocratas encarregado da governança temporária e da reconstrução do território.
A Casa Branca afirmou que os integrantes desses conselhos atuarão para garantir "governança eficaz e a prestação de serviços de excelência que promovam a paz, estabilidade e prosperidade para o povo de Gaza".
Segundo a Casa Branca, Trump presidirá o "Conselho Executivo Fundador" de sete membros, ligados direta ou indiretamente a Trump, que conduziria Gaza à sua próxima fase de reconstrução.
O grave: não há palestinos em nenhum dos dois conselhos executivos.
Há um israelense no Conselho Executivo de Gaza: o bilionário do setor imobiliário Yakir Gabay, nascido em Israel e atualmente radicado no Chipre. O conselho, porém, também inclui políticos de alto escalão de países como Catar e Turquia, críticos da condução da guerra de Israel na Faixa de Gaza.
Nem o mundo político de Israel está muito satisfeito, pois há quem afirme que o país foi excluído das discussões sobre a composição dos conselhos executivos, e o líder da oposição israelense, Yair Lapid, classificou o anúncio como um "fracasso diplomático para Israel".
O fato é que, além da morte de mais de 70 mil palestinos, cerca de 80% dos edifícios em Gaza foram destruídos ou danificados, gerando 60 milhões de toneladas de escombros, segundo estimativas da ONU. Famílias deslocadas também enfrentam baixas temperaturas do inverno, abrigo limitado e escassez de alimentos, sendo certo que Israel continua impondo restrições ao trabalho de ajuda e o cessar-fogo é uma ficção, pois o Hamas só aceitará se desarmar como parte de um acordo mais amplo que estabeleça um Estado palestino, e Israel, por seu lado, mantém tropas terrestres controlando a maior parte da Faixa de Gaza e disse que só se retirará se o Hamas se desarmar.
O conselho de paz de Trump, a meu juízo, é parte da visão imperial desabrida de Trump e de seu governo, e a paz válida só existirá se for lucrativa [para eles]. Apesar de todos os senões, eu penso que Lula deveria aceitar o convite, pagar o 1 bilhão de dólares e ser a voz da razão e o fiscal da sanidade no tal conselho, que, gostemos ou não, será criado e terá suas ações ampliadas sob a presidência de um bilionário, pedófilo e, segundo sua sobrinha, um “narcisista mentiroso e sociopata” (em seu livro de memórias lançado em 2020, intitulado Too Much and Never Enough: How My Family Created the World's Most Dangerous Man — em tradução livre: Demais e Nunca Suficiente: Como Minha Família Criou o Homem Mais Perigoso do Mundo).
Essas são as reflexões.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
