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Milton Alves

Jornalista e sociólogo

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Venezuela: dualidade, resistência e transição

O cenário atual exige manobras e acordos políticos de diversos níveis entre o chavismo e o governo Trump

Bandeiras dos EUA e da Venezuela em ilustração (Foto: REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração)

A ação inédita ocorrida na madrugada de sábado (3) na América do Sul perpetrada pelo governo estadunidense que resultou no sequestro de um chefe de estado, Nicolás Maduro – e de sua esposa – é um divisor de águas. É uma ação imperial que rompe com qualquer vestígio dos ditames e anteparos legais do direito internacional e das próprias leis vigentes nos Estados Unidos. É o imperativo da força bruta – padrão adotado pelo governo imperialista e criminal de Donald Trump.

A operação político e militar contra a Venezuela, já sob a vigência da renovada doutrina de segurança nacional dos EUA – também conhecida como Doutrina Monroe 2.0 – é um ataque ao conjunto dos países da América Latina. É um recado político de força que remete para a tradução de um conhecido ditado popular: “Manda quem pode e obedece quem tem juízo”.

Neste sentido, os governos da região precisam adotar medidas de fortalecimento de seus mecanismos de defesa e segurança. Além da necessidade de uma maior, efetiva e sólida articulação continental para enfrentar a voracidade do império. É uma questão de sobrevivência dos estados nacionais dessa parte do mundo. Soberania nacional, na atualidade, é uma equação de força militar, soberania tecnológica e integração regional.

A atual situação da Venezuela pode ser caracterizada como de dualidade. O chavismo permanece ainda na condução do estado, controla as alavancas de poder – Exército, Poder Judiciário, a imensa maioria do Poder Legislativo e o controle do território. Até o momento, e aparentemente, não houve fratura no núcleo duro do establishment bolivariano. Delcy Rodríguez, presidenta-encarregada, Jorge Rodríguez, presidente do parlamento e irmão de Delcy – quadros históricos da esquerda venezuelana -, Diosdado Cabello, ministro do Interior e liderança do partido governista (PSUV), um quadro de origem militar, e Vladimir Padrino, chefe do Exército, são o comando político do país e reúnem os elementos de legitimidade e continuidade do projeto chavista – e de sua base social.

Por sua vez, o governo imperialista dos EUA impõe uma situação de força, “manu militari”, disputando os rumos da Venezuela e a usurpação de suas riquezas minerais e naturais. É operação política diferente das diversas intervenções imperialistas – Iraque, Panamá, Síria – e dos golpes clássicos organizados e conduzidos pelas diversas administrações estadunidenses -quase sempre em alianças com as burguesias locais e com apoio de seus respectivos braços castrenses no interior do país – exemplos como: Chile, 1973; Argentina, 1976; e Brasil, 1964. A natureza do regime chavista impede uma solução de tipo tradicional. Na Venezuela, ocorreu uma transformação no caráter das instituições de estado, inclusive das Forças Armadas. Além disso, um vasto setor da economia foi nacionalizado, o que reduziu o poder de fogo da burguesia local – apesar da ausência de uma expropriação de conjunto dos ativos dos capitalistas venezuelanos.

Portanto, o cenário atual exige manobras e acordos políticos de diversos níveis entre o chavismo e o governo Trump. É uma situação de equilíbrio delicado. O governo de Delcy Rodríguez atua diante de uma brutal e intensa pressão do império. É possível apontar os futuros desdobramentos? O cenário é de incertezas e a correlação de forças é instável. Ou como define o conceito gramsciano, é uma situação de “equilíbrio catastrófico”.

Os próximos dias serão decisivos para o futuro do governo bolivariano. A concorrência de diversos fatores definirão o desenlace da contenda em curso: o grau de apoio popular ao governo chavista; a solidariedade internacional e a ação de países tidos como aliados estratégicos da Venezuela – Rússia e China; a ação da oposição interna. Corina Machado e Edmundo Gonzalez não contam com a simpatia de Trump, mas não estão fora do jogo; as contradições políticas no interior dos Estados Unidos; o ritmo e a intensidade do cerco do governo trumpista ao governo da Venezuela. E importante: as bases de um novo arranjo para a extração do petróleo venezuelano, objeto da cobiça e matriz geradora do conflito, que já dura cerca de um quarto de século – iniciada com as medidas implementadas por Hugo Chávez de nacionalização da indústria petroleira.

Hoje (5), o presidente Donald Trump renovou as ameaças ao governo venezuelano, fez declarações contra a Colômbia e voltou a mencionar a anexação da Groenlândia. Na ONU, a ação criminosa de Trump foi condenada pela maioria dos países.

Ampliar o movimento de solidariedade ao povo e ao governo da Venezuela, exigir a libertação imediata do presidente constitucional da Venezuela, Nicolás Maduro, acusado falsamente de narcoterrorismo, são as tarefas urgentes das forças de esquerda e populares.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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