Venezuelanos rechaçam invasão de Trump
Os norte-americanos, para os venezuelanos e venezuelanas, são invasores não desejados
Uma pesquisa realizada recentemente na Venezuela por telefone, logo após a invasão dos EUA, com 1.202 entrevistas e contratada por setores econômicos que operam naquele país, oferece um retrato revelador - e pouco conveniente para Washington - sobre a forma como a população venezuelana percebe a operação conduzida pelo governo Trump em 3 de janeiro. Distante da narrativa de “libertação” e “restauração democrática” difundida oficialmente, os dados apontam para uma leitura crítica, marcada por desconfiança e pela percepção de interesses externos pouco alinhados aos interesses nacionais.
Apenas 15% dos entrevistados afirmam apoiar a operação dos Estados Unidos, enquanto 55% se posicionam contra e 30% declaram não saber opinar. Em um país atravessado por crises prolongadas e disputas políticas intensas, o elevado percentual de indecisos não deve ser interpretado como indiferença, mas como um indicativo de prudência diante de um cenário complexo e instável.
Quando questionados sobre o destino do presidente Nicolás Maduro, as respostas se dividem: 38% avaliam que houve sequestro, 36% consideram que se tratou de uma prisão, e 26% não souberam responder. Essa fragmentação revela a ausência de clareza e consenso sobre a natureza do ocorrido. Caso houvesse um processo amplamente reconhecido e legitimado por normas transnacionais, a margem de dúvida tenderia a ser significativamente menor.
A percepção sobre quem exerce o poder atualmente no país também contrasta com a versão sustentada pelos Estados Unidos. Para 62% dos entrevistados, quem governa é a vice-presidente Delcy Rodríguez; 30% apontam as Forças Armadas Venezuelanas. Apenas 2% acreditam que os Estados Unidos estejam no comando, sinalizando rejeição à ideia de tutela externa direta. Ao mesmo tempo, quando perguntados sobre quem deveria governar, 55% mencionam Edmundo González e María Corina Machado, enquanto 35% defendem a vice-presidente. O dado revela um desejo expressivo de mudança política, mas não necessariamente por meio de uma intervenção militar estrangeira.
Talvez o resultado mais contundente da pesquisa esteja na avaliação das motivações norte-americanas. Para 92% dos entrevistados, o principal interesse dos Estados Unidos na Venezuela é o petróleo - um nível de concordância raro em levantamentos de opinião. Em linha com essa percepção, 60% discordam da afirmação de que a intervenção trará democracia ao país.
O ceticismo também se estende às promessas de reconstrução. Para 59% dos entrevistados, os Estados Unidos não contribuirão efetivamente para a recuperação da infraestrutura venezuelana. Quando a pergunta se volta à confiança internacional para conduzir uma eventual transição política, os EUA aparecem com apenas 5%, ficando atrás de China (30%), Brasil (25%), Colômbia (20%) e México (10%).
Por fim, 81% dos entrevistados não acreditam que novas eleições serão convocadas em breve, apesar das previsões constitucionais. O sentimento predominante é de descrédito quanto à possibilidade de uma solução rápida e institucional.
Considerando que pesquisas telefônicas tendem, por sua própria metodologia, a suavizar opiniões mais críticas em contextos de tensão, os resultados ganham ainda mais relevância. O levantamento evidencia um distanciamento significativo entre a retórica oficial de Washington e a forma como os acontecimentos são interpretados pela sociedade venezuelana.
Os norte-americanos, para os venezuelanos e venezuelanas, são invasores não desejados.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




