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Sara York

Sara Wagner York é jornalista, psicanalista, PhD em Educação, pós-doutora em Semiótica, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. Especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, é autora do primeiro trabalho sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido no mestrado em 2020. Tem um filho, é avó e foi a primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro, pela Brasil 247, tornando-se referência nacional nas discussões sobre mídia, educação e direitos humanos. É imortal da Academia de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro.

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Vidas trans e a meia-noite que se aproxima

Debate no Rio reúne Raewyn Connell e Rita von Hunty para discutir vidas trans, justiça social e os limites de uma sociedade em crise

Encontro "Vidas trans e justiça social", no Centro Cultural do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro (CCPJ) (Foto: @sarayork/Brasil 247)
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Em 27 de janeiro de 2026, o Relógio do Apocalipse foi ajustado para 85 segundos antes da meia-noite — o mais próximo que esteve desde que cientistas do Projeto Manhattan o criaram, em 1947, como metáfora do risco de destruição civilizatória. Originalmente restrito à ameaça nuclear, o relógio passou a incluir a mudança climática em 2007 e hoje considera também biotecnologia, inteligência artificial e desinformação. A meia-noite representa o colapso da civilização humana. Os minutos e segundos que faltam para ela indicam o grau de risco global avaliado anualmente por um conselho científico independente.

Na noite desta segunda-feira, 16 de junho de 2026, o Centro Cultural do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro (CCPJ) e o Observatório de Pesquisas Felippe de Miranda Rosa (OPFMR) ofereceram outra leitura possível desse mesmo ponteiro. No encontro "Vidas trans e justiça social", parte do programa Observatório em Diálogo, a socióloga australiana Raewyn Connell e a pesquisadora e comunicadora Rita von Hunty colocaram em perspectiva o que significa viver trans em um mundo que se aproxima, em mais de um sentido, da meia-noite.

Duas justiças, uma urgência

Raewyn Connell percorreu seis continentes documentando formas de vida e encontrou, nas diferenças, uma constante: marginalidade, precarização e vulnerabilização atravessam as existências trans independentemente da latitude. Ela distinguiu dois regimes de justiça social — a distributiva, que redistribui recursos, e a reparadora, que revisita o passado para que ele pare de se manifestar no presente. O problema, para Connell, está no neoliberalismo: ele reconhece o sujeito econômico de direito, não o sujeito de direito tout court. A pobreza entra na equação; o privilégio, raramente.

O itinerário legal da questão trans dá a dimensão do atraso e do avanço simultâneos. A Suíça possibilitou a mudança de sexo em 1972. A Argentina aprovou a Lei de Identidade de Gênero em 2012. A Índia reconheceu o terceiro gênero em 2019. Ao mesmo tempo, os últimos anos registraram aumento na hostilidade: campanhas antitrans coordenadas por igrejas, milícias e correntes do feminismo trans-excludente formam uma frente que tem no conservadorismo norte-americano, russo e de parte da Europa seus aliados mais ruidosos.

A janela e a guilhotina

Rita von Hunty trouxe ao debate o conceito da janela de Overton — pautas que parecem absurdas até que, naturalizadas e familiarizadas ao longo do tempo, tornam-se senso comum. É esse mecanismo que produz a invisibilidade de sujeitos e impede a formação de alianças. Ela situou a questão numa longue durée: o rei Henrique VIII e as leis que criminalizaram a homossexualidade deixaram uma herança direta sobre os países colonizados — África, América Latina, Ásia. Estudar gênero, argumentou von Hunty, é deslocar o patriarcado; estudar o trabalhador é deslocar a burguesia. Daí a necessidade das autocracias contemporâneas de retirar o gênero do campo do debate público.

O Brasil, descrito como experimento econômico — primeiro português, agora americano —, carrega essa contradição na carne. As datas que von Hunty citou compõem uma cronologia do direito que chega sempre atrasado: 1832 e 1879 para o ensino superior feminino; 1910 e 1932 para o voto das mulheres; 1913 para o reconhecimento do trabalho doméstico; 1940 para a carteira de trabalho; 1976 para o salário mínimo efetivo. Para o povo preto, a sequência é ainda mais brutal: Lei Eusébio de Queiroz, Lei do Ventre Livre, Lei dos Sexagenários, abolição — um rosário de concessões tardias que nunca chegou a ser reparação. Nas condições políticas e econômicas que retornam a patamares pré-Revolução Francesa, o que nos resta, concluiu von Hunty a partir de Raewyn Connell, é a guilhotina — não como violência, mas como imagem do ponto a que se chega quando a injustiça não encontra resposta à altura.

O que a escola não pergunta

O encontro no CCPJ dialogou, sem que precisasse nomear, com uma questão que está na base de toda discussão sobre identidade e direito: a obsessão social pela classificação. A pergunta que atravessa a infância, os formulários, os consultórios e as redes sociais — o que você é? — carrega uma expectativa silenciosa. Espera-se que a resposta seja rápida, estável e inteligível. A experiência não binária, como a experiência trans em sentido mais amplo, não revela apenas algo sobre quem a vive. Ela revela algo sobre nós — o quanto dependemos de categorias para produzir segurança, o quanto confundimos reconhecimento com enquadramento.

A escola é o exemplo mais cotidiano disso. Antes mesmo que uma criança entre na sala de aula, formulários, listas, banheiros e linguagem já pressupõem determinados modos de existir. Quando alguém rompe essa expectativa, a instituição costuma interpretar a diferença como problema individual. Raramente pergunta se o problema está na expectativa.

O Relógio do Apocalipse está a 85 segundos da meia-noite. O que "Vidas trans e justiça social" deixou como saldo desta noite no Rio de Janeiro é que o ponteiro não é apenas nuclear, climático ou tecnológico. Ele também mede o quanto uma sociedade consegue sustentar, sem destruir, aquilo que não cabe em suas classificações herdadas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.