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Leopoldo Vieira

Jornalista profissional, pós-graduado em Administração Pública e Ciência Política. CEO da Idealpolitik. Trabalhou como analista sênior de política na Faria Lima (TradersClub) e nos ministérios do Planejamento, Secretaria de Governo e Relações Institucionais nos governos Dilma Rousseff e Lula.

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"Vietirã" pode deslocar eixo da eleição para capacidade de conduzir crises

Comparação gerencial entre Lula e o senador Bolsonaro é adversa à oposição

Flávio Bolsonaro - 19 de dezembro de 2025 (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

O encerramento da guerra dos Estados Unidos no “Vietirã”, seja no curto ou no médio prazo, favorece que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva paute quem a sociedade prefere no comando do país em um cenário de crise. Os efeitos econômicos da atual, segundo o mercado financeiro, devem se estender por longos meses, enquanto restam apenas seis para as eleições brasileiras.

Diante das vacilações de Washington, Wall Street se prepara para uma crise energética prolongada, com impactos sobre crescimento, inflação e juros globais, o que pressiona o ritmo e a intensidade do ciclo baixista da Selic. O patamar elevado da taxa favorece fluxos de carry trade, segurando a inflação via câmbio, ao passo que a guerra reforça a rotação global de capitais para o Brasil. Ainda assim, pesa sobre o desenvolvimento.

Em entrevista ao Brasil 247, o PIBer Rubens Menin avaliou que juros em 14,75% tornaram-se insustentáveis para as contas públicas, o setor produtivo e as famílias. Estas estão endividadas e exaustas do mundo do trabalho e do deslocamento para trabalhar, mesmo com a melhora das condições de vida, na visão de especialistas. As respostas para isso estão sendo embaladas em um novo programa de renegociação de dívidas e no projeto do fim da escala 6x1.

Nesse contexto, Lula também pode se beneficiar tanto de um cessar-fogo definitivo célere quanto, paradoxalmente, de um próximo das eleições. No primeiro caso, por ganhar tempo para que os efeitos do confronto sejam mitigados sobre as empresas e a cidadania até o pleito. No segundo, pelo potencial de desencadear expectativas de melhora econômica na antessala do voto popular.

Enquanto isso, com o bloqueio da comissão parlamentar de inquérito (CPI) do Banco Master, o fim da CPMI do INSS e a proximidade do encerramento da CPI do Crime Organizado, trazendo maior estabilidade institucional, cresce o foco do Executivo sobre aumentos abusivos de combustíveis pelo setor privado. Além disso, apenas 2 das 27 unidades da federação não demonstraram interesse em aderir ao diesel subsidiado do Palácio do Planalto. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, acredita que, embora inicialmente resistentes, as distribuidoras devem aderir ao esforço. Em paralelo, com o barril de petróleo acima de US$ 100, os royalties encorpam imediatamente o caixa do governo, de acordo com economistas da Faria Lima.

PULSÃO DE MORTE COMO RISCO POLÍTICO

“Vergonha é roubar e não conseguir carregar”, diz um ditado popular. Se o presidente americano, Donald Trump, não conseguir reabrir o Estreito de Ormuz a partir desta terça-feira, quando expira o ultimato de genocídio dado ao Irã, além de aumentar a imprevisibilidade econômica, ele arriscará perder mais do que a maioria parlamentar e o próprio cargo que ocupa: colocará em xeque sua imagem de “vencedor”, o que, mais uma vez, “puxaria para baixo” a direita local pela associação com o mandatário dos EUA. Caso Trump cumpra a promessa de que “uma civilização inteira morrerá está noite”, a qual chamou de “animais” e admitiu ter prazer em matar, isso tende a contaminar mundialmente a imagem de seus partidários, como ocorreu com sua gestão da pandemia de Covid-19.

A comparação gerencial entre Lula e o senador Bolsonaro é particularmente adversa à candidatura oposicionista, tanto pela inexperiência administrativa do parlamentar quanto pela memória recente da pandemia no Brasil. Nesse sentido, merece atenção a declaração do vice-presidente Geraldo Alckmin, que previu um ajuste fiscal em 2027, no primeiro ano de um quarto mandato de Lula.

Apesar da euforia despertada em setores empresariais e financeiros pelo emparelhamento de Flávio com Lula nas intenções de voto, um levantamento do Poder360, com base nas pesquisas realizadas desde o início do ano, ajuda a colocar no chão a “bola” da sucessão presidencial. A distância média entre o incumbente e o senador Bolsonaro, em um provável segundo turno, recuou de 5,2 para 1,3 ponto percentual, com o petista na dianteira.

Com o fim do prazo de desincompatibilização e o fechamento da janela partidária, esse é o ponto de partida para a maratona eleitoral, nos quais a busca por segurança, em sentido mais amplo que o modelo “a rota na rua”, pode se agregar como outra variável adversa ao clã Bolsonaro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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