Vinhas da ira e da consciência de classe
Na quadra da ideológica a minha solidariedade e minha voz estão a serviço das pessoas simples, daquelas que atravessam a vida sustentadas pela esperança
No último domingo, encontrei meu grande amigo Ivan Santos no Clube Monte Líbano. Era o almoço do Dia das Mães, ocasião que também serviu para homenagear outro amigo, recentemente falecido: Abrão José Andery. O salão social do clube passou a receber seu nome. Justa homenagem.
Ivan é pessoa da melhor qualidade. Somos amigos há quase três décadas e, como escreveu Vinicius de Moraes, já viajamos juntos algumas canções e ainda temos muitas a viajar.
Ivan, marido de Silvia, pai e avô de uma linda e querida família — que amamos como extensão necessária da nossa — fez uma crítica delicada a artigo meu publicado aqui no CORREIO, jornal de Campinas. Escreveu ele: “— Hoje já acabei de ler o artigo. Não gostei da parte política; o tema é eleitoreiro. Gostei das memórias da cidade, assunto que mereceu minha maior atenção. Suas crônicas são polêmicas...”
Meu amigo é uma pessoa extremamente generosa e cuidadosa, tanto com os amigos quanto com as palavras. O tema de que ele não gostou foi o fim da escala 6x1, assunto que abordei no artigo “Coisa de esquerdalha, será?”, publicado em 23 de maio último.
Meus artigos não se pretendem messiânicos. O objetivo deles é, justamente, provocar algum tipo de inquietação.
Imagino que o propósito dos artistas, ao apresentarem suas obras de arte — o que meus artigos certamente não são —, seja conectar, provocar e expressar. A obra de arte, assim como minhas crônicas, não é um objeto utilitário; sua função principal é estimular a sensibilidade, registrar o tempo e expandir nossa visão de mundo.
Com meus artigos, procuro despertar algum tipo de inquietação: a saudade de uma Campinas que já não existe e, em determinados temas, o desconforto. E o desconforto é necessário.
Sobre o fim da escala 6x1.
Sou neto de um professor, de uma professora, de um funcionário público e de uma dona de casa. Sou filho de um pequeno comerciante e de uma dona de casa. Sendo assim, minha visão de mundo, a forma como enxergo a realidade, as dores que sinto e com as quais me solidarizo não são as dores dos rentistas, dos grandes comerciantes, dos fazendeiros ou dos industriais.
Minha solidariedade, atenção e zelo estão voltados para aquelas pessoas que saltam da cama antes das cinco da manhã, espremem-se durante horas no transporte coletivo e trabalham em empregos de que não gostam, tudo em nome da sobrevivência. Pessoas que, muitas vezes, à noite seguem para a escola ou para a faculdade; que levam marmita para economizar o vale-refeição e que dispõem de apenas um dia de descanso por semana.
O mundo é cruel com a grande maioria das pessoas. A realidade sistêmica impõe-se de forma implacável e, creiam, muitas vezes o esforço não encontra a oportunidade, sem a qual não há progresso individual, por maior que seja a dedicação.
Outro dia, conversando com Carlos Batista, o maior narrador de futebol da atualidade, falamos sobre o livro As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Todos aqueles que não sabem exatamente o que significa consciência de classe deveriam ler esse livro, publicado em 1939, ou assistir ao filme, lançado em 1940.
Sobre a obra.
O livro narra a saga da família Joad, forçada a deixar Oklahoma em razão da seca e da Grande Depressão, migrando para a Califórnia. Contudo, ao contrário das oportunidades prometidas, encontra apenas exploração. A obra denuncia a desigualdade e destaca a transição do “eu” para o “nós” na luta coletiva.
A trajetória dos Joad pode ser compreendida em alguns momentos cruciais: (a) A partida: em razão do Dust Bowl (as tempestades de areia) e da mecanização agrícola, inúmeras famílias perdem suas terras e partem pela famosa Rota 66. Uma verdadeira tragédia; (b) O sonho confrontado pela realidade: a Califórnia, propagandeada como um paraíso, revela-se um cenário de violência e exploração, onde grandes fazendeiros mantêm trabalhadores migrantes submetidos a salários miseráveis; (c) A consciência de classe: com o apoio do ex-pastor Jim Casy, Tom Joad, protagonista da história, compreende a força da união. A solidariedade entre os trabalhadores torna-se o eixo central da narrativa e (d) a ira e o desfecho: a ira não é apenas raiva, mas indignação diante de um sistema capaz de deixar alimentos apodrecerem enquanto multidões passam fome.
O livro encerra-se com uma das mais impactantes demonstrações de empatia e sobrevivência da literatura contemporânea.
A obra rendeu a John Steinbeck o Prêmio Pulitzer e influenciou gerações e trouxe perseguições nos Estados Unidos e ele, que foi alvo do macarthismo e da vigilância do FBI por dar voz aos trabalhadores e às classes mais pobres.
Steinbeck não era comunista, ao contrário, possuía posições políticas liberais tradicionais e, em alguns aspectos, conservadoras. Ainda assim, todos aqueles que lançam luz sobre temas que interessam aos que acordam às cinco da manhã acabam rotulados como “esquerdalhas”, comunistas, petistas etc. Não é mesmo?
Na quadra da ideológica a minha solidariedade e minha voz estão a serviço das pessoas simples, daquelas que atravessam a vida sustentadas pela esperança.
Essas são as minhas reflexões.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

