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Renata Medeiros

Mestre em Ciência Política. Advogada

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Violência contra a mulher: resposta à perda de poder masculino

Entre precarização econômica, ressentimento e conservadorismo, a violência deixa de ser exceção e passa a operar como tentativa de restauração de lugar

Violência contra a mulher (Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

A cada nova notícia de violência contra mulheres, a reação parece seguir um roteiro curioso: a brutalidade aumenta, mas o espanto diminui. Como se, aos poucos, o absurdo fosse sendo absorvido como parte da paisagem.

Não é.

E tratar como se fosse é justamente o que impede de entender o que está acontecendo.

A explicação fácil — “crime passional”, “não aceitou o fim”, “perdeu a cabeça” — já não dá conta. Não porque esteja totalmente errada, mas porque é insuficiente. Ela descreve o ato, não o ambiente que o torna possível.

O que está em jogo hoje não é apenas uma crise das relações afetivas. É uma crise de lugar — e também de poder.

Durante muito tempo, a identidade masculina se apoiou em um arranjo relativamente estável: prover, decidir, ocupar o centro. Esse modelo nunca foi neutro, mas era reconhecido. E reconhecimento organiza mais do que renda — organiza a forma como alguém se percebe no mundo.

Esse arranjo vem sendo corroído. A precarização do trabalho, a instabilidade econômica e a perda de capacidade de prover não são detalhes: mexem diretamente no eixo que sustentava esse lugar. Não é só renda que se perde. É autoridade, é referência, é posição.

Ao mesmo tempo, mulheres avançaram em autonomia, renda, escolaridade, decisão. O efeito combinado dessas duas forças não é equilíbrio automático. É tensão.

E tensão precisa ser elaborada.

Nem sempre é.

Parte dos homens mais jovens não responde a isso reinventando o próprio papel, mas deslocando a disputa para outro campo: o afetivo e o sexual. Onde antes havia uma posição mais ou menos garantida, agora há incerteza. E a incerteza, para quem estava acostumado à centralidade, pesa mais.

A relação deixa de ser encontro e vira validação.

Nesse contexto, a recusa feminina muda de estatuto. Não é apenas um “não”. É vivida como perda concreta de lugar. Como prova de fracasso. Como diminuição.

É aí que o ressentimento se organiza.

Não como um impulso isolado, mas como lógica. Ele simplifica o mundo: se não tenho, alguém me tirou; se não sou escolhido, alguém está negando o que deveria ser meu. E, sobretudo, transforma frustração em injustiça.

Esse é o ponto de contato com a política.

O conservadorismo contemporâneo não surge apenas como defesa de valores abstratos, mas como resposta a esse deslocamento. Ele oferece uma narrativa confortável: houve uma perda, uma inversão, um excesso. E isso precisa ser corrigido.

Não se fala em transformação. Fala-se em retorno.

E retorno, quase sempre, implica recolocar alguém no lugar.

Nesse cenário, a mulher aparece simultaneamente como ameaça e como solução — desde que aceite caber novamente em um papel mais previsível, mais controlável, mais funcional à antiga hierarquia.

Por isso, a reembalagem da feminilidade não é detalhe. A “esposa ideal”, a “energia feminina”, a dependência travestida de escolha — tudo isso opera como tentativa de reorganizar poder sem dizer que está reorganizando poder.

Enquanto isso, os vínculos seguem se fragilizando. Relações mais curtas, mais instáveis, mais atravessadas por comparação e desempenho. Menos reconhecimento, mais disputa.

E onde não há reconhecimento, sobra frustração.

Quando ela não encontra linguagem, encontra saída.

O feminicídio não começa no ato. Começa antes — na perda de lugar, na incapacidade de lidar com essa perda e na tentativa de revertê-la pela força.

Chamar isso de desamor suaviza demais.

Não é falta de amor.

É a tentativa de restaurar poder onde ele já não se sustenta.

E, quando essa tentativa falha, a violência entra como último recurso.



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* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.