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Renata Medeiros

Mestre em Ciência Política. Advogada

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Xi, Trump e a disputa pela ordem mundial

É a China que passou a ocupar discursivamente o espaço do multilateralismo

O presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente dos EUA, Donald Trump, têm uma reunião privada em Zhongnanhai, em Pequim, capital da China, em 15 de maio de 2026 (Foto: Xinhua/Yan Yan)
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O encontro entre Xi Jinping e Donald Trump expôs menos uma aproximação entre as duas potências e mais a tentativa de administrar uma rivalidade que se tornou estrutural.

Xi manteve o discurso de defesa da estabilidade internacional e voltou a criticar movimentos que possam ampliar tensões militares na Ásia. O principal recado foi dirigido à questão de Taiwan. A China reiterou oposição ao apoio militar americano à ilha e deixou claro que considera o fornecimento de armas uma interferência direta em um tema que Pequim trata como assunto interno.

Ao mesmo tempo, Xi insistiu na narrativa de “reintegração pacífica”, afirmando que deseja que Taiwan opte voluntariamente pela reunificação. Se isso representa uma estratégia real de longo prazo ou apenas retórica diplomática acompanhada de pressão militar crescente, ninguém sabe ao certo. O fato é que Pequim mantém exercícios militares constantes na região e amplia sua capacidade naval enquanto fala em coexistência pacífica.

A contradição é justamente uma das marcas da diplomacia chinesa atual: combinar discurso conciliador com demonstrações graduais de força.

Xi também voltou a defender cessar-fogo e negociação em conflitos internacionais, incluindo as guerras envolvendo Israel, Irã, Rússia e Ucrânia. A posição chinesa procura reforçar a imagem de Pequim como potência estabilizadora, interessada em conter escaladas militares que afetem comércio, energia e crescimento global.

Hoje, goste-se ou não de seu regime político, é a China que passou a ocupar discursivamente o espaço do multilateralismo. Pequim apresenta-se como defensora de fóruns internacionais, negociação diplomática, integração econômica e coexistência entre potências. Faz isso menos por idealismo do que por cálculo estratégico: a economia chinesa depende de estabilidade global.

Enquanto isso, Trump mantém um discurso mais agressivo, centrado em tarifas, proteção da indústria americana e enfrentamento comercial da China. A lógica é clara: reduzir vulnerabilidades econômicas e tecnológicas diante da China, conter avanço tecnológico chinês e preservar a liderança dos EUA, mesmo que isso implique desgaste diplomático, pressão sobre aliados e enfraquecimento das próprias instituições multilaterais construídas pelos americanos no pós-guerra.

O ponto central é que os dois lados falam linguagens diferentes sobre a ordem internacional, mas Trump saiu do encontro parecendo um cachorro sem dono.

Trump frequentemente trata as relações internacionais como disputa direta de poder econômico e pressão política. Seu discurso opera pela lógica da coerção: sanções, tarifas, ameaças comerciais e demonstrações permanentes de força como instrumentos de reorganização da ordem internacional sob liderança americana.

Xi procura ocupar o espaço da diplomacia pragmática, apresentando a China como defensora do diálogo, do comércio e da estabilidade.

Há uma ironia evidente nisso. A maior democracia liberal do planeta passou a recorrer cada vez mais à linguagem da coerção econômica e da pressão unilateral, além de naturalizar práticas de intimidação diplomática típicas de uma lógica imperial clássica, enquanto a potência de partido único tenta se apresentar como mediadora racional da estabilidade global.

Não porque a China tenha abandonado ambições de poder, mas porque compreendeu que sua ascensão depende justamente de um sistema internacional relativamente estável.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.