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Autor de “A República das Milícias” diz ter esperança na solução do caso Marielle

Conhecedor a fundo do caso, o jornalista Bruno Paes Manso acredita que, um dia, tudo será elucidado. Ele é autor de “A República das Milícias – Dos Esquadrões da Morte à Era Bolsonaro”, um livro corajoso e instigante

Jornalista Bruno Manso, autor de "A República das milícias" (Foto: Divulgação / Reprodução)

Por Paulo Henrique Arantes, para o 247 - Os ex-policiais militares Ronnie Lessa e Élcio Vieira de Queiroz vão a Júri Popular pelo assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. O crime de 2018, contudo, não terá sido solucionado. Não se sabe quem os contratou para a monstruosa tarefa. Conhecedor a fundo do caso, o jornalista Bruno Paes Manso acredita que, um dia, tudo será elucidado. O autor de “A República das Milícias – Dos Esquadrões da Morte à Era Bolsonaro” diz: “Esperança, a gente tem”.

“O Ministério Público se esforçou”, reconhece, e elogia a atuação da promotora Simone Sibílio, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado): “Ela permitiu que caixas pretas fossem abertas e várias coisas vieram à tona a partir das investigações, desde o envolvimento do Escritório do Crime (organização criminosa do Rio de Janeiro) até o Adriano da Nóbrega e seu envolvimento com a milícia. É desafiador, mesmo porque os criminosos sabem trabalhar com contra-informação”.

O policial e miliciano Adriano da Nóbrega morreu pelas mãos da polícia baiana em fevereiro de 2020, quando estava foragido. O ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais) fora homenageado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em 2005, quando estava preso acusado de homicídio, por iniciativa do deputado estadual Flávio Bolsonaro, cujo gabinete empregou a mãe e a ex-mulher do miliciano. O então deputado federal Jair Bolsonaro, no mesmo ano, também o homenageou na tribuna da Câmara.

O livro de Paes Manso é corajoso e instigante. Eis um trecho do capítulo dedicado ao caso Marielle: “No decorrer da apuração, montei minha lista de suspeitos. O principal caminho, conforme a investigação se afunilava, era partir das conexões de Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz para tentar chegar aos mandantes ou parceiros. Lessa era um nome importante no crime, e a decisão de matar Marielle poderia ter partido de um contratante ou da rede da qual ela fazia parte. As conexões do sargento (Lessa), contudo, eram diversas. Mesmo sendo um matador avulso, mantinha contatos com o Escritório do Crime e com milicianos da Muzema, ligados ao capitão Adriano”.

Armas, policiais e milicianos compõem o mundo, ou submundo, em que os Bolsonaros são mais influentes e do qual são porta-vozes. Sem disfarce. Os novos decretos do presidente da República flexibilizando o acesso da população em geral a armas serão analisados pelo Supremo Tribunal Federal ainda neste mês, e a tendência é por sua inconstitucionalidade.  Mas o que pretende o presidente ao bater insistentemente na tecla do armamento?  “Milicianizar” os cidadãos? Criar um povo justiceiro?

“O crime obtém armas por outros meios, como o contrabando etc. Mas os decretos jogam gasolina na fogueira. O grande desafio nosso é controlar e fiscalizar a posse de armas e tirar a maior quantidade delas de circulação. A quantidade de fuzis no Rio de Janeiro, por exemplo, é um escândalo. Tem muita gente ganhando dinheiro com isso. Há vários territórios controlados por tiranias armadas”, observa Paes Manso.

Os métodos das milícias, e também do tráfico, são conhecidos. E estão detalhados no livro de Bruno Paes Manso. O crime organizado costuma prestar uma espécie de “assistência”, pela qual cobram alto, aos habitantes dos territórios dominados. Contudo, nem esse amparo com fins torpes foi visto na pandemia. “O que aconteceu foi que a sociedade civil se mobilizou. As ONGs que atuam em diversas localidades se movimentaram para conseguir cestas básicas, kits de higiene. O tráfico e as milícias estão muito preocupados com seus próprios negócios e seus lucros. Nestas horas a gente vê que eles, apesar de se venderam como autoridades substitutas do governo, não cumprem esse papel. Eles cumprem uma lei tirânica, pela ameaça de morte. As pessoas têm que se submeter a essa tirania porque eles querem ganhar mais dinheiro com os negócios ilícitos. Na hora que surge um problema coletivo como esse (pandemia), eles não exercem nenhum tipo de papel. Na verdade eles atrapalham as ações da sociedade civil, com tiroteios e extorsões”, denuncia Paes Manso.