Católico "fervoroso", vereador do PL desviou emendas destinadas à Corrida do Senhor Bom Jesus
Vereador Francisco Carlos Silveira, conhecido como Chico 2000, foi afastado do mandato após se tornar alvo da Operação Gorjeta
247 - O vereador Francisco Carlos Silveira, conhecido como Chico 2000, foi afastado do mandato após se tornar alvo da Operação Gorjeta, deflagrada pela Polícia Civil para investigar o desvio de cerca de R$ 3,5 milhões em recursos públicos em Cuiabá (MT). Parte do dinheiro sob suspeita estava destinada à 36ª edição da Corrida do Senhor Bom Jesus, evento tradicional realizado em abril de 2025.
As informações foram reveladas pela coluna do Metrópoles e constam de decisão judicial que detalha o suposto uso de emendas parlamentares e convênios para financiar irregularidades. Segundo os autos, a investigação alcança também outros eventos esportivos organizados nos últimos anos com verbas municipais.
De acordo com o site da Câmara Municipal, Chico 2000 é filiado ao Partido Liberal (PL), mas o diretório estadual da legenda afirma que ele deixou os quadros do partido no ano passado, após surgirem suspeitas de ilegalidades. A Justiça autorizou medidas cautelares, entre elas o afastamento do cargo e o bloqueio de bens, enquanto a apuração prossegue.
Um dos principais focos do inquérito é uma emenda parlamentar de R$ 600 mil apresentada pelo vereador para custear a Corrida do Senhor Bom Jesus. Oficialmente, o recurso foi repassado ao Instituto Brasil Central (Ibrace), entidade responsável pela execução do projeto. Para os investigadores, porém, o instituto teria atuado apenas como intermediário no repasse do dinheiro.
O Ibrace, presidido por Alex Jony Silva, é uma associação privada sem fins lucrativos fundada em 2021 e sediada em Cuiabá. A entidade afirma atuar na “promoção da cidadania, da inclusão social e do fortalecimento comunitário, com foco em ações sociais, esportivas, culturais e educacionais”. A Polícia Civil apurou que, pouco depois de receber os valores, cerca de R$ 580 mil foram transferidos à empresa Sem Limite Esporte e Eventos, controlada por João Nery Chiroli.
Perícias em mensagens de WhatsApp indicam proximidade entre o empresário e o vereador. Os diálogos mostram que, meses antes da formalização dos contratos, eles discutiam a organização das corridas. O inquérito sustenta que a Chiroli Esportes era a verdadeira responsável pela execução das provas, enquanto o proprietário atuava informalmente como representante do Ibrace.
Relatórios financeiros também chamaram a atenção dos investigadores. Há registros de saques fracionados em dinheiro e de transferências para dirigentes do instituto, incluindo uma de R$ 20 mil via Pix que, segundo a apuração, estaria ligada a despesas pessoais do vereador. Outro indício considerado relevante é a rapidez dos repasses, feitos no dia seguinte ao recebimento dos recursos pela empresa contratada.
A decisão judicial aponta ainda problemas formais na execução do convênio, como o início das inscrições para a corrida antes do fechamento dos contratos, o uso de atestados de capacidade técnica considerados irregulares e a existência de um documento assinado pelo próprio vereador, prática vedada pelas normas administrativas.
Chico 2000 se apresenta publicamente como “católico apostólico romano”. A Corrida do Senhor Bom Jesus é um evento religioso tradicional da capital mato-grossense e integra o calendário oficial da cidade, reunindo milhares de participantes todos os anos.
Em 2024, quando ainda estava no PL, o vereador entregou a medalha da Ordem do Mérito Legislativo ao ex-presidente Jair Bolsonaro, correligionário à época, em homenagem concedida pela Câmara Municipal de Cuiabá.
Segundo a Polícia Civil, os recursos repassados ao Ibrace foram usados majoritariamente para a realização de eventos esportivos, especialmente corridas de rua, por meio de Termos de Fomento firmados com a Secretaria Municipal de Esportes. Além da Corrida do Senhor Bom Jesus, a investigação cita a Corrida do Legislativo Cuiabano e outras provas organizadas nos últimos anos.
Ao todo, a Justiça autorizou o cumprimento de 75 ordens judiciais, incluindo 12 mandados de busca e apreensão e 12 autorizações para acesso a dados armazenados em celulares e outros dispositivos eletrônicos. Também foram alvos da operação servidores públicos, empresários, o presidente do Ibrace, assessores parlamentares e o proprietário da empresa investigada.
O juiz responsável pelo caso negou pedidos de prisão preventiva contra o vereador e outros investigados. Em substituição, determinou o afastamento cautelar dos cargos e a exoneração de servidores da Câmara Municipal envolvidos, além do bloqueio de bens. A defesa de Chico 2000 ainda não se manifestou, e o espaço segue aberto para posicionamento.