Governo orienta aliados a intensificar ataques a Flávio Bolsonaro
Estratégia marca mudança do Planalto diante do avanço do senador nas pesquisas e prevê atuação de parlamentares e movimentos sociais contra o adversário
247 - A cúpula do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a orientar aliados a adotarem uma postura mais ofensiva contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontado como um dos principais adversários do petista na disputa presidencial de 2026. As informações foram divulgadas pelo jornal Folha de S.Paulo.
A mudança de estratégia ocorre após avaliações internas de que a candidatura do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro deixou de ser uma hipótese e passou a ser tratada como um cenário consolidado. O novo posicionamento marca uma inflexão no comportamento de aliados de Lula, que até então evitavam ataques diretos ao senador.
Mudança de cálculo político
Nos últimos meses, integrantes do governo e da base aliada vinham evitando movimentos coordenados contra Flávio Bolsonaro. O receio era de que uma ofensiva antecipada pudesse enfraquecê-lo a ponto de tirá-lo da disputa, abrindo espaço para um adversário considerado mais competitivo, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Tarcísio chegou a ser cogitado como nome do bolsonarismo para a eleição presidencial, mas acabou preterido após a indicação de Flávio como representante do grupo político liderado por Jair Bolsonaro. Ainda assim, o governador é visto como uma alternativa caso o senador perca força ao longo da pré-campanha.
O cenário, porém, evoluiu de forma diferente do esperado por setores do governo. Pesquisa recente do Datafolha mostrou que Flávio Bolsonaro não apenas se manteve competitivo, como aparece tecnicamente empatado com Lula em um eventual segundo turno.
Orientação à base e movimentos sociais
A nova diretriz foi reforçada na terça-feira (17) pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, durante um almoço com deputados do PT na Câmara. Embora tenha apresentado a avaliação como pessoal, parlamentares interpretaram a fala como um recado alinhado ao próprio presidente.
Além do Congresso, movimentos sociais ligados ao campo lulista também foram incentivados a “virar a chave” e adotar postura mais ativa, entrando em ritmo de pré-campanha eleitoral.
Linhas de ataque e estratégia
Entre os eixos da ofensiva, aliados do governo pretendem intensificar comparações entre a atual gestão e o governo Bolsonaro, além de retomar temas sensíveis ligados ao passado político de Flávio. Um dos pontos citados é o caso das chamadas “rachadinhas” em seu gabinete quando era deputado estadual no Rio de Janeiro — investigações que foram encerradas em 2021 após anulação de provas pela Justiça.
Outro foco será questionar a imagem de moderação que o senador tenta construir no cenário nacional.
O Partido dos Trabalhadores também já sinalizou essa linha em resolução política divulgada na mesma terça-feira, com críticas diretas ao parlamentar. O documento afirma: “Trata-se de um parlamentar marcado por denúncias e investigações envolvendo esquemas de rachadinha, movimentações financeiras suspeitas e um histórico de enriquecimento incompatível com a vida pública”.
Empate técnico e alerta no Planalto
Segundo o Datafolha, Lula aparece com 46% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 43% de Flávio Bolsonaro — cenário de empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Integrantes do governo avaliam que o desempenho do senador reflete, em parte, o capital eleitoral herdado de Jair Bolsonaro, que obteve 49,1% dos votos válidos no segundo turno de 2022, contra 50,9% de Lula.
Para aliados do presidente, um eventual avanço adicional de Flávio nas pesquisas seria um sinal mais preocupante, pois indicaria possível migração de eleitores que hoje apoiam o atual governo.
Papel de Lula e cuidados com a gestão
Apesar da mudança de postura, a estratégia prevê que Lula não lidere diretamente os ataques ao adversário, ao menos neste momento. A ideia é preservar a imagem institucional do presidente, que deve manter o foco em agendas de governo, como entregas de obras e políticas públicas.
A linha de frente da ofensiva ficará a cargo de parlamentares da base e de figuras como Guilherme Boulos e a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann.
Ao mesmo tempo, o governo busca evitar desgastes que possam afetar a popularidade presidencial. Medidas para conter o preço do diesel e prevenir uma possível greve de caminhoneiros estão entre as prioridades, já que uma paralisação da categoria é vista como risco econômico e político relevante.
