Invasão do MST no set e medo da Venezula: os delírios do ator que interpretou Bolsonaro em sua passagem pelo Brasil
Ator que interpretou Jair Bolsonaro relatou preocupação com segurança e foi substituído por dublê em cenas finais
247 - Jim Caviezel deixou as filmagens de Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro, dias antes do encerramento dos trabalhos no Brasil, em meio a preocupações com segurança pessoal e ao temor de que a tensão política pudesse representar riscos no set.
As informações são do O Globo. Segundo relatos de integrantes da produção, o ator norte-americano, escalado para interpretar Jair Bolsonaro, exigiu cuidados adicionais durante as gravações, demonstrou medo na cena da facada e chegou a pedir um plano de evacuação após declarações de Donald Trump sobre a Venezuela.
A saída antecipada de Caviezel obrigou a produção a concluir parte das cenas com dublês e figurantes. O ator permaneceu cerca de seis semanas no país e teria chegado ao Brasil aproximadamente dez dias depois do início das filmagens. Ao longo do período, sua rotina foi marcada por forte esquema de proteção, que incluía seguranças norte-americanos e brasileiros.
Nos bastidores, de acordo com integrantes do longa, Caviezel mantinha pouca interação com profissionais brasileiros da equipe. A produção também disponibilizava um trailer de apoio para que o ator permanecesse reservado entre uma cena e outra, enquanto substitutos técnicos eram usados nos ensaios de marcação antes de sua entrada no set.
O filme ganhou maior atenção pública depois da revelação de que teve patrocínio de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, preso sob acusações de lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa, táticas de intimidação, coerção e outros crimes. A ligação financeira do projeto passou a ser um dos pontos de maior desgaste em torno da produção.
Segundo relatos ao jornal, o ambiente no set era marcado por uma percepção constante de risco, associada ao caráter político do filme. Um integrante da equipe afirmou que havia receio de episódios de confronto ou invasão.
“Temiam que o MST invadisse o set, coisas desse tipo”, disse um integrante da equipe.
A tensão teria aumentado depois que Caviezel acompanhou notícias sobre a megaoperação policial realizada no Rio de Janeiro em outubro, que deixou 122 mortos. O episódio, segundo a apuração, contribuiu para elevar a preocupação do ator com sua segurança durante as gravações no Brasil.
A Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse, confirmou em nota que Caviezel manifestou preocupação com o contexto político do filme e afirmou que o ator seguia protocolos próprios de segurança.
"De fato, Jim Caviezel demonstrou preocupação com o cenário de polarização política envolvendo o contexto retratado pelo filme, especialmente após o atentado sofrido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e diante do ambiente de forte tensão política internacional existente naquele período. Como ator norte-americano de grande notoriedade internacional e já associado a produções politicamente sensíveis e de forte repercussão mundial, Caviezel possui protocolos rigorosos de segurança pessoal definidos por sua própria equipe", informou a produtora.
Entre as medidas adotadas no set estavam revistas frequentes de profissionais, restrição ao uso de celulares e controle rígido de acesso às áreas de gravação. O Hospital Indianápolis, usado como cenário para as cenas de internação de Bolsonaro, era isolado pela equipe de segurança do filme e contava com equipamentos de reconhecimento facial.
As medidas provocaram incômodo entre trabalhadores da produção. Ao menos 15 pessoas registraram reclamações no Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado de São Paulo, o Sated-SP. Os relatos mencionaram, entre outros problemas, revistas pessoais consideradas constrangedoras.
Um profissional ouvido pelo jornal associou diretamente as revistas aos temores demonstrados por Caviezel, especialmente durante a preparação da cena que reproduzia a facada contra Bolsonaro.
“Ele expressava medo de receber uma facada de verdade durante a gravação da cena da facada em Bolsonaro. Por isso a exigência de que todos os figurantes fossem sempre revistados”, afirmou o integrante da equipe.
A sequência da facada foi gravada na última semana de filmagem, concluída em 7 de dezembro. O cenário escolhido foi o centro de São Paulo, ambiente que, segundo relatos, não transmitia segurança aos norte-americanos envolvidos na produção.
Outro fator que elevou a tensão foi um comunicado de Donald Trump, no dia 3 daquele mês, orientando cidadãos norte-americanos a deixarem a Venezuela "imediatamente". Segundo a equipe, a declaração repercutiu diretamente no entorno de Caviezel e levou o ator a pedir um plano de evacuação para deixar o Brasil, caso considerasse necessário.
De acordo com um integrante do projeto, Caviezel queria que a produção preparasse alternativas para uma saída “por terra, ar e mar”. O planejamento, segundo o relato, chegou a ser executado pela equipe.
"Acho que ele pensou que a Venezuela era aqui perto", brincou o integrante do projeto.
O mesmo profissional afirmou que Caviezel quis deixar o Brasil no dia em que Trump fez o comunicado.
“Ele quis ir embora no mesmo dia (que Trump emitiu o comunicado)”, relatou.
O diretor Cyrus Nowrasteh convenceu o ator a permanecer no Brasil naquele momento, mas Caviezel acabou retornando aos Estados Unidos antes do fim das gravações. Com isso, cenas complementares tiveram de ser finalizadas com recursos técnicos e substituições no cronograma original.
Em nota, a Go Up afirmou que a decisão de antecipar o retorno do ator foi tomada pela equipe de segurança privada de Caviezel.
"Após manifestações públicas do então presidente Donald Trump recomendando atenção redobrada de cidadãos americanos em determinados cenários internacionais da América Latina, a equipe de segurança do ator optou por antecipar seu retorno aos Estados Unidos como medida preventiva", declarou a produtora.
A empresa também disse que a adaptação das filmagens seguiu práticas comuns da indústria cinematográfica.
"A produção respeitou integralmente as decisões tomadas pela equipe de segurança privada do ator, assim como é comum em grandes produções internacionais envolvendo talentos de Hollywood. Em razão dessa adequação logística, algumas cenas complementares foram finalizadas com recursos técnicos usuais da indústria cinematográfica, incluindo dublês e ajustes de cronograma, prática absolutamente normal em produções de grande porte", afirmou a Go Up.
A produtora não comentou especificamente o pedido de plano de evacuação nem o suposto medo de uma facada real, embora tenha sido questionada sobre esses pontos. O jornal também procurou os agentes que representam Caviezel nos Estados Unidos, mas não recebeu resposta. O espaço permanece aberto para manifestação.



