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Lula visita Alemanha com foco no acordo Mercosul-União Europeia

Viagem ocorre às vésperas da entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o chanceler alemão, Friedrich Merz, em reunião na África do Sul, às margens da Cúpula do G20 - 22/11/2025 (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inicia neste fim de semana uma viagem à Alemanha com forte ênfase na agenda econômica e no avanço do acordo entre Mercosul e União Europeia. A visita acontece em um momento estratégico, às vésperas da entrada em vigor provisória do tratado comercial, considerado um dos principais eixos da política externa brasileira. O encontro entre Lula e o chanceler Friedrich Merz marcará o terceiro diálogo entre os dois líderes, desta vez em caráter bilateral.

Segundo reportagem da Deutsche Welle (DW), a aproximação ocorre em meio a um contexto de forte interdependência comercial entre os dois países, que mantêm relações econômicas relevantes e complementares, com destaque para o setor industrial e investimentos de empresas alemãs no Brasil.

Relações econômicas e presença empresarial

O Brasil é atualmente o principal parceiro comercial da Alemanha na América Latina, enquanto a Alemanha ocupa posição de destaque entre os parceiros do Brasil na União Europeia. Mais de 1.500 empresas alemãs atuam em território brasileiro, incluindo gigantes como BASF, Bosch, Siemens e Volkswagen.

Para reforçar essa relação, Lula levou centenas de representantes e mais de 160 expositores à Hannover, buscando consolidar a imagem do país como um ator relevante na indústria global e nas cadeias produtivas sustentáveis.

Agenda econômica e protagonismo na Feira de Hannover

A passagem por Hannover concentra parte central da agenda presidencial. O Brasil será o país homenageado na tradicional Feira Industrial, considerada a maior do setor no mundo. Lula participará da abertura do evento e visitará o estande brasileiro, que reúne cerca de 140 empresas e ocupa uma área de 2.700 metros quadrados.

O espaço expositivo brasileiro está dividido em áreas como transição energética, hidrogênio, digitalização, indústria avançada, economia circular e inteligência artificial. A feira também destaca o papel estratégico do Brasil no cenário global. Segundo o CEO do evento, Jochen Köckler:

 "O Brasil é o país parceiro ideal para a Feira de Hannover, não apenas por sua força em tecnologias-chave como digitalização e energias renováveis, mas também por sua crescente importância geopolítica. Em uma economia global em constante transformação, a estreita cooperação com o Brasil é de imensa importância estratégica. Essa combinação torna o país um parceiro indispensável para a Alemanha e a Europa"

Além da feira, Lula participa do Encontro Econômico Brasil–Alemanha, que reúne empresários e autoridades dos dois países para discutir investimentos, inovação, energia renovável e infraestrutura.

Comitiva ampla e acordos previstos

A viagem conta com uma delegação de 14 ministros, além de representantes de instituições estratégicas, como o BNDES, Petrobras, Polícia Federal e ApexBrasil. A expectativa é de assinatura de pelo menos dez acordos bilaterais em áreas como defesa, meio ambiente, bioeconomia, infraestrutura e inteligência artificial.

Outro ponto de destaque é a terceira rodada das consultas intergovernamentais de alto nível entre Brasil e Alemanha, mecanismo de diálogo restrito a poucos parceiros de Berlim. A retomada desse formato, interrompido por anos, simboliza o fortalecimento das relações bilaterais.

Foco em indústria e energia limpa

A estratégia brasileira inclui a promoção da política de reindustrialização baseada na iniciativa Nova Indústria Brasil, lançada há dois anos. O país aposta em um modelo industrial de longo prazo, com ênfase em inovação, descarbonização e energias renováveis.

O deputado alemão Anton Hofreiter, do partido Os Verdes, destacou à DW a importância dessa aproximação:  "Europa, e em particular a Alemanha, deveriam prestar ainda mais atenção ao Brasil, já que este país é um aliado potencialmente próximo das democracias europeias.  "Espero que a atenção se afaste da disputa sobre a agricultura e se concentre no âmbito onde há maior valor agregado para ambos os países, ou seja, no setor industrial”, ressaltou o parlamentar. 

Tensões recentes e críticas energéticas

Apesar do avanço nas relações, declarações anteriores do chanceler alemão Friedrich Merz sobre a cidade de Belém, após a COP30 em 2025, geraram desconforto diplomático. O episódio, no entanto, foi parcialmente superado com a retomada do diálogo bilateral. 

Hofreiter criticou ainda a política energética alemã ao afirmar que “atualmente não temos uma crise energética, mas sim uma crise de energias fósseis, às quais ainda se apegam." Segundo ele, o Brasil pode contribuir para equilibrar esse cenário, dado o avanço do país em fontes renováveis como energia eólica e solar.

Acordo Mercosul-União Europeia impulsiona comércio

Outro fator central na aproximação é o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, que entra em vigor provisoriamente em 1º de maio de 2026. O tratado prevê a eliminação de cerca de 90% das tarifas sobre produtos industriais e agrícolas, ampliando significativamente o fluxo comercial.

O cientista político Oliver Stuenkel afirmou à DW que  "o Brasil gostaria muito de fortalecer sua cooperação com a Europa em elementos de terras raras, pois deseja ter o máximo de alternativas possível e não depender exclusivamente da China e dos Estados Unidos." 

Ele também destacou a necessidade de maior protagonismo europeu.  "A Europa, e a Alemanha em particular, precisa partir para a ofensiva e não se acomodar com os louros das últimas décadas", disse. 

Estratégia geopolítica e pragmatismo brasileiro

A atuação internacional do Brasil tem sido marcada por uma estratégia pragmática, buscando diversificar parcerias e evitar alinhamento exclusivo com grandes potências. Lula tem reforçado o papel do país como ator relevante do Sul Global, dialogando com diferentes blocos econômicos.

Stuenkel resumiu essa postura afirmando que  "a história de Lula e seu governo é: 'Queremos ser o mais pragmáticos possível'."

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