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PCC e CV concentram tráfico na Europa e têm baixa atuação nos EUA

Dados de apreensões indicam que cocaína exportada pelo Brasil segue majoritariamente para a Europa

Donald Trump - Símbolos do PCC e CV (Foto: REUTERS/Evan Vucci / Reprodução / Divulgação)
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247 - O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) têm participação limitada no envio de drogas para os Estados Unidos, apesar de terem sido classificados como organizações terroristas pelo governo do presidente Donald Trump. Dados de apreensões e análises de especialistas apontam que a cocaína que sai do Brasil tem como principal destino o mercado europeu.

As informações foram publicadas originalmente pelo jornal O Globo e mostram que a justificativa apresentada pelo Departamento de Estado dos EUA para enquadrar as facções brasileiras como terroristas está relacionada ao combate ao narcotráfico. Em comunicado, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que o governo americano continuará utilizando todos os instrumentos disponíveis para impedir a entrada de drogas no país e interromper o financiamento de grupos criminosos.

Levantamento da Receita Federal revela que, entre 2016 e 2025, a alfândega do Porto de Santos registrou 345 apreensões de cocaína destinadas a 68 portos distribuídos em 50 países. A maior parte das cargas tinha como destino ou ponto de transbordo cidades europeias, especialmente Antuérpia, na Bélgica, Valência, na Espanha, e Roterdã, na Holanda. Não foram identificadas apreensões relacionadas a remessas destinadas aos Estados Unidos.

Especialistas contestam narrativa americana

Para Gabriel Patriarca, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), fatores geográficos e logísticos ajudam a explicar a ausência de relevância da rota brasileira para o mercado americano. "É uma questão geográfica e de logística. É muito complicado você importar a droga para o Brasil, do Peru, da Bolívia, da Colômbia, para depois exportar de volta para os Estados Unidos", afirmou.

O pesquisador ressalta ainda que o fluxo contrário é mais frequente. Segundo ele, apreensões de armas provenientes dos Estados Unidos têm sido registradas com regularidade no Porto de Santos. Dados da Polícia Federal apontam pelo menos 26 ocorrências entre 2016 e 2024.

A professora de Relações Internacionais da PUC-SP Priscila Villela avalia que a decisão americana possui um componente estratégico mais amplo. "Os Estados Unidos não são um destino significativo e importante das drogas movidas por essas organizações brasileiras", declarou. Para ela, a medida amplia instrumentos políticos, jurídicos e discursivos construídos durante a chamada guerra ao terror e agora direcionados à América Latina.

Amazônia ganha importância nas rotas do tráfico

Pesquisas recentes indicam que a expansão das facções para a região amazônica tem alterado a dinâmica do tráfico internacional. Segundo Gabriel Funari, pesquisador da Iniciativa Global Contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), novas rotas vêm ganhando espaço, especialmente no Norte do país.

"Uma desses caminhos, a Rota do Solimões, faz o escoamento por Belém e Barcarena e já era bem conhecida, mas a gente tem identificado uma porta de saída cada vez maior pelo Amapá, no Porto de Santana", afirmou. O especialista observa que a crescente influência do Comando Vermelho em Belém tem levado o PCC a buscar alternativas logísticas na Amazônia.

Funari também destaca uma mudança no perfil do CV. "A gente está vendo o Comando Vermelho assumindo um papel cada vez mais relevante no tráfico internacional, o que é uma novidade, porque até os últimos anos o CV realmente só se preocupava com o varejo. E nós vemos a atuação deles principalmente pela Amazônia."

Debate sobre classificação como terrorismo

Embora o tráfico do Brasil para os Estados Unidos seja considerado reduzido, autoridades brasileiras afirmam que o PCC demonstra interesse em ampliar sua atuação na América do Norte. O promotor Lincoln Gakiya, que investiga a facção há mais de duas décadas, relatou contatos recentes com autoridades americanas. "Não posso dizer que (a reclassificação) é de natureza puramente política, porque o PCC também está agindo nos Estados Unidos já", afirmou. Segundo ele, reuniões com integrantes do FBI e da DEA abordaram preocupações sobre a presença de integrantes da facção no tráfico interno americano.

Já Priscila Villela sustenta que a classificação das organizações criminosas como terroristas não representa um avanço técnico no combate ao crime organizado. "A gente já tem leis referentes a crime de tráfico de drogas, leis referentes a organizações criminais, cooperação internacional e convenções internacionais", afirmou. Para a pesquisadora, a cooperação entre Brasil e Estados Unidos já ocorre de forma consolidada, tornando questionável a necessidade de um novo enquadramento jurídico.

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