Miguel Nicolelis: é prematuro chamar situação da pandemia no Brasil de "platô"

"Podemos ficar nesse nível de mortes diárias por muito tempo", afirma o cientista Miguel Nicolelis, que critica duramente a reabertura no País. "Estamos pulando no abismo de mãos dadas". Assista na TV 247

Miguel Nicolelis
Miguel Nicolelis (Foto: Brasil247 | REUTERS/Amanda Perobelli)
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247 - O cientista Miguel Nicolelis, coordenador do Comitê Científico do Nordeste, fez uma análise completa do estágio da pandemia do novo coronavírus no Brasil em entrevista à TV 247 e alertou: “o pior ainda não passou”.

“É importante que as pessoas entendam que o vírus está circulando, está circulando como nunca circulou no Brasil. Essa é uma bifurcação histórica do Brasil onde vamos ter que decidir que tipo de País nós queremos ter. Não há mais como esperar. A sensação que eu tenho é que o Brasil está se comportando como um adolescente. Não dá mais para ser um País adolescente, é preciso rapidamente virar um País adulto. Estamos em uma pandemia global, temos mais de meio milhão de mortos no mundo, a possibilidade de chegarmos a um milhão de mortos antes do final do ano é absolutamente real. A possibilidade de o Brasil dobrar o número de óbitos que temos no País nas próximas quatro ou seis semanas é absolutamente real”.

Ele refutou a ideia de que o avanço do coronavírus no País tenha se estabilizado - o chamado 'platô' - e ainda afirmou que é possível que o Brasil se mantenha nos altíssimos números de contágio e óbito atuais por muito tempo. “Acho prematuro chamar isso de platô ou chamar isso de estabilização porque nós podemos ficar nesse nível de casos diários e de mortes diárias por muito tempo. Mesmo que a gente tenha um platô, vamos supor por uma semana, ninguém garante que isso é estável”.

Sobre o estado e a cidade de São Paulo, que vem deixando o isolamento social cada dia mais, Nicolelis explicou que não se pode acreditar em um isolamento pela metade na região. “Quando você tem fluxos rodoviários contínuos com 38 cidades da Grande São Paulo e você não fecha isso, se São Paulo abre o resto está semifechado, São Paulo vai receber esse fluxo. A Grande São Paulo é uma entidade dinâmica hiperconectada, você consegue fechar a Grande São Paulo fechando uma cidade, ou duas, ou três, são 38 cidades se não me engano. Vamos supor que você feche 37, mas você deixa a cidade de São Paulo aberta: essa cidade de São Paulo vai mandar pacientes pelas rodovias para todos os lugares. Não tem cabimento nenhum abrir São Paulo, não faz o menor sentido”.

Ele disse também que, a exemplo de outros países, o lockdown tem de ser levado a sério e aplicado com firmeza. Caso contrário, o fechamento apenas prolonga a crise. “Não dá para fazer lockdown meia boca, porque senão vamos ficar nessa situação por meses. A Itália errou no começo, mas quando ela entrou, ela entrou. A Itália abriu. A mesma coisa a França, Espanha. Alemanha, que foi o melhor manejo na Europa junto com a Grécia, fez direitinho, foi nas casas, testou. Bom, semana passada ou retrasada apareceu um foco nos frigoríficos e fechou de novo, eles não exitaram porque entendem a dinâmica do vírus”.

O cientista e professor universitário também criticou a volta às aulas neste momento, dizendo inclusive que não mandaria seus filhos à escola. Ele criticou ainda a volta do futebol e colocou em xeque as eleições municipais de 2020.

“Em relação à escola, isso é uma obsessão mundial, é uma coisa de louco, eu não me conformo. Eu não consigo pensar qual é o drama de não mandar as crianças para a escola, eu não mandaria meus filhos nesse momento para escola nenhuma, eu não mandaria para lugar nenhum nesse instante em lugar nenhum do planeta. É a mesma coisa do futebol. Por que o País precisa de futebol nesse momento? Qual é a necessidade de jogar bola nesse momento? O Brasil precisa parar para pensar se realmente dá para ter eleição esse ano".

Sobre a hidroxicloroquina, que voltou à pauta depois de Jair Bolsoanro dizer que foi infectado pelo coronavírus e que está fazendo uso da medicação, Miguel Nicolelis disse mais uma vez que o remédio não tem nenhuma eficácia comprovada no tratamento da Covid-19, assim como qualquer outra medicação. “A cloroquina, basicamente, se a pá de cal já não foi posta nesta altura eu já não sei mais o que pode ser feito para pôr a pá de cal. Neste momento não tem nenhuma droga que trate o coronavírus. Eu não daria para mim e nem para nenhum membro da minha família nenhum desses remédios que fazem propagandas”.

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