Artistas traduzem Brasília sem palavras
Artistas traduzem Brasília em expressões que revelam identidade cultural da capital
247 - Artistas traduzem Brasília sem palavras ao explorar diferentes linguagens criativas que revelam a identidade cultural da capital federal e sua diversidade social. A cidade, marcada por contrastes históricos e arquitetônicos, inspira manifestações artísticas que vão do teatro à moda, passando pela música e pelas artes visuais.
A reportagem da Agência Brasil mostra como criadores de diferentes áreas encontram maneiras de expressar Brasília sem recorrer ao discurso verbal, resgatando memórias, trajetórias e influências que compõem a complexidade da capital construída há mais de seis décadas.
Expressão corporal e resistência social
O mímico Miqueias Paz, de 62 anos, é um dos exemplos dessa tradução artística. Ele utiliza o corpo e o silêncio para representar as desigualdades, a rotina e as vivências da cidade. Chegou a Brasília ainda criança e encontrou no teatro, durante a adolescência, uma forma de expressar experiências ligadas à periferia e aos migrantes.
“Eu já começava a fazer mímica intuitivamente a partir das minhas histórias sociais: as coisas que eu vivia, que eu sentia, o ônibus apertado, a falta de grana. Esse passou a ser um eixo do meu trabalho”, afirmou.
Ao longo da carreira, Miqueias também enfrentou episódios de repressão e microviolências. Durante a década de 1980, participou de apresentações que passaram por censura. Ainda assim, ganhou visibilidade ao celebrar o fim da ditadura com um gesto simbólico no Congresso Nacional.
“Eu acabei tendo mais visibilidade em relação às pessoas dos movimentos sociais e passei a ser muito chamado por sindicatos”, relatou.
Atualmente, ele mantém o teatro Mimo, localizado na comunidade 26 de Setembro, com foco em acolher artistas independentes e ampliar o acesso à cultura.
Música e identidade cultural
Outra forma de traduzir Brasília surge na música do grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, criado por Tico Magalhães. Inspirado pelo Cerrado e pela história da capital, o artista desenvolveu o ritmo conhecido como samba pisado.
“Uma invenção para a cidade, uma tradição para ela, para essa cidade inventada”, afirmou.
Segundo Magalhães, o ritmo mistura influências de manifestações nordestinas como maracatu e cavalo marinho, além de outros elementos culturais.
“Achei que precisava criar algo que fosse novo também em relação a um pulso, um coração, uma batida própria. A gente chama de samba pisado e, a partir daí, a gente começa a tocá-lo”, explicou.
Ele também destaca a diversidade da formação cultural da cidade. “Quando você junta gente de muito lugar, a cidade começa a apresentar suas próprias tradições. O Seu Estrelo carrega a junção de tanta gente. A cidade inventa a gente e a gente inventa a cidade”.
Moda inspirada na arquitetura
A arquitetura de Brasília também se transforma em inspiração para a moda. Os estilistas Mackenzo e Felipe Manzoli traduzem formas urbanas em peças de vestuário, criando coleções baseadas nas linhas e estruturas da capital.
“Porque Brasília, para mim, não é apenas essa arquitetura. Ela é quase mítica”, afirmou Mackenzo.
Os dois destacam que o processo de criação envolve técnicas semelhantes às da engenharia. “O terreno, que é o corpo, é essa parte da engenharia da peça”, explicou.
Para eles, o trabalho também representa uma homenagem às histórias familiares ligadas à construção da cidade.
Arte visual e cores da cidade
A artista visual Isabella Stephan utiliza cores e formas para expressar o que define como a “alma da cidade”. Seu trabalho, que começou em telas, passou a ser aplicado também em roupas.
“São obras que transitam entre o figurativo e o abstrato que exaltam a alegria enquanto tema”, disse.
Ela observa o contraste entre o concreto predominante na arquitetura e o dinamismo da vida urbana. “Brasília é uma cidade de muito branco, onde reina o concreto na arquitetura da cidade, uma cidade cheia de linhas”.
Influência arquitetônica no processo criativo
A estilista Nara Resende, arquiteta de formação, também encontra na cidade sua principal fonte de inspiração.
“As formas simples e a geometria sempre marcaram muito o meu processo criativo. Estar hoje em Brasília, com a minha marca, só reforça o quanto esse repertório foi construído a partir dessas bases”, afirmou.
Ela destaca o contraste entre natureza e arquitetura como elemento central. “Minha inspiração acontece muito nas ruas, onde a vida pulsa e as pessoas circulam”.
Ao reunir diferentes linguagens e trajetórias, os artistas mostram que Brasília segue sendo reinterpretada continuamente, não apenas como espaço urbano, mas como símbolo cultural em constante construção.
