Conflito com Irã pode encurtar o ciclo de cortes de juros no Brasil, diz secretário do Tesouro
Para Rogério Cerón, escalada no Oriente Médio pode pressionar inflação via petróleo e levar BC a interromper afrouxamento monetário antes do previsto
(Reuters) - O próximo ciclo de cortes na taxa de juros do Brasil pode ser mais curto do que o previsto atualmente, caso o conflito no Irã se prolongue e exerça maior pressão de alta sobre os preços do petróleo, disse o secretário do Tesouro, Rogério Cerón, nesta segunda-feira (2/3).
Ele ressaltou, no entanto, que não vê nenhuma mudança no plano do banco central para este mês, depois que os formuladores de políticas sinalizaram o início do afrouxamento monetário em sua próxima reunião de política monetária, nos dias 17 e 18 de março.
O banco central interrompeu um ciclo agressivo de aperto monetário em julho do ano passado e, desde então, mantém sua taxa básica de juros, a Selic, em um patamar próximo ao mais alto em 20 anos, de 15%, numa tentativa de direcionar a inflação – que foi de 4,1% em fevereiro – para perto de sua meta de 3%.
Ceron afirmou que a perspectiva de curto prazo permanece inalterada, uma vez que o recente fortalecimento do real brasileiro ajudou a compensar as pressões inflacionárias decorrentes da alta dos preços do petróleo após os ataques lançados pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã.
"Não acredito que haverá qualquer mudança no cenário delineado pelo banco central", disse ele em um evento organizado pelo jornal Valor Econômico.
"O que pode acontecer mais adiante é que a pausa (nos cortes de juros) ocorra mais cedo, caso essa incerteza e o repasse para os preços comecem a se intensificar."
Antes do conflito, economistas consultados semanalmente pelo Banco Central do Brasil previam sete cortes nas taxas de juros em 2026, com a taxa Selic fechando o ano em 12%.
Impactos macro positivos
Ceron observou que os preços mais altos do petróleo têm efeitos positivos nas contas públicas do Brasil, pois aumentam a receita do governo proveniente de royalties e dividendos pagos pela gigante petrolífera estatal Petrobras.
O petróleo é o principal produto de exportação do Brasil. Ceron lembrou que uma dinâmica semelhante ocorreu entre 2022 e 2023, após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
O secretário do Tesouro disse que o orçamento deste ano inclui uma previsão de 30 bilhões de reais (US$ 5,77 bilhões) em receita proveniente de leilões de participações em campos de petróleo, um valor que pode aumentar em função da alta dos preços do petróleo bruto.
O orçamento foi elaborado com base em um preço médio do petróleo de cerca de 65 dólares por barril.
Na segunda-feira, porém, o petróleo Brent estava sendo negociado acima de US$ 79, com muitos analistas prevendo que os preços permanecerão elevados nos próximos dias, enquanto os mercados avaliam o impacto da escalada do conflito no Oriente Médio sobre o fornecimento através do Estreito de Ormuz, rota responsável por mais de 20% das remessas globais de petróleo.
A Ceron afirmou que o petróleo a até US$ 85 o barril tem efeitos fiscais positivos, mas alertou que preços acima de US$ 100 "começam a criar uma pressão inflacionária real e a desencadear outras repercussões".
(US$ 1 = 5,2031 reais)
