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Consumo da população negra redefine estratégias do mercado global

McKinsey & Company aponta impacto de US$ 1,7 trilhão até 2030

Cáren Cruz (Foto: Laila Andrade / Divulgação)

247 - O crescimento do consumo da população negra tem provocado mudanças no mercado global, pressionando empresas a rever estratégias e ampliar sua capacidade de diálogo com um público cada vez mais influente. Em diferentes setores, como moda, beleza, alimentação e bem-estar, esse movimento tem redefinido padrões e ampliado a competitividade.

Segundo a McKinsey & Company, esse público deve movimentar cerca de US$ 1,7 trilhão até 2030, influenciando diretamente empresas no Brasil, nos Estados Unidos e em outros países. O levantamento indica ainda que um mercado historicamente avaliado em US$ 910 bilhões passa a incorporar, de forma crescente, fatores como identidade, autenticidade e engajamento social.

O avanço do poder econômico

O estudo mostra que o consumo da população negra ultrapassa a lógica tradicional do luxo e passa a refletir valores pessoais e culturais. Áreas como moradia, alimentação, moda e cuidados pessoais ganham destaque, com forte presença de consumidores que priorizam marcas alinhadas à qualidade e à representatividade.

No segmento de moda e bem-estar, que movimenta cerca de US$ 45 bilhões, o relatório aponta que a demanda do público negro nem sempre encontra resposta proporcional das marcas, evidenciando lacunas no atendimento e na oferta de produtos.

Consumo guiado por identidade

O consumo, nesse contexto, está diretamente ligado à construção de identidade e pertencimento. Essa tese é defendida pela comunicóloga e consultora de imagem à frente da Pittaco Consultoria, especialista em Colorimetria, RP e Investida do ‘Shark Tank Brasil’, Cáren Cruz. Ela explica que o mercado da autoestima trata-se de um ecossistema inteiro de consumo ligado à aparência, no entanto, não é ligado exclusivamente à renda no caso das comunidades afrodescendentes, mas movido pelo pertencimento.  

“O significado de pertencimento aqui não é ‘se sentir bem’ de um jeito abstrato. É a experiência concreta de entrar, circular, comprar e ser reconhecida (sem precisar diluir a própria identidade para ser aceita). Esse deslocamento reorganiza a lógica do consumo: sai o consumo como tentativa de adequação a um ‘padrão neutro’ e entra o consumo como construção de narrativa visual e disputa por reconhecimento social. A aparência vira linguagem com intenção, já que eu não estou apenas escolhendo peças, mas decidindo o que minha presença comunica. Isso inclui cabelo, maquiagem, vestimentas, acessórios, fotografia, modo de se apresentar, repertório e contexto”, explica.

Mercado da imagem em expansão

De acordo com a especialista, o chamado mercado da autoestima vai além do vestuário e engloba um ecossistema mais amplo. Esse ambiente inclui cuidados com cabelo, maquiagem, acessórios, consultorias, fotografia, branding e experiência em loja, além de fatores como cartela de tons, numeração e referências culturais.

Cáren destaca que, no caso da população negra, os chamados códigos não verbais são frequentemente analisados com maior rigor social, o que torna a construção da imagem ainda mais estratégica no consumo.

Impacto na visibilidade e no reconhecimento

Para a consultora, o investimento em produtos e serviços alinhados à identidade tem impacto direto na forma como indivíduos são percebidos socialmente e no reposicionamento do mercado.

“Quando pessoas negras investem em produtos e serviços que respeitam sua estética e organizam sua presença, elas estão dizendo: “eu me valido”, “eu sou referência”, “eu escolho como eu quero ser lida”. E isso desloca a indústria, desloca o mercado e desloca o senso comum porque, quando a narrativa visual muda, muda também quem é reconhecido como digno de prestígio, cuidado e visibilidade. Não é uma questão de vaidade simbólica, de roupa cara, luxo, nem de tentar aproximar a aparência de um padrão. Não é sobre isso. É sobre a condição de a pessoa se olhar no espelho e reconhecer a própria identidade: minha aparência comunica quem eu sou, de verdade. Isso é liberdade”, conclui.

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